Quando me convocaram para esse “suma” e lançaram a ideia genérica do blog fiquei um pouco confuso com o convite. Da minha área profissional não sai nenhuma literatura pública digna. Ler sobre pedras, para quem não conhece ou não repara muito nelas, é bastante chato. Então fiquei um pouco confuso…

O que eu poderia contribuir a esse blog? Não sou escritor, nem gosto muito de escrever sinceramente. Não sou poeta, aliás, acho o troço muito interrompido e abstrato para meu gosto. Gosto de coisas que dá para pegar, sentir, tacar na cabeça de alguém que me irrita. Não sou muito bom com as palavras. Mas por acaso aceitei e por acaso estou aqui.

A primeira palavra da quinzena, “acaso”, me fisgou mais até do que essa de associar valores. Logo eu, que lido com as pedras, sei bem como montanhas, vales, erosões, planícies e planaltos se formam sem que um grão, um sedimento se preocupe com os demais. As pedras cantam e rolam sozinhas.

Eu sei que se você cair morto ao lado de uma pedra, a pedra não está nem aí. Você vira coisa, se decompõe, e seus restos alimentam aquela roca sem que ela sequer resmungue seu nome. Séculos depois encontrarão seu fóssil e especularão sobre sua vida:

“Mimi (seu novo apelido), segundo especialistas, teria sido soldado do regimento de Nápole na Terceira Guerra Mundial. Pelas rachaduras na testa e os dentes quebrados conclúem que o fóssil teria sido abatido por inimigos enquanto tentava desesperada fuga pelo vale Simões.”

Mimi, ou melhor, Marco Antônio, era provavelmente hippie, encostado na sombra de uma árvore fumando um baseadão até sofrer de AVC e cair morto em um parque nacional, que nem vale era. A racha deve ser de tanto levar fruto da árvore na cabeça quando já morto e imóvel. A pedra chegou décadas depois. Nem Mimi, nem a árvore, nem o fruto, nem a pedra e nem o tempo se importaram. Nada no mundo mudou. Ninguém ficou melhor nem pior. A descoberta do fóssil tem pouca importância também. Adivinhar o que foi todo mundo consegue, difícil é saber, menos ainda o que será.

Tem gente que acredita em destino, em signo, em leitura de tarôt e tábua de Ouijá. Ficam dando razão e tirando o deles da reta. Interpretam e dizem que é o universo, um espírito, um deus, uma força superior manipulando a interpretação. Ficam apregoando humildade, mas a real é que estão se gabando de terem sacado o motivo dessa força superior, os segredos do universo. E tudo isso sem precisar virar uma folha ou estudar nada. É só a sacada, ela já basta.

Saquei que eu cheguei atrasado hoje porque o ônibus seria assaltado. O universo me salvou. Me salvou e ferrou com a vida de outras cinquenta pessoas, mas isso também tem explicação. Isso tem motivo, tem que ter. O que faria a baratinha humana se não tivesse sentido? Aquelas cinquenta pessoas tinham dívida “lá em cima” (sempre que alguém diz isso perto de mim eu olho para cima, reflexo, sou curioso de danar), com certeza.

A primeira coisa que eu penso quando leio “acaso” é o conjunto de coisas que me aconteceram e que eu dotei do significado que quis, e se fosse crente acharia que esse significado é o certo, é o único, e que mesmo que outras pessoas dessem outros sentidos, esses também seriam certos. Freud tem uma frase que eu gosto muito. “Sonhos não interpretados são como cartas não abertas.” Para muitos essa interpretação é futura, tem sentido duplo, real, e as coisas e as pessoas que aparecem nos sonhos vem aos sonhos; não são os sonhadores que vão às coisas e às pessoas.

Para Freud era muito mais complexo do que clarividência. Tratava-se de interpretar pensamentos inconscientes que nós produzimos, e se nós produzimos, nós sabemos suas fontes mesmo sem saber que sabemos. É essa a única interpretação que qualquer um pode fazer.

Gosto também de Machiavelli (foi assim que me exemplificaram o que tinha que escrever aqui, com Machiavelli), e sua “fortuna” dos tempos, aquela melindrosa e enganosa que deixa príncipes e súditos malucos de dar dó. Escreveu não leu, amigo, o pau comeu. Sorte é frescura.

Por acaso me chamaram para escrever isso aqui e por acaso eu aceitei. Mas se tiver aí alguém achando que cheguei para ele/ela, pode tirar o cavalo da enchurrada. Eu cobro caro para ser manivela do destino adivinhado. E nem dou nota fiscal.

Armando Asnor é geólogo e ateu assumido

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