Um antigo ditado popular no RS diz que “cavalo encilhado não passa duas vezes”. Isto significa que certas oportunidades acontecem uma única vez na vida. Se o sujeito não monta o cavalo, babaus – só resta seguir o conselho de Nélson Rodrigues e sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho.


Nesta questão o que me intriga particularmente é saber quem encilha o alazão e faz com que ele troteie diante da nossa porteira. Quem determina os atos e fatos que pontuam a nossa existência? Seria o nosso destino obra do acaso?

Não creio. O universo é muito harmônico para ser regido unicamente pelas leis da natureza e do imponderável. Acredito que um maestro oculto rege a orquestra. Na falta de um nome melhor chamo de Deus ou Criador esta inteligência cósmica que dá ordem aos caos.

Acho que se trata de um ente democrático no que diz respeito às trilhas do cavalo encilhado. Em algum momento da nossa vida nos deparamos com oportunidades únicas, compatíveis com as nossas circunstâncias, seja no campo amoroso ou na seara econômica. Nem todos percebem ou aceitam o desafio da montaria. Dotados de livre-arbítrio, temos o direito de escolher o caminho, inclusive a estrada que leva à dor e à destruição pessoal ou coletiva.

Pessoalmente desfrutei de oportunidades que resultaram em prazer, realização e conhecimento. Outras desperdicei e paguei o preço amargo da frustração.

Neste aspecto, um dos episódios mais marcantes aconteceu durante a adolescência. Aos 12 anos conheci a Naira, àquela que veio ao mundo para juntos vivermos a aventura da vida. Tínhamos interesses em comum, os atributos de um preenchiam as carências do outro. Ela era a garota mais bonita do mundo e, com os hormônios em fúria, eu a desejava com uma intensidade que chegava a doer. Mas era uma dor onde a angústia dividia espaço com a delícia. Havia esperança, então.

Toda a turma, e pais, mães, vizinhos e parentes sabiam que havíamos sido feitos um para o outro. A razão não conseguia explicar este destino óbvio. Estava na cara, bastava nos ver juntos, rindo e conversando.

O cavalo, ou melhor, a charrete, no caso, estava preparada esperando nosso embarque. No entanto, prevaleceu a ignorância. Questões de natureza racial (ela branca, eu negro) e econômica (meu pai não tinha tanto dinheiro como exigia a mãe dela) dividiram o que era para ser uma caminhada única.

Naira tinha a minha idade. Morreu aos 45 anos. No enterro não contive as lágrimas e fui admoestado pelo ex-marido – branco, o que fez dele o homem ideal – que disparou a obviedade insensível: “tudo bem, todo mundo morre um dia”. A mãe dela, que 30 anos atrás sepultou nossa perspectiva de felicidade, recusou meu aperto de mão, uniu suas lágrimas às minhas e me acolheu num abraço generoso e confortador.

– Me perdoa. Eu errei.

Acredito que meu encontro com Naira foi engendrado por Deus. A separação foi obra do coveiro da alegria – o obscurantismo que ainda hoje rege as relações humanas. Também tenho a minha parcela de culpa. Mesmo adolescente, deveria ter lutado pela proposta de felicidade que me foi ofertada.

No tabuleiro universal, os dados de Deus mostram o caminho. Não poucas vezes, desprezamos os sinais, chutamos a racionalidade para longe e optamos por remar contra a corrente

Acho que nestas ocasiões, Deus, Lá do Outro Lado, derrama uma lágrima.

Just Jens

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