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Peraê, truta, se for pra falar de São Paulo o negócio é comigo. Já veio um-um e uns-dois aqui querendo mandar algo em homenagem à grandiosa cidade, mas aí não dá, daí ninguém me tira. Jiló nasceu, cresceu e morrerá em São Paulo, mesmo trabalhando temporariamente no interior. De onde vocês acham que conheci a criatura frenkeliana (se pegar amedontra mais do que Frankenstein)? Ele até me disse, “olha lá o texto da Lili Pelegrini, no blogue dela, Jiló, ela sabe escrever sobre a cidade onde mora, vê lá o lixo que você vai arrumar.” ‘Xá comigo, digo eu, o Jiló, sem grilo que eu dou um tranco.

Não tem como falar bem de São Paulo. Não tem como falar mal. É a cidade mais pós-moderna em natureza que eu já perambulei em todos os meus outros pulos. É a cidade mutante-baiana-italiana-judaica-coreana-capitalista-senzala-cimento-concreto-pau-e-pedra-verde-nobre-negro-pobre-misto-rico-bauru-bexiga-sesc-e-pompeia-fezes-atiradas-pelas-janelas-do-centrão-nordestino-amado-odiado-benção-maldição-beleza-da-feiúra-amargura-da-doçura. São os trilhos do metrô, os peidos do busão, Jaçanã, Itaquera, Morumbi, Pacaembú, Bom Retiro e Corinthians. São as beiras do Ibirapuera, o esgoto aberto na calçada vizinha e as árvores respirando o cheiro divino da poluição sanguínea. É a terra dos trutas e das minas, dos manos do Mano, dos fiéis a São Marcos e a São Jorge, dos torcedores genuínos do melhor futebol que o mundo já produziu no Peixe dos anos sessenta.

Não foi por acaso que cheguei aqui, não pode ser. Esse acaso tem coisa. Tem motivo que só se enxerga refletido na pressa reprimida no cruzar-descruzar das pernas, no trincar dos joelhos do paulistano mastigando feijão e farofa às doze badaladas em dia semanal. Assusta a noite escura apenas onde o loco paulistano aceita recebê-la, entre litros de ráios de luz esguichados nos rostos esguios dos doidos varrendo-se pelas calçadas de Vila Madalena. Adverte a madrugada embriagada aos escorregões alcoolizados e batucadas estonteantes no horizonte distanciado pela pressa do automóvel. Atrái o traiçoeiro som do rock-pop-techno-samba-psychodelic-transe das baladas frenéticas. Delas o cheiro de sedução, saliva e genitália despegando das paredes em protuberâncias por pouco visíveis.

Sampa é a cidade do impossível, inadequado, irresistível e apropriado. É a terra da maior falta e excesso de educação do planeta. Nela trafegam carros na velocidade das charretes. O Tietê te mete o ânus no nariz. Pra mim sempre foi massa dizer que nasci onde nasceu Rita Lee, Aytorn Senna, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que admirei e ainda admiro, mesmo cético e cansado justamente por ser paulistanto, acredito. Nômade paulistano sabe cruzar o bandeirante Raposo Tavares, os Jardins da burguesia à qual pertenço desculpado, rapar a Lapa e cortar Pinherios. Tem porém em São Paulo: Se nela ‘cê encontra poesia, meu, parabéns, seus olhos encontrarão poesia em praticamente qualquer outro lugar do mundo. ‘Orra, meu, encontrar poesia em Sampa é tarefa pra mais de óculos 3D, mas tem embaixo da grossa casca pulsante da larva e escrementos de peões, escultores das pedras.

Acho que morar aqui é um privilégio amargo. Escapar ao Guarujá, Caraguátatuba, Ubatuba e Ilha Bela no verão para ver o mar e Campos de Jordão para brincar com fantasmas turísticos no inverno tem seu preço às vezes exorbitante. Os mendigos, pais, mães e filhos em qualquer rua de quase qualquer bairro da cidade, são a lembrança vívida da iniquidade social. Não é à toa, nem clichê, chamá-la de Selva de Pedras. São animais os habitantes, e nem sempre racionais. Cães sarnentos abandonados, alguns amarrados a postes e ali deixados para o todo sempre, gatos gatunos vadiando, comendo gatas e criando crias bastardas, enfestam de pena e espalham o fedor de seus restos orgânicos sobre o cru asfalto rachado. O lixo e o não lixo são um. O melhor do pior, o pior do melhor, tudo entre e fora dessas limitações vivem em São Paulo. É também a terra de Paulo Maluff e dos taxistas malufistas eternos que poderiam ter cunhado a frase “rouba, mas faz”. É a terra do “não me engana, que eu acredito”, e onde quem acredita fica um pé atrás na fila. Por isso eu nem acredito vendo. Aqui o doce do amargo é a aparição que não aparece. Ler as entrelinhas da dama prostituta é sempre um prazer custoso, mas suficientemente aprazível para as próximas voltas. E eu sempre volto, muitas vezes de taxista malufista descendo a Paulista, cruzando a Faria Lima para chegar em casa. Mano que é mano conhece as curvas de sua grande Mina. Fique esperto, e se precisar de uns conselhos dá um toque.

Partiu, então, truta, é o acaso em São Paulo escoado na garôa apimentada, aquarela do pintor Jiló.

Até a próxima, Jiló

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