Gritos, gosma, sussurros e imagens

Estávamos no Enigma, o bar do Sandro e da Mana, reunidos em torno da mesa de sempre quando o amado chefinho Jens perguntou quem queria escrever no Suma Irracional, levantei a mão:

– Eu, eu, eu! Eu quero!

Já tinha ouvido falar que a nova empreitada do lindinho do Roy Frenkiel é um valhacouto virtual (em Portugal se escreve valhacoito. É sério) que abriga um bando de celerados que, em tempos menos liberais, estariam encarcerados ou condenados a realizar trabalhos forçados até o fim dos dias por atentado a moral e aos bons costumes. São todos uns pândegos, ou seja, o meu tipo de turma. Além disto, estava me roendo de ciúmes com a única presença feminina no clube, a minha inimiga figadal Beti Carabina, que já anda se
intitulando “Musa do Suma”. Humpt! Totalmente sem noção, a bruxa.

Mas eu não era a única interessada.

– Eu poderia escrever alguma coisa – disse o Caloca intelectual orgânico que abandonou o trotskismo depois da vitória do Tarso e da Dilma, na esperança de descolar uma boquinha aqui no RS ou lá em Brasília. Não conseguiu, continua vivendo à custa da aposentadoria materna.

O Jorjão, contumaz barranqueador de éguas, também manifestou interesse, para surpresa de todos, que o julgavam analfabeto. Humilde, o campônio revelou que gostava de rabiscar alguns textos despretensiosos em noites de luar, na cocheira, depois de fazer amor com a tordilha Mansinha, sua amásia.

Quando soube que a bronca da Odaléia também se mostrou atraída pela idéia, protestei.

– Aquela tonta vai publicar receita de bolo. O Royzinho vai ter um enfarte.
O chefinho saiu em defesa da vizinha gorda.

– A Odaléia tem um lado que vocês não conhecem. E ela não é gorda, é fofinha. Farta de carnes – falou com romantismo na voz e sonhos nos olhos (Humm… aí tem).

Salomônico, o Jens encontrou um jeito de contentar a todos.

– Se o Roy concordar, vamos fazer um rodízio. A cada semana um de vocês escreve. Depois de completar o ciclo, o Roy decide quem fica. Vamos começar com a Marisinha.

O pessoal concordou.

– Qual é a pauta – perguntei.

– Só uma palavra: berço. A partir daí é com a tua criatividade.

– Gostei. Berço é sinônimo de cama, né? Acho que vou contar uma das minhas
histórias de alcova. Vou botar fogo no boteco.

– Não queridinha, berço não é sinônimo de cama. Aliás, pode ser, mas cama de criança, leito infantil.

Quis protestar contra o cerceamento da produção intelectual, mas ele continuou.

– Acho que o Roy estava pensando nas diferenças sociais entre os que nascem em berço de ouro, bronze ou lata.

Finalmente me deixou falar.

– Tem também quem não nasce em berço nenhum, mas sim nos bancos de táxis ou no banco traseiro de um camburão da gloriosa Brigada Militar. Aliás, este troço de berço está errado. Geralmente a gente nasce numa cama de hospital. Também não gosto do verbo nascer, o mais correto é dizer que a gente é espirrado aos berros pela mãe. Que sufoco.

– Como é que tu sabe? Não tens filho.

– Vi o vídeo do parto da Vilminha. O Walter gravou. Que nojo. A gente nasce coberta de sangue e meleca.

Pedimos mais uma rodada e bebemos em silêncio, tentando afastar a imagem.

Retomei o assunto por outro ângulo.

– O meu parto ninguém ver. Só os médicos e a enfermeira, isto se a Dona
Veridiana estiver aposentada como parteira. Mais bacana seria gravar o momento da concepção.

A ficha demorou a cair. Como são tontos, os homens.

– Como assim… tu quer dizer…- tartamudeou o Caloca.

– Isto mesmo, o momento da fecundação. Antes, durante e depois.

– Acho que alguém bebeu demais – observou o chefinho ternamente cínico.
Defendi meu ponto de vista.

– Na boa, seria uma visão bem mais agradável do que assistir uma mulher suando, descabelada, transfigurada pela dor até espirrar aquela coisinha enrugada, gosmenta. Sem falar na gritaria. O que vocês preferem ouvir: sons lânguidos – ais, uis, assim, assim, mais, mais, mais…agora! – ou berros alucinados: me ajudem, ele está me rasgando toda, tira esta coisa de dentro de mim, vou morrer!?

– Tu és surpreendente – elogiou o Jens.

– Completamente maluca – aprovou o Caloca.

Em silêncio, o Jorjão parecia querer desvendar o futuro no fundo do copo de cerveja.

Estimulada pelos comentários simpáticos, apesar de sintéticos, avancei:

– Não entendo porque os noivos filmam o casamento na igreja, a festa e desligam a câmera quando estão enfim sós. O momento mais importante da cerimônia, a primeira noite da lua de mel também deveria ser gravada. Não é uma coisa lógica? Afinal, é o ápice, o grand finale, a apoteose.

O Jens explodiu numa gargalhada.

– O Roy vai sofrer nas tuas mãos.

O Caloca quis saber quem faria a gravação, talvez pensando em ingressar neste campo profissional. Para sua desilusão esclareci que, se necessário, as
câmeras modernas prescindem de operador.

– Até que a idéia é bacana… – o Jorjão despertou e revelou o resultado da sua ruminação.

Ele sabe que, por enquanto, não pode ter filho com Mansinha. Quanto ao
futuro, é uma incógnita, a Ciência é surpreendente. Mas isto não o impede de oficializar sua união sob a benção do pastor Ataíde, assim chamado por estar sempre com uma Bíblia e ter como única vestimenta um terno preto ensebado. É um pregador inofensivo. À noite peregrina pelos botecos distribuindo bênçãos a granel em troca de uns trocados que perde nas máquinas de bingo. Celebra batizados e aceita encomendas de orações para os enfermos. Por 50 paus vai realizar o casamento do Jorjão com a Mansinha.

O noivo já decidiu: a lua de mel será filmada

Texto: As Regras do Jogo

Anúncios