Nova Palavra da Vez

Eu, de berço, entendo muito ou pouco, depende a perspectiva. Aos dezessete anos, em uma viagem de São Roque a São Paulo perguntei a meu pai onde eu morava. Meus pais já estavam divorciados, melhor estado do que casados, na turbulência conflituosa que conviviam. Papai respondeu, serenamente, a barba já grisalha do tempo, o ruivo dourando da idade, os olhos concentrados na estrada que chamava “A Rodovia dos Macacos”, que eu morava onde possuía escova de dentes. Portanto, prosseguiu, deveria comprar duas, uma para a casa de meu pai, em São Roque, e outra para a casa de minha mãe, em Miami.

Mal sabia que seria uma de nossas últimas conversas. Papai faleceu poucos meses depois. Recebi a notícia em Miami, na volta desta última visita. Mal sabia, aliás, que precisaria de muitas escovas de dentes. Não seguia uma lógica linear de moradias. Vivia aqui um ano, lá outro, acolá ainda mais um e assim por diante. Ora dormia sob o teto de meu pai e tio, ora de minha mãe ou até os irmãos mais velhos, alternando de galho em galho. Aos vinte aluguei o apartamento do qual meu irmão foi despejado em Ramat Gan, Israel. Logo voltei a morar com minha irmã mais nova em New York, dessa vez em papel de mentor (mediocremente atuado). Os amigos, a família, os vizinhos, todos mudavam quando eu mudava em constância sobrenatural. A maioria ficou na memória. Os que sobreviveram, salvo raras exceções, viraram amigos de redes sociais virtuais.

Meu berço é o hospital Kaplan, localizado em Rechovot, cidade vizinha de Rishon LeTzion, onde vivi quatro anos de minha vida juvenil. Lá nasci, no mesmo quarto em que nasceu Maya pouco menos de quatro anos depois. Meu berço é também a Polônia de meus todos ancestrais, mesmo que distante de minha memória visual por jamais tê-la visitado. Varsóvia, os guetos e os campos de concentração fazem parte de minha mais básica educação. Meu berço é a Colômbia de minha mãe. Meu primeiro idioma foi o Espanhol, afinal de contas. Café colombiano ainda permeia minhas veias e bombeia meu coração de arritmias malucas. É também a Bélgica de meu pai, para me gabar da descendência europeia, mas muito mais seu Paraná, cidadezinha de Cornélio Procópio, onde meu pai é lenda eterna desde a zona à escolinha de infantes. A cidade visitei quando fomos à fazenda de um amigo de papai, mas era ainda menino tonto, e os filhos dos caseiros e fazendeiros me faziam ainda mais. Mandavam procurar minhocas no chiqueiro, e eu ía, com minha irmã e a enxada, mal sabendo como segurar o cabo, chafurdando na lama com os porcos. Era bom de trepar árvore, e por isso entrei no grupo. Roubava mangas como maestro, e nunca fui pego. Pescava com as minhocas que não encontrava, obviamente, chafurdando o chiqueiro. Papai amava pescar, e acho que amou mais ainda nos ensinar. Eu não era o único “alemão” da fazenda, de pele clara, de jeito pouco indígena, pouco tupiniquim. Paraná está cheio desses.

Cresci na grande cidade mais cidade do planeta, aquela que Jiló chama de “esgoto aberto”, onde “ratos rastejam e róem metais, borracha, lixo e neon”, mas que também representa o mundo que vivemos sem nenhuma maquiagem eufemista, como bem lembrado por Jiló da virtuosa canção de Veloso. Cresci à beira da praia quando viajávamos aos litorais, em casas alugadas e hotéis fazenda, talvez onde coleciono minhas melhores memórias infantis. Era onde brincava entre a quebra dos ventos, a areia fina grudada à pele, o descascar da mesma após horas frita baixo sol escaldante, as baratas cascudas voadoras, as pranchas de surf, as melindrosas e esburacadas estradas brasileiras, antes da volta frenética à familiar poluição da grande cidade. Era onde fazia amizades dois dias antes de voltar pra cidade depois de duas ou três semanas de férias solitárias, pupilo de Murphy. Cresci um pouco no campo, quando frequentávamos as fazendas dos amigos de meus pais onde testemunhava o abate de bezerros à ceia noturna, e onde me apaixonei pelo sangue jorrado. Quem diria que eu, o pequeno Budha, viria amar sangue poucos anos depois. Cresci muito nas montanhas, quando vivi estudando em Petrópolis dos treze aos dezesseis. Ali cresci com Mary Chris, a filha do caseiro assassinada por um aluno psicótico quando a yeshivá foi construída, o que criou-lhe conflitos espirituais que impediam sua alma do descanso e a forçavam penar os quartos dos alunos novos a puxar seus calcanhares enquanto dormiam para sentir a lucidez de suas almas e garantir que ninguém mais passasse pelo mesmo sofrimento.

Meu berço foi ficando cada vez mais distante de minha identidade e esta cada vez menos ligada à origem de minha vida. Nem sou evidência ou evidencio alguém que se perde, porque nunca estive bem encontrado, por assim dizer. Há vezes que me penso de muita ou pouca sorte em comparação a outros que passam suas vidas enraizados em um lugar só. Sorte porque minha vivência é rica, imersa na complexidade de três culturas completamente diferentes. Sei falar “ser” em cinco idiomas. Sei fazer amor e guerra em três países e dez cidades diferentes. Azar porque considero grande parte de nosso berço as nossas amizades mais antigas, e as minhas majoritariamente ficaram nas antiguidades.

Ser é complicado, essa questão empírica shaekespiriana que nunca se cala. Sermos quem somos e esse destino, ao que será… Muitas vezes extrapolamos até que ponto podemos justificar quem somos a partir de onde viemos. Em tempos carnavalescos a tradição brasileira (e de muitas outras regiões) da folia de rua, da virilidade, sensualidade, sexualidade e libertinagem força muitos não a vestirem suas fantasias, mas a despirem-se delas, justamente, por alguns dias. A corrente de tudo aquilo que implantamos em nossos seres no cotidiano das responsabilidades, problemas e preocupações muitas vezes se dissolve, e quem somos a partir de quem éramos, de quem fomos, e a partir de todo o externo e histórico que já nos foi transplantado, é o que fica exposto como o conservador flagrado tendo affairs homossexuais. No dia a dia nos contentamos em sermos fluindo com estarmos, fluindo com constar, mesmo que sutilmente, no dia a dia de mais alguém.

Nosso berço pode não ser de ouro, mas há quem tenha a fortuna e sabedoria de dourá-lo para o nascimento das futuras gerações. Já comprei a tinta e o pincel para reformar o meu. É bastante moderno, inclusive. Cada peça foi fabricada em um país.

RF

As Regras do Jogo

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