“Simula um toque que desabroche esse seu casto mastigado pelo meu.” (Maria Gadu – Laranja)

“Sexo é o único tema no qual a humanidade é ainda irracional.” (tradução não literal de frase de Bertrand Russell, filósofo inglês do século XX em seu ensaio Sexualidade Humana).


Arte de Beti Timm

Os meninos que estudam em uma yeshivá do segmento judaico de Chabad Lubawitch são chamados castos. Assim foram denominados pela altíssima autoridade do último Rebbe de Lubawitch, Menachem Mendel Schneerson, atribuindo-lhes a responsabilidade de passarem ilesos e imaculados pelos anos de suas puberdades. Era nossa função demonstrar um exemplo de conduta elegante, anti materialista, nobre e séria aos demais membros das congregações. Um tomim, um casto, não mantinha relações de pele com ninguém, nem consigo. Não pensava nem balbuciava obscenidades. Não maltratava ninguém que não merecesse maltratos. Aceitava até o mais obscuro pecador, não importando o pecado, e admitia sua presença em troca dos mais insignificantes gestos de aproximação à fé.

Quase todos os exemplos acima citados foram benéficos à formação de muitos que, como eu, tinham exemplos claudicantes de famílias esfaceladas. Mesmo os mais ajustados levavam-se muito bem nesse ambiente que propiciava cordialidades. Os desajustados não emparafusavam o que de bambo tinha em seus cérebros, mas para isso servem os desajustados.

O quesito sexo, entretanto, ainda causava aluamentos desnecessários entre os meninos. Muitos usavam de truques que acreditavam eficientes no combate à masturbação. Passavam dias dormindo tarde, espirrando água gélida no corpo baixo a ducha do dormitório, acordando cedo e levantando-se antes de adquirir plena consciência, enterrando as faces, privadas de qualquer espécie de bronzeamento, nos livros dedicados ao estudo da alma e suas regras corporais. Meu recorde foi de vinte-e-oito dias de abstinência, mas nunca mais passou dos quinze.

Em Israel conheci a história do tomim em infância violentado na mikva, uma piscina de água natural ou de chuva usada para a purificação da pele, especialmente nas manhãs seguidas de acidentes auto-eróticos noturnos. Estudava no mesmo Bet Midrash (Casa de Estudos) em que seu famoso violador, agora reformado como Guilherme de Pádua, rezava todas as manhãs. Não bastasse o trauma, o casto exacerbadamente tímido ainda tinha de encarar a ironia diária de ver seu violador gozando – em todos os sentidos – da mais serena liberdade.

Ainda musatinho, tinha um amigo que nos alimentou cinquenta anos de chacotas quando contou que não resistiu à imagem do livro de biologia do sistema reprodutivo feminino, e usou a modelo de inspiração. Outro dizia que era só parar antes de sentir o cálido momento próximo. As lavadeiras de Petrópolis riam-se das manchas amareladas nos lençóis de todos os alunos, mas só um sofria de incontinência urinária.

Assim vivemos anos de santidade como castos do Rebbe, tomchei tmimim ainda por cima, mastos de castidade, exemplos vivos de elegância, nobreza, tolerância (ainda tolerância mesmo que paternalista), mas jamais isentos do erotismo animal básico que até o Rebbe carregava empalmado entre o solidéu e o chapéu. Poucos questionavam, mas para mim sempre foi a mais básica das questões. Por que jurar uma inocência que não tínhamos? O próprio Rebbe insistiu em uma campanha missionária de conciliação espiritual dos mais afastados das comuidades mundiais. Parecia crueldade enviar-nos aos cantos mais profanos de nossas cidades e esperar que não sofrêssemos deslizes da carne. A maioria de fato não sofria mais do que a imaginação e a fantasia permitiam. Sabia de um ou outro que talvez já tivesse beijado uma ou outra, e todos ouvíamos histórias sobre nossos atos sexuais, ignotos às autoridades das yeshivot e michlalot (femininas), mas se as minhas eram falsas imaginava que assim seriam as de todos. Sei que todos os tmimim secretamente desejavam casar o mais rápido possível e despir-se da pele casta.

Foi a única hipocrisia a forçar-me a largar a religião, quando me apaixonei pela primeira vez aos dezenove anos. Aos vinte perdia a virgindade. Foi o ato mais puro que fiz por mim e pela humanidade à minha volta em toda minha vida. Só terei ato similar se trouxesse nova vida ao planeta. Por enquanto me contento com as vidas (Eros = deus da vida) que espalhei ao deixar de ser casto.

RF

As Regras do Jogo

 

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