Este desafio de escrever sobre o adjectivo “casto” não é coisa fácil…

Embora, semanticamente, casto seja sinónimo de inocente e de puro, a palavra assume uma conotação bem mais associada ao que é virginal. Por princípio, não se dirá de uma criança que é casta, mas sim inocente; não se dirá de uma alma que é casta, mas sim pura. Ou seja, no estado actual do português europeu, o uso vulgar de “casto” adquiriu uma ligação directa à ausência ou abstinência de relações sexuais.

Esta reflexão linguística levou-me a pensar no porquê do uso corrente. Creio que, possivelmente, se prende com os votos evangélicos feitos pelos sacerdotes católicos: pobreza, castidade e obediência. Nesta linha de pensamento, a castidade é entendida como uma privação sexual por vontade própria para manter honradez. Há poucas coisas com as quais eu mais esteja em desacordo… A honra, dignidade, pureza (de alma e corpo) e até a inocência não têm de combinar com este conceito de castidade.

No entanto, e paradoxalmente, é interessante verificar que o adjectivo “casto” é muito procurado pela literatura, sobretudo a poesia e a prosa romântica, para  caracerizar exactamente situações de envolvimento físico amoroso, numa tentativa de transformar relações declaradamente físicas em conceitos pseudo-platónicos: temos casalinhos que dão “beijos castos” seguidos de “suaves e castos toques”, etc.

Mas há poetas com rasgos de génio e a poesia, como arte maior da contradição humana, consegue fazer obras-primas com a ideia de que o sexo é, afinal, pureza:

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.

[…]

Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.”

(Carlos Drummond de Andrade, “O Amor Natural”)

Casto é o espanto da entrega amorosa. Casto é o Amor, quando  ele existe.

Carla Cook

As Regras do Jogo

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