Arte de Beti Timm

Romeu retorna
descalço ao mesmo
Auto da Piedade.
A graxa da calçada
acaricía suas costas nuas.

 

Serpenteia em sua
veia veneno lascivo,
mas não se dava a espasmos
alucinógenos. Não tinha deus, mas
dava-se a
outras ilusões.

 

Ali deitou-se
pensando no mundo:
O mundo retorna a Romeu
no Auto da Piedade.
Rasteja a serpenteada cova
do Dédalo de Romeu.

 

Às voltas ouve auto
móveis escandalosos. Enfurecidos,
racham o asfalto esguio.
Enchurram as poças urbanas
e as escarram
às barras das calças dos camelôs.
Balbúrdia.

 

Romeu vê o tempo não passar
nos passos açodados de famílias compradoras
despedindo-se da Zepa ao dobrar a Graça.
Ao fim da tarde os ambulantes
levantam as lonas e desaparecem
no lusco-fusco vai-e-vem.

Romeu não se junta aos operários,
que todo fim de dia anseiam ardor
d’água em suas gargantas secas
do árduo expediente.

 

Romeu enxerga
conceitos finados
nas manchetes do pasquim.
Vê nos óbitos
farpas orgânicas do passado;
e o vazio,
crescente em suas vísceras sãs,
arranha o céu de sua boca.
Saúda saudades.

 

No escuro
a cidade intumesce.
O sol se deli da imensidão.
As sombras crescem e regam
sua enevoada ideia.
Dorme, Romeu,
no Auto da Piedade.

RF

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