Arte de Beti Timm

Descontentes com o tamanho do governo?
Um dos fatores comuns a todos os estados influentes, politica, social e culturalmente no planeta é a miscigenação de filosofias econômicas, capitalistas e socialistas. Nenhum padrão extremo é tolerado em nenhuma dessas soberanias. Nem o capitalismo mais liberal-ortodoxo possível, o de Adam Smith, conto de carochinha em comparação ao sistema vigente nos Estados Unidos. Quanto menos o sistema proclamado por Marx e Engel no século 19, deturpado por Stalin, ou os de Castro e Chavez das atualidades. Se os Estados Unidos é o gigante adormecendo que gosta do capitalismo com pitadas discretas de socialismo, a China é o gigante acordando e tomando seu socialismo com pinceladas de capitalismo.

A politica, seja ela socrática ou aristoteliana, kantiana ou wilsoniana, é sempre sobre o povo, ou em palavras mais sutis, ela só é porque precisa ser, e só precisa ser porque há quem precise dela. Obviamente há partes do povo mais iguais do que outras, portanto mais pedintes, ou mais pedantes. O veículo mais eficiente encontrado para locomover a politica de lado A a lado B, – as necessidades aos necessitados – é o governo democrático. As atuais demonstrações de rebelia a regimes totalitários no Oriente Médio provam que o governo que não veicúla o povo é, cedo ou tarde, tombado à força. O que chamamos de sistema, soma a burocracia inteligente à burra, e os atritos às convenções sociais organizadas em instituições sociais, políticas, culturais ou populares; organizações não governamentais e governamentais; corporações nacionais e multi-nacionais; e todos os relacionamentos derivados organizados pelas massas. A hegemonia só consegue tornar-se hegemonia quando equilibra as relações de favorecimento e desfavorecimento das massas.

Parte da filosofia regente na mentalidade protestante-capitalista é a recomendação educacional de não pertencer a essas massas, e de que participar delas sem suficientes recursos nos coloca à mercê da hegemonia. Ou seja, se você ficar para trás, a culpa é sua, coma mais aipim e feijão, faça uma dieta balanceada e exercícios, e se apresse porque ninguém espera. A maioria dos conservadores econômicos deseja uma economia mais liquida, para avançar a ínfima possibilidade de pertencer ao um por cento que comanda o barraco. Parece ideia demente: A maioria quer pertencer à minoria, portanto cria um sistema que a favoreça para que a maioria não consiga fazer parte. Assim, a minoria permanece sendo minoria, e a maioria permanece sendo idiota.

Percebe-se a necessidade da hegemonia de resguardar as partes da população que prosperam apenas o suficiente para cultivar poderes politicos, o que chamamos de classe média. Para amenizar os conflitos da classe média, as classes mais pobres e as totalmente miseráveis recebem apenas as concessões que exigem com suficiente veemência a mobilizar a classe média, que a hegemonia sabe não ter condições de bloquear. Exemplo: Se a privatização da Previdência, exigida pelo Consenso de Washington nos anos 80, não é uma realidade nem remotamente possível nos Estados Unidos, é porque as massas estadunidenses não permitiriam que isso ocorresse. É justo portanto afirmar que, quanto mais a hegemonia pretender negar às massas, menor terá de ser a classe média, ou seu poder político.

É fato que corporações – multi-nacionais ou não – conquistaram, em grande parte do mundo, o poder político de pessoas físicas. Argumentaria-se facilmente que se tornaram verdadeiras Pessoas Politicas. Assim, quanto menos Pessoas Politicas forem as pessoas, mais Pessoas Politicas serão as corporações.

Os países que mais exercem influências sobre os demais tem em comum um alto índice de democracia sistemática, o que coíbe revoltas, mas ainda deixa brechas abertas para revoluções. De acordo com o tamanho, número e acessibilidade a essas brechas julgamos a liberdade social, politica e cultural de estados-nações. No entanto, a natureza das brechas pouco importa se, quem mais requerer e assim conquistar o direito de requerer mais brechas, mais brechas tiver. Adivinhem quem crescentemente mais ganha combustível nesse sistema de requisições.

Reconheçamos que o tamanho do governo só pode ser julgado de acordo com o tamanho político do povo. Esse tamanho, entretanto, pode ser diminuído não só pelo governo, mas por minorias ou maiorias que exigem e ganham direitos às custas de direitos de outras maiorias ou minorias. Apesar de não sermos devidamente educados, até sabemos do poder de minorias econômicas. Quem conseguiu convencer-nos a duvidar do poder das maiorias?

Reconheçamos que precisamos de governos tão grandes quanto nós, que nos sirvam olhando-nos olho a olho, constituídos e tecidos por nós. São prêmios, certamente, difíceis de se conquistar, mas que valem todas as nossas penas. O oposto é frequentemente traduzido em guerras, fomes, epidemias, desastres climáticos e sociais. Se bem que sempre há aqueles que gostam de altos riscos, que molham suas camas todas as noites em troca da possibilidade de pertencer ao um por cento, àquele mísero um por cento, que controla todas as brechas de todos os sistemas de todos os governos do planeta. Chamam isso de liberdade, mas mais parece megalomania.

Cresçamos à altura do governo, que, para servir-nos bem, só pode ter o nosso tamanho. Caso contrário, mesmo o governo mais bene-e-eficiente do mundo será apenas do tamanho de suas corporações, que não passam do tamanho de suas ganâncias, e que como Mogwais, se alimentados em excesso e fora de hora, transformam-se em Gremlins. Gigante, o governo já é.

RF

Anúncios