Arte de Beti Timm

Vivemos uma era de descontentamento. Não é de hoje, bem que seja dita a verdade, mas é. Tampouco é que estamos todos descontentes o tempo todo. Às vezes é o trabalho ou, para os mais jovens, a escola. Se o trabalho e a carreira satisfazem, é a vida amorosa. Se há sorte no amor, o azar vem com os outros. Se o problema não é social, deve ser financeiro. Se a boa carreira providencia bom pão, as desventuras vem do jogo. No fundo, se não tivermos problemas, criamos.

Sigmund Freud tentou desvendar os mistérios da psique, e os mistérios da psique desvendariam os mistérios dos conflitos, externos e internos, que nos assombram. Todos nós, potencialmente, nos perguntamos qual o propósito de nossas vidas. Muitos ainda não entenderam que não é questão de força, e sim de constituição genética, hereditária e ambiental das naturezas dos animais humanos. Todos precisamos de algo e, esse algo, somado a nós, resulta em um aumento considerável das chances de sermos felizes. Uns precisam amar mais, outros correr mais riscos, outros ganhar mais dinheiro, outros mais fama, outros mais prestígio, outros mais amigos, ou mais espaço.

Para o pai da psicanálise, os conflitos, que vem de dentro, do mundo externo e das pessoas que populam esse mundo, formam-se em colunas volumosas no interior de nossos crânios. Como Jerusalém, construída sobre milênios de outras civilizações e outras Jerusaléns, nossa mente sempre conserva nossas ruínas, mas ao contrário da Roma antiga, dormente baixo o cimento da moderna Israel, as nossas pulsam ao lado das construções cotidianas. Alguns precisam de mais bugigangas do que os demais para encobri-las. Outros as enfeitam, e vivem cruzando com elas no dia a dia. Outros se enterram para evitar a dor.

A cura para a dissatisfação de nossas civilizações enraíza-se, normalmente, no amadurecimento psicológico de indivíduos. Parece mais simples do que é: Não há como erradicar o racismo em sociedade, se não há como erradicar o racismo no indivíduo. Amadurecer, no entanto, não funciona como a cura de uma gripe, a restauração do estado anterior ao sofrimento, ou a erradicação do mesmo. O sofrimento sempre fará parte do ser humano e, mais, há situações que o mundo e os demais nos proporcionam, que requerem sofrimento para que possamos amadurecer. Crescer talvez seja saber sofrer sem causar mais sofrimento a si ou ao próximo.

A boa notícia é que somos seres criadores de recursos. Sabemos nos reiventar de modo paralelo à adaptação das demais espécies. Criamos estruturas cheias de nós, com alicerces fincados em nós e, assim escapamos, muitas vezes, de nós. Há recursos perigosos, arriscados, e até mesmo nocivos. Outros, como a vocação artística, nem sempre proporcionam alívio total de nossos males, mas ao menos motivam construções interessantes que, com sorte, podem ser compartilhadas com os demais.

Quando cai a madrugada e canta o sereno de nossos sonhos, somos nós quem criamos a dimensão de nossos descontentamentos. Somos nós que criamos os limites de suas satisfações. É esse nosso céu nublado, que separa nossa sanidade da loucura, criado por nós, às vezes sem nossa permissão.

RF

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