Filosofia Lusitana


Os matemáticos distinguem entre “o erro absoluto” e “o erro relativo”. São noções de cálculo numérico, mas, se considerarmos apenas as expressões per si ficamos com a clara sensação de que também é possível fazer o mesmo tipo de erros no percurso da nossa vida: relativos versus absolutos. Deve ter sido a pensar nisso que os anglo-saxónicos inventaram a expressão “move on!” e que os falantes do castelhano dizem “adelante mora gente!” para enfatizar que temos de seguir sempre, mesmo após um erro colossal.

Em 1994, o brilhante neurocientista português António Damásio escreveu O Erro de Descartes onde defendia que a separação entre a racionalidade e as emoções é um mito. Ou seja, e dito de forma bastante leiga e sumária, é inútil tentar dividir duas coisas que provêm do mesmo indivíduo, pois as nossas respostas emocionais dependem, em grande parte, de processos cerebrais e vice-versa. Assim, o erro cartesiano – que muito influenciou correntes filosófico-científicas – seria pensar que é possível a existência de uma razão pura como independente do corpo e das emoções. Portanto, as pesquisas que pretendem compreender os homens de um ponto de vista puramente biológico, simulando processos da biologia humana em computadores com alta inteligência artificial, falham… porque os computadores não são passíveis de modificações mentais perante um estado corporal emotivo. Quer isso dizer que, afinal, são as emoções que determinam os nossos comportamentos?

Damásio introduz uma hipótese – a dos marcadores somáticos – que, muito sucintamente, propõe que o processo das emoções guia o comportamento, nomeadamente a tomada de decisões. Os marcadores somáticos seriam associações entre estímulos de recompensa que, naturalmente, levam a um afecto correspondente, incluindo a sua repercussão fisiológica. Isto quer dizer que o ser humano armazena informações relativamente às suas experiências emotivas passadas e que isso o ajudará a fazer escolhas mais rápidas e acertadas no futuro, como veremos.

Em conclusão: as emoções ajudam e equilibram a tomada de decisões, sendo parte integrante do processo mais racional.

O que acontece, então, a alguém que se lesionou cerebralmente com gravidade? Damásio expõe alguns casos famosos, como o de Phineas Gage, americano que em 1848 sofreu um acidente, tendo a parte frontal do seu cérebro sido trespassada por uma barra de ferro. Surpreendentemente, Gage apenas perdeu a visão de um dos olhos, quando a expectativa seria de não sobrevivência. No entanto, Gage queixava-se de um “sentimento geral estranho” após o acidente. O que nele mudou não foram as suas funções cognitivas mas sim a sua personalidade: o trauma cerebral tornou-o imprevísivel, alterado e com dificuldade em tomar decisões. O anteriormente responsável e maturo Gage tornou-se caprichoso, infantil, obstinado nas suas vacilações que depressa mudavam de rumo, transformando-se, nas palavras dos que com ele privavam, “uma criança com as paixões animais de um adulto”.

Os estudos feitos em pacientes com lesões no córtex frontal corroboraram a teoria de que indivíduos com personalidades ditas “normais” antes desses traumas apresentavam depois comportamentos bastante peculiares em relação à norma, nomeadamente inabilidades de planeamento, dificuldades de decisão, personalidades volúveis e não raro um défice no controlo da agressividade. Para além disso, a sensibilidade destes pacientes mostrava-se completamente alterada, sendo que alguns revelavam uma grande imunidade às emoções e um enorme tédio perante quaisquer excitações a muito breve prazo (daí a constante procura de novas coisas). Passemos por cima da infelicidade que deve ser viver assim e concentremo-nos no que significa ser-se imune a emoções. No fundo, é um eufemismo para psicopata. É este o tipo de pessoa que inflinge dor a outrem sem sentir qualquer tipo de problema. Se houvesse Deus, este seria o erro na cadeia dos seres humanos criados por ele: alguém sem problemas em maltratar, dado que ele também não sente e só a empatia nos permite entender o sofrimento de outro como sendo verídico, i.e. passível de existência real.

Mais ainda, do ponto de vista científico, estes indivíduos são um erro na corrente evolucionista porque, apesar do seu intelecto “normal”, nalguns casos até apresentando um Q. I. elevado em termos de produtividade, linguagem, memória e outros processos cognitivos, eles não são capazes de evoluir porque têm dificuldade em experienciar e expressar emoções, pelo que lhes falta a capacidade de se guiarem na vida pelos famosos marcadores somáticos; ou seja, não têm a possibilidade de fazerem escolhas acertadas no presente e no futuro, dado que não retiveram nada do seu passado relativamente às emoções boas ou más que viveram, não tendo por isso a rapidez na resposta e muito menos o cuidado e a atenção que têm aqueles que guardam as experiências afectivas como barómetros de tomadas de decisão. Pois são essas experiências que ditam as escolhas fundamentais, o sucesso do ser humano. A inabilidade destes seres humanos de se guiarem pelo sentimento é o erro da cadeia humana. Assim, o narcisista maligno é tão errado dentro da Humanidade como um vírus destruidor está errado num sistema informático.

Interessante é notar que algumas afirmações de Damásio o aproximam da teoria do falibilismo (do latim falibillis, i.e. passível de erro), sobretudo aquelas em que ele demonstra a sua convicção de que todos os resultados científicos são aproximações provisórias. Ou seja, o ser humano vive em verdade passageira, o mesmo é dizer em erro temporário.

Para terminar este texto de uma forma mais leve, vou partilhar este pensamento com vocês: sempre que penso em “erro”, penso no Charles Schulz e num cartoon do Snoopy em que Charlie Brown ficava acordado à noite a pensar “mas onde é que eu errei?”… para chegar à conclusão que precisava de mais do que uma noite inteira para responder a essa questão.

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