Arte/Poesia

Arte de Beti Timm

Havia se dito e, aos outros ditado
que seria sua última mudança,
redenção sublime de todos os pecados
selados em seus elos com o mundo.

Seria a última vez que coaria
os últimos vestígios dos objetos, pessoais,
e apenas carregaria consigo, dizia,
o que não lhe podia faltar.

Atiraria ao lixo, como escremento fosse,
os recortes dos coupons de apetrechos inúteis,
os modes, os lenços sanitários, o bom-ar de glinícia
que já não mais mascarava o odor dos quartos vazios,

Os lençóis de setim, o colchão espumado,
a penteadeira que tia Alessandra presenteou
no dia do aniversário da sobrinha-neta caçula,
os livros de Doyle e Caeiro, as fotos dos focos dos rostos borrados,

Os quadros despencados de Magritte,
a jardineira, as tarjas – e as lingeries – pretas, e
do esmalte rubro estressado no vidro do espelho,
dilacerou erros ortográficos a acetona.

Já o cheiro do perfume hollywoodiano, do shampoo de hortalícias,
do sabonete de leite-de-coco, dos orifícios mais remotos
do corpo passado, agora ocupados por outros vãos,
perseguiria ao rabo d’outros móveis em contínuo estoico.

Esses móveis, móveis,
e sua prenda, entre fetiches insaciados,
entre escombros solados e destratados,
ao próximo imóvel moveriam-se com ele.

Bem que ele se disse, mas não convencia
ninguém. Mais uma vez empacotava ornamentos e
selecionava retratos de Ilha Bela, Veneza e Lisboa,
mesmo sendo marcas nunca marcadas em seu passaporte.

O fato é que trazia consigo
quase tudo e o pó diluído
nas lágrimas secas
debaixo do sofá.

Bom que o ido o tinha sido,
sendo só o que sempre foi.
Mal sabe ele que os erros descompostos não mudam.
São os que mais o compõem.

 

RF

 

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