Politica/Relacoes Internacionais

Arte de Beti Tim

Desde que me considero existente, ouço gente dizendo que precisamos aprender japonês, ou chinês, ou russo, ou árabe, ou persa, ou coreano, e que precisamos tomar cuidado com a mudança no equilibrio de poderes globais das hegemonias vigentes: Cuidado com a China, o gigante adormecido, ou Rússia, o corcunda rancoroso, ou com Cuba, o rebelde orgulhoso, ou Brasil, o país do futuro…

O que diferencia nossa era, esse ano especificamente, das demais, é que hoje em dia as grandes potências sentem o peso da nova complexidade de relações internacionais e interdependência global. “Tremem na base.” Além disso, aludindo à teoria do realista Kenneth Waltz*, os países em desenvolvimento de maior emergência econômica, como China, Brasil, e outros de importância geopolítica ainda crucial, como o Egito e o Irã, começam a se agrupar em organizações e acordos diplomáticos, assim construindo um ambiente propício para criar blocos de resistência aos Estados Unidos e seus aliados. Em outras palavras, a gangorra chacoalha, e gringo já deu sinais de cantar, “se essa coisa não virar…”

Pode ser que tudo não passe de mais um susto, e que de hoje a alguns anos os grandes sejam os mesmos, e as sombras sejam outras. Ainda assim, pelo resquício de chances de que a panela de pressão estoure na cara do Império, está claro que tanto Estados Unidos quanto seus aliados cometem erros cruciais quanto à percepção das incertezas e inseguranças perpetuadas pelos seus valores ideológicos ou pseudo-pragmáticos. As negociações diplomáticas atuais estão em ritmo do bom e velho “se correr o bicho pega, se ficar…”

Isso porque o regime de George W. Bush**, além de ataques preventivos, reavivou a ideologia kantiana usada por Francis Fukuyama em seu “O Fim a Historia”***  (retratado há pouco*** pelo próprio). Bush junior decidiu assumir para si a teoria política internacional de que a democracia, espalhada pelo globo, traria paz entre estados-nações. “Mais vale um na mão,” pensava, “do que dois na mão.”**** Segundo o filósofo alemão Immanuel Kant, um dos fundadores da ética absolutista*$, democracias não guerreiam entre si. É raro, de fato, haver confrontos diretos ou indiretos entre duas ou mais democracias. Os conflitos existem, e guerras de interesses fazem parte, segundo essa teoria, mas falamos aqui especificamente de conflitos militares, de “agora o bicho vai pegar.”

A grande prova de que a instabilidade entre hegemonias e blocos emergentes não está diretamente ligada à democracia eleitoral é o Egito pós Hosni Mubarak. Como a previsão de um governo egípcio democrático é sólida, líderes e políticos procuram obedecer a opinião pública, que massivamente quer um Egito com uma atitude pan-islâmica mais acirrada. Isso significa que Israel e Estados Unidos, antes mais próximos do Egito politicamente, passam a ser vistos como inimigos dos interesses domésticos e internacionais da população. No momento, o Egito sinala maior aproximação a organizações ainda consideradas terroristas pelo gigante ocidental e seu aliado no Oriente Médio, como o Hamas. Se o regime de Mubarak auxiliava o bloqueio de armas e munição aos campos palestinos fronteiriços com Israel, na Faixa de Gaza e a Cisjordânia, as chances atuais são de que Israel terá de fazer por merecer para ter o mesmo auxílio. Terá de seguir uma filosofia que traria paz caso funcionasse, de “lavar sua mão enquanto lava a do vizinho.”

Para merecer, nada menos do que seu encerramento imediato da expanção territorial seria rebuscado, isso sem contar na possibilidade de ressucitar o conflito eterno pelos territórios ocupados por Israel depois da Guerra dos Seis Dias, de 1967. Já os Estados Unidos deverá demonstrar uma atitude menos favorecedora a Israel, mais crítica de suas atitudes contraditórias às assembleias e acordos internacionais, e menos expancionista e intervecionista dentro do mundo Islâmico. Terá, em poucas palavras, de “molhar sua mão”.

Nessa perspectiva de criar democracias, países do ocidente que mais enfrentam problemas com o universo islâmico não se contentam quando as democracias contrariam seus interesses. Portanto, o grande erro de Israel e Estados Unidos é não entender que nem todo mundo “dança ao som de rock n’roll e HaTikvá”. Não que isso fizesse muita diferença, caso a hegemonia pudesse manter seu status quo para o resto da eternidade. O problema é que tudo só é “eterno enquanto dura”.

Com a complexidade da crise financeira global, as guerras falidas do Iraque e Afeganistão, o orçamento doméstico aos frangalhos, presença militar desnecessária em diversas regiões e, agora, com a divergência interna sobre a participação direta na Síria, Barack Obama e seu gabinete externo, liderado por Hillary Clinton, poderiam e deveriam ter “jogado as cartas” de modo melhor e menos conservador. Seria a mudança que o próprio democrata prometeu a seus constituintes.

Sem contar os péssimos cálculos quanto à capacidade militar e econônica da União Soviétiva, o país pós-Guerra Fria sempre procurou modelar o mundo emergente. Se Obama houvesse imediatamente compreendido que precisava manter boas relações com o governo democrático emergente, poderia ter evitado os recentes conflitos, criados pelo distanciamento ideológico, justamente, entre a população muçulmana (pesadamente influenciada por comunidades e organizações religiosas e políticas anti-sionistas e anti-ocidentais), e o Ocidente. Foi seu desafio, talvez falho, com uma “faca de dois gumes”.

O jogo político das relações internacionais tem funcionado ao seu favor pela influência e poder das grandes hegemonias, mas em um mundo onde o poder depende tanto de países que procuram chegar à curva das hegemonias traçada por Charles Doran*$$ – países em desenvolvimento como os membros do BRIC, Brasil, Rússia, Índia e China, além de países no Oriente Médio, região ainda essencial tanto econômica quanto geo-politicamente para as super-potências – essa influência diminui. Se não se cuidarem e repetirem seus erros, como esse texto regado de clichês populares, o público se cansará ainda mais rápido.

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*Kenneth Waltz é o criador do conceito “neorealismo” no estudo das relações internacionais. Em sua teoria, o comportamento de países em um mundo anárquico (sem governo, tribunal ou exército globais) é geralmente dividido em dois, se não são hegemonias: Ou se aliam às hegemonias, ou criam blocos de oposição à hegemonia.

**Barack Obama também acredita na mesma teoria, mas em seus discursos sempre enfatizou a necessidade de conhecer melhor as partes envolvidas em qualquer conflito, como o mundo Islâmico. Se os discursos seguem a realidade ou não, é debatível.

***Quem quiser pode ler, aqui, parte da lógica de sua retratação sobre sua visão sobre “O Fim da História” em Inglês. Dr. Shlomi Dinar, professor de relações internacionais da Florida International University disse que Fukuyama, autor de “O Fim da Historia”, confidenciou sua retratação ao mesmo, e que já o disse em público, em palestras pela universidade, em várias ocasiões.

****Esse clichê tive de quebrar, mas falando em Bush, que mais vocês querem?

*$Em seu tratado entitulado “Paz Perpétua”.

*$$Em sua teoria “Ciclo de Poder de Hegemonias” (tradução livre), no qual hegemonias passam por um traçado desenhado em parábola, sinalizando ascenção, auge e queda. Mais sobre a teoria, em Inglês, aqui. (Nota do autor: Procurei um link em Português sobre Doran, mas não encontrei nada consistente. Nem a wikipedia mantem seu perfil em Português).

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