Cultura-Filosofia Popular

Arte de Beti Timm

Quem gosta do debate sobre a comunicação virtual na era do Facebook aproveitaria muito assistindo o episódio da série animada, South Park, sobre o monstruoso sítio da ampla rede mundial. Nele, o tema central se desenvolve no aceitar, negar, ou bloquear outros usuários do perfil dos personagens que, em sua maioria, investem na aquisição ou “queima” de amigos da rede, como se amigos fossem meras ações na bolsa de valores. Eric Cartman, o gorducho homofóbico-racista-misógino-perverso da turma, mimica Jim Cramer, âncora do programa do canal CNBC, Mad Money, palco de suas arengas indomáveis a respeito e despeito da bolsa de valores e da economia universal – parcialmente culpado pela crise financeira de 2008, e parcialmente considerado profeta-salvador do que fatalmente ocorreu ao redor do planeta. Stan, o pragmático, não entende a necessidade de manter um perfil de Facebook, e considera altamente irritante os constantes pedidos de seus amigos e parentes de pertencer ao perfil que Stan se recusa manter. Os demais brincam nessa bolsa de valores fraternos, livrando-se de amigos “tóxicos” e comprando amigos populares. O paralelo entre Cramer, e essa relação comunicativa da nova virtualidade, enraíza-se na ganância afetiva dos personagens.

Talvez os criadores de South Park, Matt Stone e Trey Parker, tenham captado a ideia de que a vida afetiva da humanidade ligada à Internet esteja começando a se tornar cada vez mais “líquida”, sinônimo de capital paralelo ao capital produzido pelas máquinas mercantis e industriais. O capitalismo, que tornou quase tudo uma comodidade a ser adquirida pelo preço que compradores possam pagar, não podia tê-lo feito tão bem com o amor, a amizade e a confiança, sem a ajuda da Internet. Aqui, entretanto, não há juízo de valores quanto ao capitalismo ou à Internet. Nessa ideia, traçada com a reverência típica dos pescoços-vermelhos do centro semi-rural dos Estados Unidos, há o equilibrio que libertários* tipicamente encontram à resolução de todos seus dilemas:

O capitalismo que plastifica é o mesmo que viabilizou à maioria o que antes era posse apenas da minoria. A Internet que plastifica é a mesma que viabiliza a união de pessoas que antes não poderiam se unir. Nesse quesito tampouco há juízo de valores. A viabilização ou plastificação não ocorrem, apenas, pelo processo mecânico de sistemas econômicos ou ferramentas da comunicação. Não podemos ignorar a capacidade humana de discernimento, de atuação e de responsabilização, a nossa incluída, na soma desses processos. Quem se comunica, ou se trumbica, somos nós.

A “liquidez” de nossos contatos, o fato de que possamos conversar com pessoas que nunca vimos, ou mantê-las em nosso perfil hiper-atualizado do sítio de Zuckerberg, faz com que nos exponhamos também à toxicidade, à mentira e à ganância de muito mais gente. Por outro lado, também nos expomos a mais informação, compaixão e razão. Diluir opiniões escarradas na rede, nessa busca infrene, torna-se, se não mais difícil**, muito mais complexo. Formar opiniões, então, depende às vezes de pura magia. São, incontáveis vezes, bizarras as ideias que o público compra e populariza. O casamento britânico real, por exemplo, deveria ser propositalmente evitado pelo público dos Estados Unidos, que há poucos séculos se libertava da monarquia, e da ideia de uma monarquia, para fundar os estados independentes que fixaram o país. Foi, ainda assim, o tema mais falado no Facebook e na televisão local, de qualquer local, nos últimos dois meses.

O sagaz Cartman, da cidadezinha de South Park, Colorado, diz ao judeu, Kyle, que, “para encontrar amigos, você precisa passar por um monte de ‘bundões’”. Essa afirmação é sempre real, tanto no Facebook quanto em qualquer outro sítio, real ou eletrônico. Por mais populares sejamos, é senso comum que amigos não podem ser relegados ao vão dos tempos, ou as amizades se dissolvem. Encontrar amigos que valha investir uma eternidade é sempre uma tarefa difícil, um dos grandes dilemas filosóficos-psicológicos da humanidade.

Esse relacionamento, seu bem e seu mal, é também diluído pela rede social mais ampla do planeta que, como toda rede social concreta, sofre dilusão. Pensemos primeiro em nossas escolas e trabalhos: Não somos amigos íntimos de todas as pessoas que compartilham de nosso cotidiano. Quantos de nós passamos todo o dia apenas com quem mais amamos, ou com quem mais gostamos de conversar ou confiar nossos problemas? Às vezes passamos a maior parte de nossas vidas ao lado de estranhos. Pensemos em partidos políticos, ou mais a fundo, pensemos em comunidades religiosas, que em comum a partidos e ideologias tem a crença acirrada em uma causa. Se você frequenta algum templo, ou algum sindicato ou base partidária, você não o faz apenas com pessoas que gosta. O que diria Lenin de Stalin, ou Smith de Madoff.

Não sou o único que cansei do conto de Mary Shelley, e das ladainhas constantes contra a socialização virtual. Simplesmente, porque não se reclama do que existe e já está consolidado: nem raça, nem credo, nem sexualidade, nem progresso tecnológico, social e comunicativo.

 

Semana que vem tem o dois! Não percam, aqui no Suma.

 

*Libertários fazem parte do segmento político central dos Estados Unidos, geralmente independentes, mas que sempre pesam em época eleitoral por não aderirem a um partido político específico, ou por não terem um partido potente para desafiar os Republicanos e Democratas. Seguem, geralmente, uma filosofia social liberal/progressista, e econômica conservadora (em realidade, liberal, mas o liberalismo econômico encontra sua base entre os conservadores do país). Curiosidade: O criador de Family Guy (e American Dad, ou The Cleveland Show), Seth McFarlane, é liberal. O criador de King of the Hill, Mike Judge, é conservador, e os criadores de South Park, como mencionado, libertários.

**No próximo texto, a série de Halém Souza será levantada sobre esse mesmo tema. Vale a pena conferir por enquanto em sua casa, Sinistras Bibliotecas.

Episodio de South Park – Facebook:
Clip 1
Clip 2

 

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