O conceito do romance –  tanto teórico quanto prático, psicológico e fisiológico – é de sublime importância no discurso de Sigmund Freud sobre os conflitos humanos com os “outros”, ou, nesse caso, os conflitos que todos temos com os demais. Segundo o velho, não existe, em realidade, o “amor romântico”, mas sim, o que mascara a essência do querer, seja ele exclusivista ou não: tesão, puro e simples. Portanto, se chegássemos em seu consultório contando nossas dores de cotovelo por alguém tão amado, o psicanalista derrubaria, assim que pudesse, nossas ilusões e diria que esse “amor” é vontade de ter relações carnais, e nada mais.

As ideias humanas evoluíram por um translado de percepções e associações cognitivas que, aos poucos, foram se tornando normas coletivas. Se analisarmos cada passagem normativa cultural, em cada período, em cada respectiva região, encontramos que, geralmente, a transição ocorre a partir de algo específico que incomodava, que “não batia”, ou que não era mais necessariamente tragável pela cultura normativa seguinte. Podemos exemplificar a era do Iluminismo, que surgiu de uma necessidade, em partes, de não aceitar mais as normas religiosas absolutistas, como as acatadas pela sociedade universal. Foi seguida pelo Romantismo, que substituiu Deus pela natureza, e que necessariamente fugia à frieza racional conquistada na era que a precedia. Assim, o Simbolismo e o Realismo, ambas vertentes mais racionais e mais preocupadas na compreensão do que na análise da relação entre as manifestações concretas e metafísifcas, surgiram para “salgar” o extremo açucarado da era que as precedeu.

O “romance” do qual falamos surgiu, para nossos efeitos, na era do Romantismo. William Shaekspeare inspirou Chico Buarque com seu Soneto 130, desmentindo a associação psicológica, como bem desmente a expressão popular: “Quem ama o feio, bonito lhe parece.” Buarque retrucou, séculos depois, com a canção Santo Amor. O revolucionado por Shaekspeare – e repetido por Buarque – no conceito de “amor”, é que a palavra em si não precisa significar nada mais do que um sentimento baseado em uma cognição interna do objeto de nosso desejo. Ou seja, a mulher não precisa ser uma deusa, mas pode ser uma deusa, impendente de seus defeitos, para o amado: uma deusa imperfeita e subjetiva. A imperfeição, portanto, da própria natureza, avisa surgir como um tapa na cara do amante iludido, que “ama o feio” já que “bonito lhe parece”. É como se avisasse: “O dia que você acordar e perceber que a pessoa que você achava linda era um dragão, levará aquele susto.”

Octavio Roca, Phd em filosofia, instigava seus alunos a pensar no amor. Perguntava aos casados: “Por que você ama seu marido/esposa?” Quando respondiam: “Porque é leal, porque é linda, porque é fiel, porque é trabalhador,” Roca logo rebatia: “Mas só ele/ela é leal, lindo/a, fiel e trabalhador/a? Ninguém mais nesse mundo é assim? E se tem mais gente assim, por que você ama esse cara e não outro?” Filosoficamente, não há uma resposta fixa. É possível que, se houver alguma verdade, ela esteja relacionada a atributos e aspectos neurológicos (psicológicos) que ainda não compreendemos. No entanto, sabemos que não somos bem capazes de amar a todos o tempo todo.

João Ubaldo Ribeiro, em sua contribuição à série Plenos Pecados com o tema “luxúria”*, saca, através de sua personagem, que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, o que é bem diferente da afirmação do último parágrafo. Segundo o raciocínio, do mesmo modo que o Iluminismo rompeu com a ordem do “pré-destino” religioso para lidar com a razão, a cultura normativa da fidelidade matrimonial, baseada em grande parte na cultura normativa  judeo-cristã-islâmica, também é rompida na idade do pós-modernismo e do existencialismo ético. A definição de “amor”, portanto, já independente do conceito conjugal, define também o conceito conjugal de acordo com a norma cognitiva individual (subjetiva). Ainda que a cultura normativa em torno do casamento ainda seja a da monogamia, cada vez mais pessoas assumem estados de relacionamentos “abertos”, o que pode significar modos diferentes de viver um casamento, ou uma relação afetiva romântica, mas que dita que os padrões pré-estipulados não vigoram.

Mesmo assim, ainda que a ideia de amar alguém não seja limitada, necessariamente, à quantidade de pessoas amadas, é impossível, ou assim pensaria, amar a todos o tempo todo. Freud explica que o maior conflito existente na psique é o romântico e, resumindo seu parecer, esse conflito é baseado em um disparate de expectativas. Se xíz quer ípselon, mas ípselon não quer xíz, há um disparate de expectativas, e quanto mais xíz teve indicações de que ípselon poderia quere-lo/a, maior esse disparete, logo a  desilusão.

Freud atribui exatamente a mesma natureza do conflito a amizades e à família, mas em nenhum dos dois  casos existe uma expectativa saudável de relações sexuais. Não à toa o sexo tinha tanta importância nas teorias psicanalistas freudianas: Para o velho, há duas forças competindo uma contra a outra, sendo os únicos dois motivos de um ser humano fazer ou deixar de fazer algo, a vontade de viver (Eros) e o medo de morrer (Thánatos). Mesclados ao disparate de expectativas com o outro, a tristeza da perda de um afeto que também seja sexual, e não só platônico, mexe ainda mais com esse desejo e esse medo.

Ainda assim, isso não explica porque amamos quem amamos. Tampouco explica como é possível amar alguém que, fisicamente, seja menos atraente ou menos competente em termos de reprodutividade do que outrem. Para oferecer uma solução a esses dilemas, podemos usar uma ponta de Friedrich Nietzsche. Para o filósofo alemão, a verdade não figura na nossa cognição, e muito menos na verbalização de nossa cognição. Se dissemos “amor”, falamos de algo que podemos compreender e definir por amor, mas não do verdadeiro “amor” em sua essência. As palavras e os objetos, assim, são ligadas apenas pela necessidade de expressão ao próximo e de categorização interna de conceitos subjetivos.

Usando Nietzsche, podemos levantar a hipótese de que todo amor é subjetivo, e a cognição desse amor, essencialmente, não reflete a palavra “amor”, atribuída ou não a um/a objeto de nosso desejo. Assim, como todos somos “fins em si” e não “meios a outros fins”, cada amor é um fim em si, particular, e cada objeto de amor tem um outro fim em si, particular. Logo o disparate tão frequente, porque o que me faz amar, além do tesão, e além de características universais que podem ser encontradas em maiores ou menores medidas em outras pessoas, é algo subjetivo, de associação cognitiva pessoal, baseada em meu conceito e minha vivência da realidade (tempo, espaço, ética etc), diferentes do conceito e vivência (paradigma) da realidade do outro.

Enfim, simplificar o romance como tesão também foge da realidade, a realidade que as crianças, como diria Freud, tanto temem. O que não se encaixa à definição romântica dominante é a tentativa de encontrar um valor empírico e universal que seja, para todos e para todos os efeitos, amor romântico. Ainda não sabemos exatamente porque amamos quem amamos, mas certamente é mais do que tesão, e menos do que adoração a seres superiores (bem menos). Além disso, imaginem como seria escrever romances, canções, poemas e fazer filmes substituindo a saga romântica do eterno apaixonado pela fome insaciável do perverso tarado.

 

* A Casa do Budas Ditosos – Editora Objetiva; 1999.

 

 

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