Tudo bem: Israel é a única verdadeira democracia do Oriente Médio, uma das poucas da Ásia, ou África, nessa região que ninguém sabe, exatamente, como denominar. Como disse o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, repetidas vezes desde o início da semana, “em uma região onde mulheres são apedrejadas e homossexuais perseguidos,” em uma alusão ao Irã e outros de seus vizinhos muçulmanos, “Israel ergue-se exemplarmente.” Nessa mesma democracia, cujo segundo maior jornal, Haaretz, publica copiosamente em seu edital que as medidas democráticas são as únicas válidas (ao menos de acordo com o crescente segmento liberal em Israel), também há ordens militares de se disparar contra manifestantes desarmados, ferindo e matando a esmo. Toda história tem dois lados, é verdade, mas para ambos, a morte só tem um.

Assim como a diplomacia de Bibi (seu apelido carinhoso), conforme o entrevistado por The New York Times, Nabil Abu Rudeineh, suas propostas parecem não chegar a lugar algum. “Isso [as propostas de Bibi ao longo da semana] não levará a nenhuma solução,”  disse o assessor de Mahmud Abbas, lider palestino, “Ele não apenas diz não a Jerusalém, ao retorno dos refugiados e à permanência de soldados ao largo da Jordânia, como ainda pede que nós rompamos o acordo que temos com o Hamas. Nós jamais aceitaremos a presença israelense no estado Palestino, especialmente ao largo do Rio Jordão.”

Passo a passo, um guia ao idiota sobre o acordo diplomático Israel v Palestina:

Jerusalém: Uma das premissas das Nações Unidas desde meados do século XX é a criação de um estado duplo, israelense e palestino, de territórios delineados e, conforme exigem os palestinos, com a capital de Jerusalém para ambos povos. Quando os acordos de Oslo e logo de Camp David entraram em voga, lobistas da direita judaica nos Estados Unidos liderados pelo AIPAC pressionaram o governo a jamais negociar em Jerusalém, o que metodicamente fervia os ânimos regionais. A direita israelense, governante, se recusa a negociar Jerusalém e a considera indivisível. Nota: Entre os territórios ocupados, as regiões próximas a Jerusalém estão entre as mais importantes, com antigos e/ou importantes assentamentos judaicos, legais ou ilegais. É a região da Cisjordânia (o Rio Jordão separa Israel da Jordânia). Bibi, em discurso ao Congresso dos Estados Unidos, disse que jamais concederia metade, ou qualquer parte, da cidade, sagrada para as três religiões monoteístas.

Retorno de refugiados: Entre as premissas das negociações do PLO, Hamas, e outras organizações políticas palestinas, há o chamado “direito ao retorno” dos refugiados, expulsos de Israel desde sua criação, em 1948, pela expanção territorial de 1967 e adiante, ainda em vigor. O caso palestino é simples: Palestinos foram expulsos de terras que habitavam, muitas vezes com a ajuda de caminhões e tratores destruindo seus assentamentos. Muitas terras ocupadas não tinham habitantes, mas já eram cercadas, ou mantinham pouca distância, de assentamentos palestinos. Outras contaram com o apoio do governo e, para garantir o que governantes políticos acreditam ser o território necessário para manter a segurança de Israel contra vizinhos massivamente antagônicos, praticaram as expulsões forçosas. Líderes palestinos pedem, atualmente, que os palestinos, e seus decendentes refugiados na onda das disputas territoriais e as chamadas “guerras de independência”, voltem a Israel. O lado israelense é pragmático, mas menos simples. Caso esse direito seja cedido, Israel terá – para todos os efeitos um risco que já corre sem nada ceder – mais palestinos do que israelenses em seus territórios. Nota: A essência das negociações judaicas é sempre a garantia de sua segurança e direito de existência. A essência, pelo lado árabe, resume-se a direito de soberania, legitimidade governamental, e reconhecimento de direitos humanos.


Soldados ao largo do Rio Jordão
: Os soldados existem para proteger a fronteira de Israel com a Cisjordânia e, obviamente, qualquer outro perigo externo. Entretanto, também funcionam como seguranças de uma zona de conflito direto entre criadores de colônias ilegítimas, mas conhecidas e até apoiadas pelo governo de Israel, e palestinos residentes, ou militantes, dos assentamentos na região. Em qualquer tratado de soberania, convencer um país a permitir a presença de soldados de outro país em suas fronteiras é complicado. Para os clássicos inimigos territoriais, seria uma missão impossível o lado palestino aceitar isso. Conforme delineou Bibi, a permanência de tropas na região é inevitável.


Acordo com o Hamas
: O Hamas não aceita o direito de existência do estado de Israel. Israel, assim diz Bibi, não aceita o direito de existência do atual modelo de estado Palestino. Enquanto Israel não aceitar o estado Palestino, líderes palestinos dizem que não aceitarão Israel, que diz exatamente o mesmo.


Fronteiras de 1967
: Não entro a explicar acordos geográficos, mas Israel expandiu território depois dos conflitos com o Egito, Síria e Jordânia em 1967. Parte desses territórios, como os planaltos do Golan no deserto Sinai, já foram devolvidos, mas a maioria, incluindo territórios de assentamentos ilegítimos, permanecem na Faixa de Gaza (sudoeste) e Cisjorânia (nordeste). O Presidente Barack Obama exigiu que os acordos se baseiem nos territórios demarcados por Israel quando tornou-se estado, ou seja, as fronteiras pré-1967, mas que, com o objetivo de garantir segurança à soberania israelense, os territórios seriam renegociados em “mútuo acordo”. Bibi rejeita qualquer espécie de negociação em bases que considera ultrapassadas e insuficientes para garantir segurança em seu estado. Os palestinos exigem que as fronteiras pré-1967 sejam reestabelecidas, sem compromissos.


Opinião Carrancuda sobre esse Jogo de Xadrez

Primeiro, se quisermos pensar nesse conflito de modo pragmático, conhecer a história da região ajuda, conhecer suas origens geo-políticas, sociais e culturais ainda mais, mas apenas a atualidade, a realidade local, importa. A maioria das vezes que rebuscam o passado, o fazem com o objetivo de encontrar culpados e inocentes. Para este que vos escreve, culpados são todos os que levantaram ou pretenderam levantar armas contra o povo vizinho, e no caso dessa região as vítimas (incluindo crianças mal-educadas a recorrer à violência) são, majoritariamente, apenas as crianças, sendo culpados quase todos, se é que procurar culpados ajuda em algo.

Os Estados Unidos enfrentam um período de transição de hegemonia, geralmente demarcado por conflitos, guerras e simulações, mais ou menos mórbidas, de amostras de poder desproporcionais, tanto por parte da hegemonia, quanto por parte de seus rivais. Como fizeram Brasil, Argentina e outros países em desenvolvimento, assim pode ser que faça a União Europeia, e reconheça a legitimidade do estado Palestino.

A verdade, doa a quem doer? Palestina quer estado, pretende estado, precisa de estado, mas não é estado. Não tem território delineado (em grande parte pelos conflitos com Israel, mas outros países e regiões fronteiriças também se recusam a ceder territórios e aceitar os refugiados palestinos, ainda que a culpa seja sempre atribuída a Israel). Não tem governo universalmente aceito (os problemas com o Hamas depois de sua eleição democrática ao poder servem de exemplo disso). Não tem um governo capaz de interagir diplomaticamente com outras diplomacias (as organizações palestinas estão quase lá, mas ainda há divergências e disputas pela representação palestina, etc, conflitos comuns em qualquer novo país procurando estabelecer-se como país). Além disso, pelos conflitos territoriais com Israel, não tem  habilidade de proporcionar segurança à população, do mesmo modo que não conseguiu, até hoje, garantir o mínimo de condições sociais ao seu povo (novamente, a culpa é atribuída a Israel, enquanto outros países, aliados em princípio e ideologia ao estado Palestino, não ajudaram, como podiam, os refugiados palestinos justamente para pressionar Israel).

Ainda assim: O reconhecimento força pressão, e seria mais um exemplo de uma comunidade internacional reconhecendo regiões frágeis para pressionar o restante do globo a reconhecê-las também. Nessa legitimação, os Estados Unidos correm o risco de isolamento, ao lado de Israel, nas Nações Unidas. Outros países, ainda relutantes, seguirão o curso da legitimação, e isso em si talvez acelere o processo de estruturação de um governo funcional e uma diplomacia eficiente para os Palestinos, que precisam se posicionar e cerrar-se em torno de uma única liderança. (Aqui vale uma nota: Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia concordam com Israel que essa liderança não pode relacionar-se ao extremismo político.) Sanções e punições econômicas fragilizarão o mercado israelense e aumentarão a pressão contra a aliança do gigante da América do Norte. Sem nenhuma concessão israelense, que é o discurso atual do premier do estado, nem os Estados Unidos, seu maior aliado, poderá manter-se firme, mesmo que o lado Palestino ainda demonstre instabilidade e resistência.

Sem concessões, mesmo as mais ideológicas, mesmo as mais humanitárias, – como a Palestina delinear-se em território menor do que o esperado e manter, em posse israelense, parte dos territórios ocupados, e como Israel ceder parte desses territórios e cessar sua expanção imediatamente – não haverá acordo diplomático. Mesmo com o acordo diplomático, não há a menor garantia de paz e, verdade seja dita, ainda haverá muita guerra antes da paz estável, mesmo porque cultural, social e politicamente, as duas facções são extremamente diferentes em suas visões ideológicas e paradigmas da realidade universal.

Bibi latiu, rugiu e esperneou inicialmente, mas nenhum líder consciente e sério, que pretende disputar posto no xadrez da diplomacia internacional, pode intimidar o líder da maior potência do mundo, esteja ela banguela ou não. No decorrer da semana amansou, disse que cederia mais caso a liderança Palestina reconhecesse o direito de existência de Israel, e frizou os pontos de concordância com Obama. O jornal Haaretz, em edital reativo ao primeiro discurso de Bibi, e à sua sequência argumentativa no decorrer da semana, pediu aos judeus nos Estados Unidos que apoiassem Obama. A visão de Obama, a visão da diplomacia, do jogo de xadrez, vigora cada vez mais.

Ainda assim: Israel precisa ter sua segurança garantida. É muito possível que, ao ceder território e ao negociar outras plataformas tanto regionais quanto políticas com a liderança Palestina, (o que requer reconhecimento dessa liderança, o que em grande parte depende de uma unificação universal em prol de uma liderança exclusiva e tolerante), ganhe a simpatia do mundo palestino. Mais provável e vital para a continuação da existência de Israel seria ganhar o apoio do mundo, incluindo dos países do BRIC e da União Europeia, ao ceder mais e demonstrar que é sério em sua intenção de negociar um estado Palestino. Negar, contudo, que sua segurança esteja ameaçada, é um engano que teria custos irreparáveis e que, com razão, o governo e o povo de Israel jamais abdicarão de se preocupar.

Israel é o único país democrático e livre da região. Erra, como todo país democrático e livre e, na “síndrome do holocausto” vigente, (a paranoia contra o inimigo torna-se o cerne da criação de um “outro”, que pode ser exterminado caso necessário), erra ainda mais. Por ser democrático, tem a obrigação, entretanto, de procurar a solução diplomática mais rápido. O dia que Israel apoiar a criação concreta de um estado Palestino, as negociações começarão. Caso os líderes palestinos aceitassem a existência de Israel, o resultado não seria o mesmo, pois ainda seria necessário que Israel concordasse negociar.

Portanto, atribúo a Israel muito menos culpa do que o mundo desinformado ou ideológico atribui, mas tanta responsabilidade quanto, cuja natureza Israel é bem ciente de ter. Na mesma “síndrome do holocausto”, Israel isolada – já que o regime dos Estados Unidos ainda se auto-protegerá apesar de qualquer aliado (se necessário, expulsará, rejeitará, ou aniquilará, como já fez, inclusive rejeitando judeus sobreviventes da Alemanha nazista na época, sem o menor problema), – corre riscos muito maiores do que os foguetes lançados da Faixa de Gaza. Pode tornar-se, como já ocorreu tantas vezes, bode expiatório, e então será punido até por crimes que nunca cometeu.

RF

Artigo do The New York Times: http://www.nytimes.com/2011/05/25/world/middleeast/25diplo.html?_r=1&src=me&ref=world

Edital do Haaretz: http://www.haaretz.com/print-edition/opinion/u-s-jews-must-support-obama-s-mideast-vision-1.363665

Anúncios