Há quem diga* que a transformação do Brasil em um país evangélico possa destruir o avanço cultural conquistado nos últimos séculos. Há também quem diga** que a o cristianismo versus o protestantismo da América Latina versus Estados Unidos definem, em grande parte, a cultura do país, especialmente a cultura econômica. Independente da visão, se há normas econômicas que deram certo nos Estados Unidos (e conforme argumentaremos a seguir, não deram certo apenas pelas condições globais, mas sim por determinadas iniciativas federais e privadas, já que ter dinheiro não significa conquistar, automaticamente, desenvolvimento), há também normas culturais que jamais deram certo na América Latina, e que, na maioria dos países em desenvolvimento, são até proibitivas.

Disparate de Fluxo e Investimento

Os últimos estudos econômicos*** comprovam que o fluxo de investimentos internacionais no Brasil, tanto em termos de importação quanto em termos de exportação de capital e moeda, é recordista inédito na atualidade. No entanto, a universidade Suíça, IMD, considerada uma das melhores do mundo na área de economia, rebaixou o Brasil em seis posições em um ranking de competitividade realizado pela instituição acadêmica anualmente. Enquanto havia subido de 49ª  lugar ao 38º entre 2007 e 2010, em 2011 o Brasil ocupa a 44ª posição. Os fatores apontados pelo estudo indicam que há um disparate entre o fluxo de investimento, e o investimento em si. Em outras palavras, se o setor privado encontra grandes investimentos do exterior, ainda assim decaiu no ranking de eficiência e, por mais que o Brasil tenha adquirido grandes aliados comerciais, a eficiência governamental também decaiu, o que, nesse caso, é traduzido em uma queda de investimento em infraestrutura.

O Brasil conquistou espaço no mercado internacional, bem como reconquistou ou clamou sua hegemonia na América do Sul diplomaticamente, explodindo o tamanho do Ministério de Relações Exteriores sob a presidência de Luis Inácio “Lula” da Silva. No momento, sob Dilma Rousseff, o número de formandos pelo Itamaraty é desproporcionalmente maior do que algum dia pensou-se possível chegar a ser. Apesar de algumas manobras mais ou menos embaraçosas da diplomacia brasileira, conquistamos exemplos históricos de posicionamento, independentemente da vigente hegemonia dos Estados Unidos. Sem expandir, afirmamos que o ambiente de fluxo de investimento internacional é merecido e propício ao tamanho, na escala global, do Brasil.

Ainda assim, se esse investimento não é seguido de mediações condizentes por parte das instituições privadas e federais do país, pode transformar-se no maior inimigo econômico da história da América Latina.

Consumir para Consumir por Consumir

Após o 11 de Setembro de 2001, George W. Bush não pediu ao povo estadunidense que se esforçasse mais para a reconstrução do país, nem que trabalhasse mais, nem que pagasse mais impostos, ou que criasse redes de caridade social para o auxílio das pessoas mais afligidas pela crise. Pediu, ao invés disso, que saíssem às ruas, passeássem, gastássem e consumíssem o máximo possível. Assim é a cultura estadunidense, cuja economia é fortalecida não pela venda e compra de comodities, mas pela compra e venda de toda e qualquer espécie de bugiganga. Perante as bolhas criadas e seguidas, culminando na bolha imobiliária e nos escândalos bancários de 2007-2008, a crise financeira no país criou-se monstruosa, faminta e insaciável.

No Brasil, os golpes de revenda de quotas e investimentos tóxicos descobertos em alguns bancos de menor porte recentemente (como o caso do PanAmericano*$), e a explosão do consumismo brasileiro, que exacerba os preços das comodities, que inflaciona os preços imobiliários em proporções no mínimo espantosas, são exatamente os mesmos ingredientes do desastre financeiro que, hoje, força o governo confuso dos Estados Unidos a procurar uma solução ao déficit de aproximadamente 4 trilhões de dólares em dez anos. Somado a isso, comprar por comprar para comprar, com a melhora de qualidade de vida, aumento salarial e de condições trabalhistas, está se tornando moda ainda maior no país sulamericano. Apesar das medidas tomadas*$$ para sanar e repor a economia em seus trilhos, só domar o consumidor, ou só se preocupar nas beiras da infraestrutura, não será o suficiente para evitar os estouros das possíveis bolhas.

Às vésperas dos jogos internacionais de 2014-16, o Brasil tem a oportunidade de investir categoricamente em sua infraestrutura. A iniciativa privada tem a oportunidade de contribuir ao próprio crescimento,  sem prejudicar o crescimento doméstico, o que depende em grande parte do relacionamento de fiscalização essencial entre o estado e a indústria privada. Perdendo essa oportunidade, caindo em corrupções de velha história, super-faturamentos e na ineficiência governamental ou privada na contratação de construtoras legítimas e competitivas, os jogos trarão mais problemas do que soluções, ou, no melhor dos casos, trarão uma “boom” que só será aproveitado em valor de face, e não na íntegra.

Pelo lado individual, consumidores tem a obrigação de pensar que comprar mais do que se pode pagar, mais do que se precisa, comprar por comprar e para comprar não só prejudica indivíduos e famílias, mas também toda a população. O mesmo que ocorre, aliás, na falha em investir em infraestrutura, e na queda na eficiência dos serviços federais. Não é suficiente o que entra em investimento, o fluxo financeiro e nem mesmo o crescimento anual do PIB. A sociedade precisa de fatores que refletem essa injeção de capital, ou a economia nacional beira sempre a estagnação*$$$.

Já a queda na eficiência do setor privado é de outro tipo de preocupação. Se o setor privado se beneficia do posicionamento brasileiro no mercado internacional, mas não retribui nem reflete seus lucros internamente, bem como a cultura das multi-nacionais estadunidenses da atualidade, o crescimento do setor começa a se afastar em causa e natureza do crescimento do país, o que garante um aumento ainda maior em iniquidades de classes econômicas e, consequentemente, sociais.

Vale lembrar que os governos menos afetados pela crise mundial foram os de fiscalização e regulamentação federais e privadas moderadas a acirradas. Também vale lembrar que, quando o governo é usado, como o é com tanta frequência, pelas minorias, donas dos capitais, com auto-finalidade (onde o setor privado ou segmentos políticos tornam-se fins por si só, ao invés de servirem constituintes), e assim, quando o governo financia e assume para si as dívidas da irresponsabilidade e criminalismo fiscal de grandes instituições, como bancos de financiamento e investimento, quem paga o pato é o país inteiro.

Os ideais de engenhosidade industrial, da “busca da felicidade” capital, da liberdade de crescimento econômico, são todos pertinentes a sociedades que procuram sérios, grandes e consistentes avanços.  Seria bom, entretanto, parar com a síndrome do pobre super-capitalista e, assim, desembarcar do trem da cultura estadunidense de consumismo. Talvez, assim, prestaríamos mais atenção à ausência de investimento na infraestrutura, cobraríamos melhores serviços federais e privados, e estimularíamos um maior crescimento de capital interno, para refletir a explosão recordista da injeção de investimentos internacionais. Bons negócios vale fazer como americano.

Só não vale comprar como americano.

RF

*Texto: Deus me Livre de um Brasil Evangélico – Revista Renascer – Abril, 2011: http://www.folharenascer.net/products/deus%20n%C3%A3o%20nos%20livre%20de%20um%20brasil%20evangelico%20/

**Exemplo do livro Latin America’s Struggle for Democracy (entre outras fontes); Larry Diamond, Marc F. Plattner, e  Diego Abente Brun (editores); Jorge I. Domínguez e Michael Shifter (autores); Março/Abril de 2009; John Hopkins University Press.

*** No sítio eletrônico da BBC Brasil, artigo entitulado Perda de produtividade e eficiência derruba Brasil em ranking de competitividade, 18 de Maio, 2011. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/05/110518_competitividade_ranking_rw.shtml

*$Para melhor compreensão do tema, vale ler o artigo da Folha de São Paulo de Novembro de 2010: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/828805-crise-no-panamericano-deve-acabar-em-acao-criminal-diz-bc.shtml

*$$ Medidas mencionadas no artigo da BBC.

*$$$Vale lembrar à professora Amanda Gurgel, do movimento Dez por Cento do PIB Já, que investir na infraestrutura educacional é menos importante em termos de porcentagem, e mais importante em termos de eficiência em investimento (qualidade versus quantidade). Sobre o movimento: http://proftoni.blogspot.com/2011/05/professora-amanda-gurgel.html

 

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