Tudo começa aos sorrisos. O abanar diferenciado dos dedos, o cabelo em riste, ondulando despropositalmente propositado, os lábios colorados mesmo sem tinta, os olhos brilhando mesmo sem lentes, aquele estúpido coração… Começa com tragos, afagos ou inspirações a ares livres. Começa livre. Começa solto. E, nesse começo, quando tudo parece encaixado, o amor não tem dúdivas.

Com o tempo você começa a conhecer o outro. Esse outro, cujos pensamentos serão sempre misteriosos por mais revelados sejam em verbos; esse outro que desdenha uma vida cujos propósitos são só seus, e não de ninguém mais; esse outro que, por mais entrelaçado a você, ainda vive uma vida com fim próprio; esse outro que é o personagem principal de sua própria saga, começa a se despir, peça a peça, camada por camada, e revelar todos os seus “eu”s. “Eu”s outros.

A fragilidade da exposição passa, tantas vezes, desapercebida. Nesses casos, não nos sentimos mais frágeis, nem mais vulneráveis. Pensamos, acreditamos e vivemos como se fossemos mais fortes. Alguns de nós realmente conquistam essa força. Outros se escondem atrás da dopamina da paixão. Ainda assim, há força, e na vulnerabilidade de nossa exposição somos remetidos à forma ideal da vida coletiva: o ser sendo com outro, o sendo ser com outro, e não mais só.

Com o tempo, os medos, os fracassos e as angústias do outro passam a nos incomodar. O que tínhamos de mais querido no outro, enjoa. A vulnerabilidade corre constante risco de se tornar fraqueza. Muitos se esquecem de que eram, os próprios, outros um dia, de vida distinta, fins em si, de propósitos apenas seus, e nesse entrelace se perdem nos rostos dos outros que, com o tempo, vão se transformando em rostos estranhos.

Com o tempo, o que havia começado aos sorrisos incrementa-se de distanciamentos. Às vezes, há brigas infindáveis. Outras, silêncio. Ainda outras, a aceitação do outro como forma independente de vida dá lugar ao crescimento – antes paralelo – paradoxo dos parceiros. Pode que continuem juntos, procurando seus objetivos separadamente, mas dormindo nas mesmas camas. Pode que se separem, e achem melhor caçar propósito na própria ou alheia cama. Há também vezes em que o distanciamento traz paz ao incômodo, e a aceitação gera a nova fase do relacionamento, a dos verdadeiros amantes, confidentes e amigos.

Portanto, nem todos os finais são tristes. Há amizades grandiosas que nascem de amores mortos. Amores de amores, amores diferentes, outros amores por outros… E há aquele amor, aquele raro amor, que cresce como amizade, que não sufoca, que não magoa, que não diminui, que não enfraquece, que não faz da vulnerabilidade o veneno de Romeu, que gera novas vidas, que geram novas vidas e que, com outros, fazem-se todos.

Um fato dá-se só por consumado: Nenhum outro, ou quase nenhum, passa batido por nossa vida. Nenhum enamorado verdadeiro se esquece do passado. Ao por-do-sol, muitos de nós guardamos em nossos centros um cemitério de desamores. Uns cuidam melhor do que os outros de suas lápides. Há quem creme os corpos, ou enterre mais fundo, mas todos de nós levamos o passado dentro de nós, e não nos esquecemos de quem nos deu luzes, tanto quanto sempre levamos conosco quem nos deu à luz.

A questão é, nesse meio tempo, enquanto a exposição vulnerabiliza, enquanto os maiores pecados são cometidos, enquanto as maiores diferenças ressurgem, há o que fazer, ou algo deve ser feito, para guiar a barca à direção da eternidade? Ou a vida simplesmente pari copiosas novas embarcações, enquanto distribui cazes e portos opostos ao largo de nossos mares?

Nesse dia dos namorados, olhe para o rosto de seu parceiro/a e pense, profundamente, o quanto de você essa pessoa levará para o resto da vida, esteja você onde estiver. Agora feche os olhos e pense de novo: Pense no que você levará dela para o resto da vida. Assim, quem sabe, o ego que maltrata o outro, e o outro que maltrata o ego, finalmente façam as pazes.

Feliz dia dos namorados,

Do ranzinza,

Roy Frenkiel

Frases Frenkelianas: Gosto de mulher inteligente. O problema de mulher inteligente é que ela demora menos tempo pra entender o quão estúpido você é.

Para os Homens: 90% das suas ex-namoradas terão um namorado melhor do que você. Para as mulheres: 90% de seus ex-namorados terão uma namorada mais magra do que você.

Mama Klainbaum acrescenta: Pessoa melhor é relativo. Pessoa mais magra, não.

Anúncios