Desde que Portugal resolveu falar “à brasileiro” que tenho lido muitos inflamados textos de académicos a protestar sobre o assunto, já para não falar nas petições. Mas parece-me a mim que toda a argumentação usada está a passar ao lado do verdadeiro cerne da questão que é – e só para citar alguns aspectos verdadeiramente relevantes – como vão os portugueses pedir comida, como vamos nós insultar ou elogiar o próximo, como vão os homens cortejar (à falta de melhor verbo…) as mulheres, e, last but not least, como vamos à casa de banho pública a partir do momento em que o acordo vigorar. Isto porque há uma série de expressões muito lusas que vão acabar por ir à vida.

Claro que algumas coisinhas já entraram, né? Olha eu dizendo né! Olha o dicionário pobre do computador em que muito Doutor confia que não me corrige quando eu escrevo “olha eu”…

Vamos supor que João, português e Leila, brasileira estão a falar de um filme e João diz que o filme era mesmo giro. Leila espanta-se: “giro?!”. É. O brasileiro não diz “giro”. Vamos, em breve, abolir “giro” das nossas conversações. Essa coisinha engraçada, fofa, interessante, bonita, elegante, com hipóteses de vir a ser outras coisas mais, que a palavra “giro” engloba vai desaparecer. Pessoalmente acho trágico. O “giro” vai passar a ser “bacana”, que, convenhamos, não é nem de perto nem de longe a mesma coisa. E que dizer do uso de “legal”, na acepção lusa da palavra? “Legal” para um português é uma coisa dura, de tribunais apenas. “Supimpa”? Quanto ao filme ser “fixe”, isso está definitivamente fora de causa. A Leila jamais perceberia. O “fixe” morre com o acordo.

Os famosos “bué” e “pá” têm os dias contados. Pois. Ah, brasileiro também não usa “pois” no início de cada frase (atenção congressistas!).
Se, noutra esfera, o João quiser dizer à Leila que ela é uma rapariga gira, que adjectivos lhe restam? Bonita? É demasiado forte. Bonitinha? Se Leila fosse portuguesa e fosse adjectivada de “bonitinha” ficaria com vontade de lhe atirar um copo de água com gelo à cara. Seria um adjectivo muito insuficiente. Piora um pouco se o João disser à Leila, sua amigalhaça, que ela é uma rapariga muito “porreira”. Leva um par de estalos logo ali. Eu cá nunca vi um brasileiro que não pensasse que uma palavra com um som desses não fosse um insulto (e quem os pode censurar?).

Lembrei-me agora que “estalos” é outra coisa que não (se) dá em brasileiro… Tinham de ser “tapas” mesmo. É.

E se a Leila for uma rapariga como eu, o João depressa há-de saber o que são “quitutes”, mas não lhe pode dizer que vai comprar “cacetes”, porque cacete em brasileiro também não dá pão.

Há algum tempo, ensinei português a estrangeiros e tinha duas assistentes, sendo uma brasileira e outra angolana. Isto era muito engraçado para os alunos mais avançados e muito complexo para os principiantes. Por exemplo: “A Eva diz bumbum. Em Portugal não se diz “bumbum”?” Claro que não, e só para complicar, os portugueses têm para o rabiosque palavras de foro científico, palavras de uso comum, diminutivos e até palavrões. “Mas não pode ser bumbum?” Não, essa não temos. Concordo que é mais fácil ser brasileiro. Um português a dizer “bumbum” com a sua pronúncia europeia é como se estivesse engasgado a falar de um doce. Não soa bem. É como dizer que o tal filme é “legal”. Não tem o ar bamboleante, leve e festivo da expressão em brasileiro; não pode. A pronúncia do português europeu – que é muito bonita mas com um escopo fonético muito mais abrangente –  dá a certas palavras um ar de gravidade, um contexto demasiado sério. Por isso, exigimos um “giro”, um “fixe”, umas palavras airosas e com vogais agradáveis para desmistificar.

Noutros campos, sobretudo na categoria verbal, os brasileiros gostam genuinamente de inventar palavras (“deletar” como um de muitos exemplos). Os portugueses estão a querer imitá-los. Os brasileiros estão preocupados com coisas sérias como a corrupção e a fantasia que vão usar no Carnaval (já mencionei que os portugueses estão a querer imitá-los? Neste campo, também!) para se preocuparem com a gramática rígida e inventam alguns destes vocábulos que, de tão jeitosos, entram no uso comum.

E porque é que isto tudo, que é pouco ainda, faz sentido para os brasileiros mas não faz para nós?

Porque a variante de uma língua reflecte uma cultura e ninguém tem dúvidas que a cultura brasileira é diferente da portuguesa. Ou tem?

Como disse Mário Prata, escritor brasileiro que viveu em Portugal, “Se houvesse filólogos na época do império romano, não teríamos hoje nem o português, nem o italiano, nem o espanhol, nem o romeno. Os filólogos teriam unificado tudo. Todos falaríamos, até hoje, o latim. E, pior ainda, o latim clássico, já que os soldados esparramaram pelo mundo o vulgar.”

A quem interessa este acordo que estamos querendo implementar a não ser aos vendedores de dicionários? Meu deus, eu me pergunto.

Carla Cook

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