A psiquiatra Jacqueline Garrick concentrou grande parte de seu livro, Trauma Treating Techniques – Innovative Trends*, no uso do humor no tratamento de pacientes diagnosticados com distúrbios pós-traumáticos. Em seu capítulo entitulado Humor Negro, Garrick discorre sobre a experiência de classes sociais específicas e seu relacionamento com o humor negro nos Estados Unidos. Segundo Garrick, “diferente do ‘humor de forca’, sobreviventes que usam do humor negro enfrentaram condições de opressão e preconceito, mas não necessariamente aniquilação … Os escravos africanos criaram esse estilo de humor como um meio passivo-agressivo de contornar seus opressores sem correr o risco da retaliação.” Pouco adiante, Garrick complementa que “o humor negro existe,primariamente, quando um trauma é causado por ato humano, ou tem um culpado identificado” (Lipman)**.

Em outras palavras, segundo Garrick, que segue o capítulo prescrevendo métodos eficientes de usar o humor negro a favor da recuperação de traumas psicológicos, o humor negro só existe porque houve um crime ou um ato de opressão. O humor judaico, por exemplo, conforme Garrick explica (Lipman)**, interliga o humor negro ao “humor de forca”, usando a imagem judaica sob a ótica de seu maior opressor, Adolph Hitler. Nessa transformação (da tradução da imagem maléfica do opressor em uma piada do oprimido), diz Garrick, “[oprimidos] usam [do humor como] uma habilidade de lidar com seus conflitos, que alivia ansiedades, fúria e depressão”.

Humor é Relativo e Complexo

O que nos interessa aqui é tentar responder a questão (em prisma psicologico): Há algum tema que o humor não deva abordar?

A maioria de meus interlocutores encontraram alguma ou outra restrição ao humor, seja ele o holocausto, estupros ou outra espécie de atrocidade. Ouvi e li comentários como “adoro o South Park, mas mudo de canal quando passam piadas sobre (…)”; ou “adoro as piadas no contexto do desenho animado, mas pelo Twitter fica complicado definir”, já que a piada, de cento e quarenta caracteres, aparece descontextualizada. Em todos esses casos, o humorista, ou seja, quem expressa o humor, é o responsável pelo desagrado causado pela piada a ponto de ser associado ao criminoso da piada em si. Além disso, para a maioria dessas pessoas citadas, quem não sente o desagrado e ri é, no mínimo, leviano (para não dizer misógino, racista, anti-semita etc, em si) quanto à gravidade do tema.***

Para mim, entretanto, esse raciocínio é falho em mais de um nível:

1 – Pensar que o piadista é, por exemplo, misógino, é caracterizar alguém, nesse caso, desconhecido. Não sabemos exatamente qual são as óticas, paradigmas, “schemata” (cognição do ambiente ao seu redor), e certamente não sabemos o que pensam e sentem ou como se posicionam humoristas públicos perante os dilemas universais da vida. Mesmo que um fã ou espectador tenha razão caracterizando algum deles de misógino, não tem conhecimento empírico da pessoa. É uma opinião formada em relação ao caráter e integridade de outrem sem conhecimento íntegro desse outrém (preconceito).

2 –  Dizer que certos temas são engraçados no humor negro, mas outros não, é outra forma discriminatória. Quem sugere que há temas em que o humor ‘de forca’ ou negro é passível de condenação, e outros que não, cria um paradoxo. Quem faz a distinção entre, por exemplo, o humor direcionado contra a religião e a crença, e o humor direcionado a uma raça, justifica, segundo esse raciocínio, o ataque à fé de terceiros, mas não à raça (lembre-se que esse raciocínio parte da lógica que o humor negro sobre temas específicos é um ataque). A discriminação social por credo, raça ou status econômico é, para todos os efeitos, discriminação: Preconceito independe de posição na pirâmide hierárquica social.

3 – O argumento de que “quem ri de (…) não conhece a gravidade do assunto” assume, automaticamente, que quem conhece a gravidade do assunto não seria capaz de rir do mesmo, o que é também um preconceito. E mais: Conforme explica Garrick em sua pesquisa, esse argumento é diretamente contraditório à definição pragmática de humor negro. O humor negro só existe em consequência da existência de traumas e, segundo a psiquiatra, é produto dos traumas gerados pela opressão, ou seja, é uma das habilidades desenvolvidas por grupos oprimidos para lidar com seus conflitos (veja também o asterisco de Humor Inapropriado). Nesse caso, existe o mesmo preconceito atribuído aos piadistas, mas dessa vez atribuído a quem ri de suas piadas.

4 – Em clima de perseguições a assuntos sociais tidos como retrógrados, na aplicação contundente de uma censura metódica ao considerado politicamente incorreto, o humor é uma  das primeiras vítimas. Quando tratamos de estigmas originados em construções sociais, o argumento proibitivo dita, nesse caso, que o humor negro constroi o preconceito, que constroi o humor negro. A lógica também é falha: Segundo Garrick e suas fontes, a resistência (ou negação, trauma) ao preconceito construiu o humor negro, não o preconceito (o opressor) em si. A antítese do preconceito é o cerne do humor negro, não sua essência.

Humor Prejudicial

Garrick, depois do capítulo acima, traz uma sessão entitulada Humor Inapropriado****, no qual descreve até que ponto o humor deixa de ser saudável e passa a ser reflexo de uma negação. Vale lembrar, contudo, que ela fala especificamente de pacientes diagnosticados com distúrbios pós traumáticos, ou seja, ela fala especificamente do humor como uso em tratamento psiquiátrico desses pacientes. Para nossos propósitos, o prejuízo do humor é analizado utilitariamente, pesando os prós e os contras de e para todas as partes envolvidas, ou seja, todos nós.

É possível, de fato, que o humor como forma de expressão também seja usado como propaganda de uma ideia, o que para nossos exemplos levantaria a hipótese do humor negro ser usado, também, para perpetuar o preconceito. Isso, entretanto, não inviabiliza o humor em si. Apenas significa que, como todos os outros meios de comunicação e arte, (a música, o cinema, desenhos animados e charges etc) o humor também pode ser usado maleficamente. A diferença estaria, primordialmente, na fonte. Se um racista faz piadas de racismo está, por si, propagando o racismo. Quem assimila a piada ao racismo desconhecendo a fonte, no entanto, o faz por escolha própria. Se um político escreve cento e quarenta caracteres expressando misoginia ou racismo em seu Twitter, assimilamos a fonte, portanto reconhecemos a intenção. O mesmo quando quem twitta é humorista. Ambas percepções tem base no senso comum e conhecimento/cultura popular e, ainda assim, ter certeza do objetivo da piada é suficientemente complexo.

Ilustrando o que quero dizer: Walt Disney, seguindo a moda do Protocolo dos Sábios de Sião, publicou, durante o clima da Segunda Guerra Mundial e do Império Nazista, uma série de charges anti-semitas. Nelas, imagens de judeus apresentados como ratos ou demônios, ou rabinos sendo enforcados em estrelas de Davi, preenchiam as lacunas de seu portfólio ideológico. Tocando a mesma nota, nos Estados Unidos racialmente segregado havia uma série de desenhos publicados em periódicos regionais e cartazes espalhados em várias cidades apresentando o negro como um animal, ou como um estúpido ser irracional. Seguindo nossa lógica, esses desenhos, charges e propagandas não deixam de ser necessariamente racistas e anti-semitas. Com o conhecimento da fonte é fácil discernir a intenção, mas sem o mesmo, novamente, a percepção é subjetiva. Enfim, o que não é necessário é que as vejamos como quem as expressa. É possível, portanto, rir ou até apreciar essa “arte” sem delinear dela absolutamente nenhum sentimento anti-humanista. (Aqui vale um porém: Quando a fonte e a intenção é explicitamente discriminatória, como no caso de Walt Disney e os cartazes, a arte certamente não deve ser patrimônio público de uma comunidade que não quer ser vista como discriminatória. Não adianta vestir o uniforme do KKK e depois dizer que só fez brincadeirinha.)

Essa confusão ocorreu, deveras, em uma charge da capa do The New Yorker em que Barack e Michelle Obama apareciam pintados com roupas de muçulmanos, armados como se fossem terroristas. Como um desenho (ou uma twittagem) não se auto-explica, qualquer das interpretações são válidas: A) The New Yorker apresentou Obama e sua esposa como terroristas islâmicos; B) O periódico caçoou da oposição partidária que considera Obama e sua esposa terroristas islâmicos; C) Todo muçulmano é terrorista; D) Ironizando todos os que pensam que todo muçulmano é terrorista etc. A fonte é ambivalente nesse caso, já que o jornal é naturalmente informativo e sério, mas também é imbuído de humor negro e sarcasmo.

Finalizando, muitos podem concluir que é correto que o negro faça piadas de negros, o judeu de judeus, o homossexual de homossexuais e a mulher estuprada de seu estupro, mas não um branco de negros, ou um homem ou mulher, que jamais sofreram violência sexual, de estupro etc. Não é uma lógica tão falha quanto as acima exemplificadas. Meu argumento, no entanto, é que, especialmente em tempos de super-exposição a tudo em vias de hiper-comunicação, males sociais não afetam apenas a classe oprimida, mas toda a população. Só mulheres podem ser estupradas, mas faz sentido também dizer que o pai ou marido ou filho ou amigo de uma vítima de estupro também sofre o trauma. Portanto, potencialmente, todos os pais, filhos, maridos e amigos podem sentir grande empatia pelo medo de estupro. O mesmo sobre o anti-semitismo ou homofobia: São problemas que, direta ou indiretamente, afetam toda a população, e em um mundo que evidentemente marcha para a ideologia das igualdades, traçar um paralelo entre o anti-semitismo, racismo e homofobia é algo simples e disponível como produto ideológico popular. Assim, é possível que não judeus e não escravos usem do humor negro, judaico e escravo, para fins construtivos, de teor terapêutico ou por puro entretenimento “inocente”, catalizador do alívio das opressões.*****

Se na arte a dicotomia faz-se irrelevante e até mesmo prejudicial, no humor, a forma artística que se perpetua no absurdo, a dicotomia aparenta ser a única proibição.

RF

*Trauma Treating Techniques – Innovative Trends (pgs. 170-189).

** Garrick cita dois acadêmicos (pg. 176), Lipman e Khulman. O primeiro distingue entre o humor negro e o que Garrick chama de ‘humor de forca’. De acordo com Lipman, “ao contrário do ‘humor de forca’ que concentra-se em morte e aniquilação, o humor negro tende a concentrar-se no opressor e no assassino”. O segundo teoriza que “o ‘humor de forca’ [como o negro, viola] princípios normalmente associados a significados e valores humanos”.

***Parte do que faz a ironia e a sátira engraçadas não é o tema em si (estupro, genocídio, homofobia etc), mas sim o desconforto causado pelo tema. O desconforto é o punch line.

****(pg. 178) Na sessão, Garrick discorre sobre o perigo de permitir que o paciente se acomode em uma “zona de comforto”, onde seu humor é usado como “negação” de sentimentos que não consegue acessar de um modo mais maduro. Como vemos, entender o motivo do riso é muito mais complexo, com mais ramificações, do que entender o motivo da piada em si, mas psicologicamente, entender o motivo da piada também é complexo, e não pode ser julgado a valor de face. A fonte deve ser considerada. Se as formas de humor negro e ‘humor de forca’ existem como forma de tratamento psiquiátrico e podem ser definidas a favor da vítima e do ponto de vista de pessoas oprimidas, obviamente, sem precisar conhecer causas, o humorista sempre usará desses dois métodos, e a plateia deve considerar o que quer consumir.

***** Muitos acreditam que no Brasil a norma é achar que o assédio sexual é natural, ou que o racismo é correto, ou que a homofobia é normal. Independente da intensidade ou quantidade de racismo, misoginia e homofobia em uma dada sociedade, o conceito normativo ético (o que é certo e errado) parte de outra raíz. Se o preconceito é subjetivo, a constituição (e sua interpretação) de um regime é a ditadora das normas civilizatórias. Se é proibido, constitucionalmente, discriminar, a norma não é a discriminação, independentemente de outras carências e sintomas culturais. No Brasil, o racismo pode ser normativo, mas não é constitucionalmente correto. Em tempos, não acredito que a maioria dos brasileiros seja racista, misógino, homofóbico ou anti-semita mais do que o proporcionalmente comum na maioria das sociedades, inclusive a estadunidense. Acredito, sim, que a cultura e a norma moral da sociedade carece de desenvolvimento para que participe do conjunto de mentalidades vigentes em tribunais regionais, nacionais e o STF.

NA: Esse texto é válido apenas no contexto do humor negro, o humor “de mal gosto”, como é chamado, o “humor de choque, por choque e para choque”, mesmo o que eu não aprecio, e mesmo o que acho infantil ou primitivo. Muita gente pensa, pela bandeira #humorsemlimite, que sou o maior fã do CQC. Sempre que assisti, ri, mas não me considero fã de carteirinha, e não devo ter assistido dez capítulos completos. Os últimos, os mais polêmicos, só vi depois das reações gerais, e então formei meu pensamento. Para mim, pelo menos, esse texto é válido por tudo que li e vi.

Quer ler um pensamento totalmente oposto? Vá lá.

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