Se nos dois textos passados (Partes 1 e 2) falamos sobre os problemas causados pelo excesso de informações, e sobre o novo método menos rigoroso de apresentação de ideias (dados), que cria um novo método de absorção de ideias (informações), no penúltimo texto da série analisaremos, brevemente, o relacionamento entre mídia livre, liberdade de expressão, e o crescimento de redes sociais.

Facebook e o Oriente Médio

No Oriente Médio atual, o regime de hoje em um dado país pode não ser o regime de amanhã. Assim ocorreu com a Tunísia e o Egito, inicialmente, e logo se alastrou para a Líbia, Indonésia e Yemen, além dos outros já fragilizados governos totalitários em uma área de conflitos ideológicos, religiosos e tribais constantes. A notícia de que os protestos teriam sido organizados através de manifestações massivas em redes sociais não foi omitida. O dilema sobre a função do sítio social em circunstâncias de movimentos massivos em países que restringem e sufocam a liberdade de expressão já estava lançado.

Em Fevereiro de 2011, uma matéria no diário The Daily Beast trazia* à tona o processo de envolvimento do Facebook na manutenção de uma página de protesto ao governo de Hosni Mubarak, no Egito. A página “We Are All Khaled Said” (“Somos Todos Khaled Said”, um manifestante assassinado pela polícia egípcia em 2010) conseguiu crescer desde Junho de 2010, quando foi criada, e “acabou virando um dos sítios de ativistas mais influentes no Egito”*. O sítio procurava influenciar a população egípcia e alertar sobre as eleições forjadas. No dia das eleições, entretanto, a página desapareceu do Facebook. O assunto foi resolvido quando ativistas pela liberdade de expressão midiática pressionaram executivos do mega-sítio social a tomar uma atitude. A recomendação oficial do Facebook era que ativistas evitassem de abrir perfis com pseudônimos, visto que “regimes já usaram os termos de serviço contra usuários, desmontando páginas sensíveis em momentos cruciais, como nos momentos iniciais de uma chamada ao protesto”.* Nos termos de serviço do Facebook, pseudônimos são proibidos. Portanto, foi Nadine Wahab, uma imigrante egípcia nos Estados Unidos, que ostentou a página em seu nome. Finalmente, ela passou seu nome de usuário e senha a Wael Ghonim, que foi revelado criador da página em homenagem a Said.

Executivos do Facebook começaram a entender apenas recentemente o papel que potencialmente desempenhariam em situações como a egípcia. O dilema inicial é claro: Enquanto o sítio pretende aliar-se a quanto mais mercados de quanto mais países, também entende, pela pressão de seus usuários comuns, que precisa se posicionar pró liberdade de expressão**. Isso causa o que Ethan Zuckerman, executivo do sítio, diz ser um posicionamento “esquizofrênico”: Se por um lado quer cortejar às máximas do capitalismo, por outro, entende que seu produto é massivamente consumido por pessoas que esperam uma certa atitude humanitária.

Nesse caso, como na Tunísia, a revolução popular cresceu e passou a contar com a ajuda do exército. O regime atual no Egito preocupa, ainda, tanto a população quanto diversas organizações humanitárias e pró liberdade midiática. No entanto, Hosni Mubarak, presidente que durante décadas comandou o Egito a dedo totalitário, foi derrubado por uma revolução concreta que divulgou seus propósitos via Facebook, nem menos, nem mais.

Facebook e seus Usuários

Contudo, Jillian York, representante da organização Global Voices, disse ao  Beast* que  “recomendaria que ativistas encontrassem outra plataforma para suas atividades”. Isso advém do medo de que o mega-sítio social ainda tenha esse papel indefinido, da confusão e esquizofrenia acima citados, e do fato que regimes sempre contra-atacam, encontrando as rachaduras da enorme parede criada pelos termos de serviço e usando-as contra ativistas. Enviando mandatos de deposições, ou pedindo o passaporte dos organizadores revelados, autoridades de países totalitários, mais vezes do que não, aterrorizam os criadores de páginas ativistas e seus participantes.

Orkut, MySpace, Facebook, Twitter… Todos são canais essenciais na era da hiper-comunicação. Canais que expõem um mundo que, mesmo ainda controlado, mesmo ainda limitado (conforme veremos no próximo e último texto dessa série, sobre a invasão de privacidade do Facebook), jamais foi tão “nu” aos nossos e, ainda mais importante, aos olhos das mais novas gerações, que jamais conheceram um mundo menos “nu”. Nesse contexto, o “mundo velho” e o “mundo novo” atuais (diferentes da Velha Europa e da Nova América), estão diretamente conectados enquanto houver hiper-comunicação acessível em determinada região.

Como brincaria o psiquiatra LMF, “o Brasil chegou à era da informática antes de chegar à era da alfabetização”. Essa ideia ilustra justamente o que ocorre em rebeliões sociais rústicas, erguidas para desbancar governos tradicionais, mas nascidas em antros tecnológicos modernos. A incerteza do rumo dos novos regimes, erguidos pós revoluções sociais, ao lado da ideia de LMF, também serve para ilustrar que tecnologia e evolução (tanto no sentido físico quanto meta-físico) são duas coisas totalmente diferentes.

RF

*Artigo do The Daily Beast.

** Como o caso de Google na China. Aqui e aqui.

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