Arte de Beti Timm - Niedergeschlagen

Falar “de coração” é mais difícil. Gosto quando meu amigo Jiló expõe suas ideias aqui justamente por isso, porque falar “de coração” é mais difícil. O mundo vive, desde o fim do século XIX, “tempos interessantes” (Eric Hobsbawum). Nós temos, em geral, mais armas para vencer, conquistar e ganhar direitos. Mas temos armas para aniquilar toda a humanidade. Temos a capacidade de mobilizar milhões com digitais por uma tela de computador. Temos a capacidade de ensinar milhões a fabricar bombas e cometer as maiores e piores atrocidades. Temos a capacidade de inspirar milhões a amar. Temos a capacidade de ensinar milhões a odiar. E, em se tratando de milhões mobilizados por digitais singulares, individuais, mobilizamos, sem querer, bilhões, para lá e para cá, sem saber para onde exatamente vamos e guiamos. O nulo da grande rede virtual, o vácuo, cheio do tudo, cria o que acredito ser uma época muito mais do que pós-moderna: Vivemos a Era do Super Pós-Modernismo.

Ontem assisti a um vídeo que só recomendo a quem tiver estômago, do Bule Voador, o que me levou a sentimentos muito negativos, desejos negativos contra assassinos, maltratantes e criminosos de ódio; desejos que sei que sinto e sei que outras pessoas como vocês, leitores, sentem quando sentem que alguém foi violentamente injustiçado. Esse sentimento gerou este texto. Logo, o pensar também que “violentamente injustiçado” faz sentido, ou que haja quem mereça a violência contra si, o “justamente violentado”. Isso contradiz absolutamente tudo que disse antes, em todos os textos do Suma em que me posicionei sobre qualquer assunto. Se julgo a verdade pelos critérios de meus sentimentos contra atos de violência, minha verdade pode ser tão sinistra, tão selvagem, tão rude e tão cruel quanto a de quem sentiu, algum dia, que ser homossexual injustiçaria sua vida, e resolveu agir, por impulso ou outra ordem natural, contra homossexuais. É uma patologia, ou sintoma patológico: Eu quero o mal, mesmo, de quem violentou ou assediou sexual ou fisicamente a alguma mulher; quem espancou algum homossexual, negro ou simplesmente “não branco”, o que nunca se soube definir, de todos os modos; quem maltratou algum animal. Mal mesmo. Se eu disser quão mal, Jiló vai parecer Papai Noel.

Arte de Beti Timm - Sem Titulo

Através do Twitter, tenho acompanhado opiniões diversas de pessoas diversas sobre assuntos diversos. Antes disso, julgava mal o que era importante para as pessoas. Julgava incompleto, para o bem da minha total honestidade escriba. Hoje vejo que cada pessoa, cada um de nós, quer algo específico, mas que muitas de nossas causas mais banais, mais triviais, ainda permanecem absolutamente irresolvidas, e que no querer de alguns de nós, no Ego do Super Pós-Modernismo, muitas das causas que só nos beneficiariam morrem asfixiadas.

Dependendo do círculo que circulemos, veremos fragmentos tão ínfimos da “verdade”, que sempre nos espelharemos nos cacos que quebrantamos a viés e a direto. Na esfera onde esses fragmentos se mesclam, se únem e colidem criando mais fragmentos, a “verdade” torna-se impossível de decifrar. Podemos, claro, construir tendências, filosofias de vida, e até tentar interpretá-las. Acho que perdemos tempo demais, entretanto, pensando ou deixando de pensar. Tem certas coisas que são e pronto, ao menos se quisermos conviver em paz e erradicar de nossas sociedades os maiores males: a violência intra-humana, nossos complexos mal resolvidos, nossas estupidezes conjuntas, nosso medo um do outro… Sei que é complicado para cérebros individuais mais acostumados a assistir macaquinho sentando em banana na televisão o ato de compartimentar amores e ódios. Individualizar o amor e o ódio, aliás, ainda é algo que nós, animais pseudo racionais, não conseguimos fazer. Generalizamos em todas as camadas da sociedade: os bons, os maus, e os normais.

Eu só queria deixar claro que eu entendo: Entendo, depois de assistir a esse vídeo, porque muitas feministas pensam como pensam, e Lola se posiciona como se posiciona, contra tanta gente que fala de e sobre o ódio vibrante que existe em sociedades ainda machistas, ainda homofóbicas, ainda racistas e preconceituosas. Preconceito, enfim, é medo enrustido, é ânus piscando, é pipi na cama e é precisar de muita pílula azul para fazer o pengolim subir. Entendo, portanto, que haja o sentimento da necessidade de um movimento armado, mais agressivo, defensivo e alerta contra a misoginia, a homofobia, o racismo, o anti-semitismo e outros preconceitos cada vez mais estúpidos que criamos com a explosão de diversidades.

Mas discordo da violência e da censura, racionalmente. Não porque não sinta raiva, nem porque não sinta ódio, nem porque não seja humano. Não consigo mais assistir aos filmes sobre holocausto há muitos anos. Consigo, sim, rir de piadas bem contadas sobre absolutamente tudo, mas não consigo assistir a vinte minutos de um filme que mostra cenas de tortura contra qualquer espécie de ser vivo. Quem me conhece sofre com isso. Não consigo assistir aos noticiários regionais aqui nos Estados Unidos, e a quase nenhum noticiário inteiro brasileiro. Se Jiló pula, eu sáio da sala e vou ler alguma coisa ou brincar de médico comigo mesmo. Não aguento ver o que o governo, as cortes e formadores de opiniões bem assalariados e com enorme público pensam, realmente, e fazem, concretamente, contra seres humanos em sua própria terra. Mas discordo…

Arte de Beti Timm - Beija-me

Discordo que ser como eles na patologia e seus sintomas, que querer a morte deles, que agir contra a integridade física deles, seja de alguma valia a qualquer causa que queira avançar. Discordo que impedir suas manifestações, fazer petições contra as palavras até mesmo dos maiores calhordas (inclusive os que considero inocentes e palhaços), ou viver a vida em função de calá-los seja o ideal para chegar à máxima da igualdade e liberdade que todos precisamos para começar do ponto zero, e aí sim falar sobre o que queremos e o que pensamos – aliás, aí sim ter tempo para parar e pensar. Discordo que precisemos disso para vencer*.

Precisamos, sim, de uma defesa formal e um sub-universo estruturado. Precisamos, sim, de uma força armada real, concreta e concisa, em torno de ideais máximos. Talvez até precisemos juntar as causas, todas elas, em uma só panela, e criar uma classe massiva (mais sobre isso no Suma Hiato, Quinta Feira), a classe dos Discriminados, Violentados e Sofredores de Adversidades (DIVISA), que exista, porque somos humanos, e porque precisamos começar a construir ao invés de destruir. Se calarmos o ódio, o ódio continuará fervendo na mente dos vís e imbecís, e tudo o que ferve, explode. Se plantarmos amor, concreto, fora das telas do Twitter, de verdade, talvez consigamos ao longo dos séculos, esperançosamente antes, diminuir intensamente a quantidade e qualidade dos psicopatas de plantão.

Sempre existirão, é verdade. Por isso não podemos nos desarmar. Precisamos de justiça verdadeira. Precisamos de polícia verdadeira e, se não a temos, precisamos sê-la. Acho, ainda assim, que podemos policiar pelo bem. Sei que sobreviveremos. Talvez nem todos, mas sei que sobreviveremos.

De coração,

Roy Frenkiel

* Entendo perfeitamente que essas petições existam, e acho que cada pessoa sabe o que faz, e acho que quem faz, faz geralmente com boas intenções. O que me incomoda é que, se algo verdadeiramente preconceituoso foi dito e ouvido e assistido e lido por milhões, o que uma petição pode fazer? Deixar de que tenha sido dito, ouvido, assistido e lido por milhões? O posicionamento político, ideológico e humanista, acho, muitas vezes tende ao negativo: Proibir, cortar, tentar apagar e esquecer, e sempre há o outro lado, que se defende do corte, do apagão e do esquecimento de qualquer ideia, mesmo que seja o lado errado. Penso que precisamos, normativamente, começar a construir, escrever mais, super popular o grande cenário do Hiper Pós-Modernismo. O que existe, tanto preconceito quanto minorias, existe. Precisamos aprender a lidar com isso sem a necessidade de matar ou calar ninguém.

** Racistas, homofobicos, misóginos e anti-semitas de plantão, enrustidos ou fora do armário: Discriminar o ódio que vocês sentem não constitui discriminação. Vocês serão esmagados pelo povo, um dia, isso é fato. A roda da vida sempre gira. Violência contra vocês é reação a ação que vocês geram, não culpem sintomas que vocês criaram. Podem criar seus exércitos e levantar suas armas. Não sejam covardes. No nosso grupo, nosso acróstico, só cabe quem deixa o ódio na porta, entretanto. Boa sorte quando não houver ninguém mais ao lado de vocês.

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