Nosso relacionamento com o mundo mudou, possivelmente, do nada ao tudo, do zero ao um, com o surgimento da Internet e o nascimento das redes sociais virtuais. Nem todos estamos expostos, por opção ou falta dela, aos avanços tecnológicos dos países com maior fluxo de capital interno, mas cada vez mais de nós estamos expostos, querendo ou não, às mudanças que ocorreram, ocorrem e ainda ocorrerão no amplo espaço eletrônico. Portanto, o debate cibernético faz-se essencial para a formação crítica de cidadãos em um mundo Super-Pós-Moderno.

Unilateral - Beti Timm

A liberdade de expressão tem muitos defeitos, como tudo na natureza, especialmente o que inventamos. Poder falar tudo, sempre, significa muitas vezes que falaremos coisas que não devemos, em tempos que não devemos, ao largo de nossas vidas. Algumas dessas “gafes” são esquecidas por excesso, e pela nebulosidade temporal, e outras permanecem para sempre, quase estáticas, nos envergonhando. Em um mundo virtual de ultra-exposição pessoal, mesmo as gafes que deveriam ser esquecidas serão sempre potencialmente relembradas.

Nota: A liberdade está aí, e como diz Tiago Xavier, não tem meio termo, como gravidez, como morte, e como impostos cá na Gringolândia. Praticamente todas as restrições mantém os mesmos defeitos da liberdade de expressão, e ainda criam outros. Portanto, mantemos a filosofia de que seja necessário, “para sanar os defeitos da liberdade de expressão, mais liberdade de expressão”, como diria Abraham Lincoln.

Ainda assim,  vingam as consequências da má comunicação, o que, em um mundo democrático e civilizado, deveria apenas traduzir-se em declínio de mercado, em alguns casos até perda de emprego, e certa ridicularização social. Sejam famosos ou menos famosos, facebookeiros e twitteiros de plantão hoje alcançam redes sociais maiores do que em qualquer outra época histórica. Não é complexo concluir que em mundos civilizados, agir de certo modo diante de tantas pessoas, tantos “estranhos”, pode sentenciar nossa “morte virtual”. Em casos extremos, até a morte real, mas nos abstemos de sensacionalismo.

A Electronic Frontier Foundation* vigia os abusos corporativos da privacidade pública, um aparente anátema, mas um termo que nossos perfis de Facebook** definiram. Apesar de só compartilharmos dados pessoais com quem quisermos, muitos deles ainda são usados por pessoas que desconhecemos com o simples propósito, no momento, de fazer-nos comprar mais. Em 2009, a EFF apurou as mudanças operacionais dos criadores e donos do mega sítio social, e concluiu que suas melhoras (na época) eram limitadas a outorgar o poder de escolha de compartilhamento da maioria de informações aos usuários. A organização criticou a “configuração recomendada” do sítio, mas descobriu também que alguns dados pessoais, como os grupos em que participamos, nossos interesses e nossas cidades são sempre compartilhados como “informação publicamente disponível”, o que facilita a encheção de paciência de companhias e corporações de todos os portes, propagando seus produtos dos modos mais criativos imagináveis. Em 2009, ao longo das mudanças positivas promovidas pelos administradores do grande sítio, algumas opções antes tidas por usuários começaram a deixar de existir, como a opção de proibir que desconhecidos saibam quantos amigos temos, e quem são. Para bloquear esses dados do público, é necessário fazer uma manobra que nem temos espaço para explicar aqui (sigam os links abaixo se quiserem saber mais), o que complica a situação para a maioria de nós, leigos cibernéticos.

Como a EFF, há dezenas de organizações fazendo o mesmo trabalho de apuração imediata das mudanças e armadilhas dos grandes sítios sociais. Em Junho de 2011, o aplicativo de “reconhecimento instantâneo de faces” (que constantemente requer que usuários decidam se querem rotular os usuários nas imagens e fotos postadas) tornou-se disponível mundialmente (em 2010 na América do Norte), informação divulgada pela Sophos***, e logo noticiada no The New York Times****. Cada vez mais aplicativos requerem nossa atenção diária, o que faz com que percamos a habilidade (por falta de tempo e até mesmo capacidade de prestar atenção em tanta coisa ao mesmo tempo) de discernir exatamente o que compartilhamos com o resto do planeta, e o que mantemos deveras privado. Se antigamente era só fechar a porta de casa, hoje precisamos tomar muito cuidado com o que queremos tornar público, e guardar o resto a dezoito chaves dentro de nós.

Agora à questão comportamental e ética, e aos pitacos:

Só tem perfil em Facebook e Twitter quem quer. Twitter é diferente do Facebook (veja o segundo asterisco) nesse sentido, porque menos informações precisam ser compartilhadas, e nosso perfil não se destaca tanto quanto nossas expressões imediatas em cento e quarenta caracteres. Só posta fotos no Facebook quem quer. Só adiciona interesses e páginas sociais quem quer. Só coloca informações pessoais de qualquer espécie quem quer. O que essas organizações não-governamentais recomendam e procuram sempre alertar é que o que compartilhamos é sempre público, e por mais que tenhamos controle sobre alguns dados privados, as ONGs nos pedem que tenhamos consciência de que o mundo cibernético não é, por natureza, privado.

A outra frente feita pelas organizações é que sempre saibamos, como usuários e consumidores dessa mídia viva, o que acontece nos bastidores de seus criadores e administradores. O ideal seria, nesse sentido, que a inclusão de educação midiática no Ensino Médio seja obrigatória (o que deveriam debater, ao invés de sugerirem mais religião em escolas de estado laico) e, em realidade, em qualquer ensino de qualquer país. Talvez nem todos precisem aprender a comunicar-se com as massas, mas todos precisamos, ao menos, aprender a consumir o que é comunicado, e assim o que devemos ou não comunicar para atingir propósitos específicos, ou evitar entrar em situações problemáticas indesejadas.

Nós, aqui no Suma, recomendamos o uso do direito da liberdade de expressão e nem sugerimos que saibamos todos o que comunicar ou não (porque não somos donos de verdades incomunicáveis), só sugerimos que saibamos o objetivo que queremos atingir quando queremos comunicar, seja qual seja a comunicação. No hiato do “sem objetivo” os “outros” tem controle, mas a responsabilidade nunca deixa de ser, justamente, nossa.

Recomendamos também que sempre exijamos, como consumidores e usuários de absolutamente qualquer produto, especialmente midiáticos, a melhor qualidade e liberdade de privacidade inerente, ao invés do contrário (ter que optar pela mesma conscientemente, e ainda fazer esforços ora desproporcionais para conquistá-la). Enfim, recomendamos que exijamos que a lógica corporativa seja seguida: Se há informações que empresas podem, por lei, esconder de seus consumidores, deve haver dados que consumidores podem, por lei, esconder de corporações.

RF

*EFF HomeArtigo EFF

**Creio que o Twitter expõe muito mais seus usuários do que o Facebook, mas expõe através de ideias expressadas em cento e quarenta caracteres, e é claro, serve como índice direto para o “pensamento” das pessoas (não só para ver seu lado externo, mas também testemunhar introspecções coletivas). O Facebook, entretanto, por possibilitar o compartilhamento concomitante de tantos dados pessoais, tem criado as maiores arapucas citadas no texto.

***Sophos – Artigo

****Artigo no The New York Times

Outros Links Pertinentes

Dot Rights

Secretaria do Comissário de Privacidade de Canadá
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