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Miscigenação

Palco do Live Aid – Evento que originou o Dia Mundial do Rock

O rock and roll foi o primeiro estilo musical, nos Estados Unidos, a unir os gostos das etnias adversas: a dominante ariana, branca, e a dominada afro-descendente, negra. Como o iconoclasta do rock, B.B. King, disse sobre o estilo guitarrístico da sensação nos anos cinquenta, o rock não foi necessariamente um estilo “novo”, mas sim uma mistura de uma dúzia de outros estilos, populares entre brancos ou negros, de modo a criar um pacote que fatalmente seduziu o imaginário popular. Em realidade, o rock verdadeiro é muito mais étnico do que branco, conforme disse B.B. King, sendo que os guitarristas do blues e do jazz já formulavam a mesma construção musical, com pequenas diferenças introduzidas posteriormente.

B.B. King

Há vários bons motivos para a ocorrência, e entre eles:

– A população adolescente e jovem-adulta dos Estados Unidos explodiu após a vitória da Segunda Guerra Mundial.

– O público jovem não tinha muitas opções artísticas, visto que as grandes gravadoras investiam no tin-pan alley, a música vagarosa ou animada (o ritmo animado contribuiu ao ritmo do rock), altamente melosa, romântica, de temática inocente e nada polêmica, geralmente fabricadas pelas gravadoras, que escreviam a música, compunham a obra e a gravavam. Os cantores, na época, só tinham e doavam a voz. É fácil, portanto, assumir que a geração, que criaria a maior distância das gerações passadas, enjoaria-se facilmente do tin-pan alley.

– Na Segunda Guerra Mundial o exército dos Estados Unidos, pela primeira vez, dessegregou seus batalhões. Os jovens convocados ao serviço obrigatório eram também obrigados, portanto, a compartilhar espaço com outros jovens de diversas etnias. A música ouvida por uns começou a ser absorvida por outros.

– Cresciam estilos ligados ao interior dos Estados Unidos (country, folk e bluegrass, entre outros), o que aumentava a disposição de gravadoras independentes de vender músicas consideradas então caipiras. Isto, em si, aumentou a potencialidade de investir em estilos então considerados étnicos, como o Jazz, o Blues e o Swing.

– Apesar de ainda faltar uma década para os verdadeiros anos de lutas massivas pelos direitos civis das minorias dominadas, os murmúrios começariam ainda nos segregados anos cinquenta. A revolução social teve o rock como trilha sonora.

Rei do Rock?

Elvis Presley

É fato que Elvis Presley ganhou o títulode Rei do Rock por ser branco e contar com apoios comerciais certos. Particularmente, se precisássemos de título, Chuck Berry provavelmente levaria o caneco. Conflitos raciais existem e existiam mais no início da era do rock (ainda vigente), mas este é, por definição, consumível pelas duas raças.

Chuck Berry

Mistura e Expanção de Estilos

O rock nunca foi o estilo necessariamente mais popular de suas primeiras e recentes gerações. Seu primeiro sub-gênero, o rockabilly (rock caipira), que se concentrava nos estilos caipiras mencionados acima, “criou” a popularidade do rock com talentos como Roy Orbison, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis, mas a música popular ainda corria paralela. No fim dos anos cinquenta e início dos sessenta, o rock também acabou popularizado. Icônicos dessa época de industrialização do estilo são Chubby Checker, com “Twist and Shout” e Eddie Cochran, com “C’mon Everybody”, novamente voltando a temas menos polêmicos e agressivos aos valores conservadores, em parte. Quando o rock se concentrava em festejar, exclusivamente, o capital ganhava com o consumo do festejo. Não podia era se aprofundar em outros temas.

O fato é que o rock não foi um só estilo. Tornou-se vários. Se há alguma regra musical para definir o rock e distingui-lo de outros estilos posteriores, ela não foi estabelecida com unanimidade. A partir do momento que o DJ Alan Freed decidiu nomear o rock de rock, uma explosão de sub-gêneros começaria a ressurgir. Pode-se discutir o fato, mas muitos acreditam que não haveria música industrial, techno ou alternativa se não fosse o rock. Obviamente, outros estilos como o punk e o heavy-metal são sub-gêneros diretos do rock.

Capa do Musical Tommy - The Who

Com os Beatles, o experimentalismo musical tornou-se popular, ou seja, vendável às massas. Bandas como The Who e The Kinks revolucionaram o rock com seus musicais e a extenção das misturas de diferentes influências, e até a tentativa constante de criar novos sons. Hoje em dia é raríssimo ouvir algo realmente “novo”. Dizem que, com o rock, tudo já foi tentado ao menos uma vez.

Capa do Album Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Os Beatles

Mistura do Profano e o Sagrado

Com o surgimento do Rock Gospel atual, muitos acreditam que houve uma espécie de “invasão” da religião organizada no estilo normalmente associado à rebelia contra o poder institucionalizado e os valores judeo-cristãos. Se existe, contudo, tal invasão, é apenas justa. O Gospel cantado nas igrejas dos Estados Unidos influenciou muito os grandes vocalistas do rock and roll, como Janis Joplin. Essa nuance musical, diretamente relacionada ao cristianismo, capitalizava em um ingrediente essencial, a “alma”, ou para os céticos, a profundidade psicológica tanto na entonação musical quanto nos temas abordados, mais introspectivos.

Janis Joplin

A palavra “rock”, em si, tem ambos significados antagônicos. “Rocking” é o movimento, físico, de balançar-se, o que constitui emular o movimento da chama da vela, associado à espiritualidade – movimento feito em tempo de preces e estudos espirituais (o “rocking” espiritual também descende diretamente dos ritos praticados pelos ex-escravos negros e as gerações segregadas, como o Blues [“Azuis”, expressão que vem de “demônios azuis”, ou “demônios do agouro”, nascidos nas lendas pagãs e crenças africanas], que também descende do ritualismo profundo de negros escravos, depois livres e segregados). Ao mesmo tempo, “rocking” também simula o festejar, dançar e, finalmente, ter relações sexuais. Do mesmo modo que o Gospel influenciou o estilo, o palavreado profano e o tratamento de temas explícitos o definiu. Tratando de desejos sexuais, prostituição, depressão, abusos sexuais e psicológicos, drogas e outros temas “cabeludos”, os iconoclastas do rock and roll transformaram a busca espiritual do “rocking” na busca pela identidade física das novas gerações.

Liberdade de Expressão e Rompimento de Parâmetros

Beatles "Comportados" - Antes

Beatles em "Let it Be" - Depois

 

Hoje em dia não há nada que possa ser dito por algum artista que já não tenha sido dito e feito no passado. Desde os Beatles, que se transformaram diante de seu público, dos “meninos” de Liverpool, nos “arruaceiros” de Liverpool, a Sid Vicious e sua influência no movimento punk rock dos anos setenta, a liberdade de expressão verbal foi testada com maior agressividade e ênfase do que nos estilos passados. Como expressão (comportamento, vestimentas, atitude etc) das novas gerações, o rock desafiou todos os parâmetros de seus antepassados musicais. O cabelo comprido em homens voltou à voga pela influência direta dos Beatles (que foram influenciados, por sua vez, na jornada espiritual que fizeram à Ásia – à Índia em particular), e os brincos masculinos, o cabelo curto e raspado nas mulheres, a moda altamente artística da geração punk, o modo de dançar sem estética específica (punk) ou com uma estética específica (swing), todos são baseados diretamente no comportamento estabelecido a partir do rock and roll.

Sid Vicious

As maiores gravadoras, grupos conservadores políticos e sociais e movimentos evangélicos e católicos se contrapuseram ao rock and roll e procuraram substituí-lo com o rock-pop, como mencionado acima. No entanto, uma vez estando o coelho fora da cartola e, toda vez que a expressão era censurada ou diluída pela cultura popular, uma contra-cultura ressurgia, ainda mais polêmica, ainda menos ligada à censura, e procurando romper ainda mais barreiras.

O Rock fala para mais pessoas

Ainda que o rock seja um termo “guarda-chuva” para todos os seus sub-gêneros, é raro alguém gostar de rockabilly e heavy-metal, ou qualquer outro metal e folk rock, por exemplo, ao mesmo tempo. Cada nicho do rock conquistou um nicho social particular e, nesse sentido, o rock não úne mais do que outros movimentos musicais. No entanto, como “rock” entende-se tudo o que se desenvolveu da miscigenação, mistura do profano e do sagrado, mistura e experimentalismo musical e rompimento de normas comportamentais antepassadas, ou seja, o rock pode até ser seletivo e também segregar com seus sub-gêneros, mas como gênero mãe, fala para praticamente todo mundo.

Enfim, Rock and Roll porque hoje em dia quase tudo é rock. Se ouvimos algo, se falamos ou pensamos de algum modo, há grandes chances de que tenhamos sido influenciados em algum ou outro nível pelo desenvolvimento desse estilo. Talvez não seja, para os eruditos, a forma musical mais complexa ou refinada. Certamente é, contudo, a contra-cultura que mais uniu outras culturas e estilos, que mais usou deles e os popularizou e, finalmente, que mais desafiou as normas sociais ao ponto de surgirem, como oposição, bandas de Rock Gospel, por exemplo, procurando capitalizar em um gosto ao qual mesmo os mais conservadores às vezes aderem.

Neste Dia Mundial do Rock, conte para nós de qual rock você mais gosta, e por que.

RF

Fonte Principal: Rock and Roll – Its History and Stylistic Development – Jon Stuessy – Quinta Edição.

História do Dia Mundial do Rock

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