Em meu tratado particular, os capítulos sempre foram divididos em países, cidades, estados, vilas, cidadelas e mazelas diferentes. Vidas novas, sempre, em novos e velhos lugares, geralmente antes novos, logo velhos. Em meus trinta-e-um curtos anos, passei quatro em Israel; doze e meio em São Paulo, dos quais três estudei em Petrópolis, RJ; depois sete meses em Nova York, mais uns nove meses em Miami, um ano e meio em Israel, mais oito meses em Miami e de volta a mais dois anos de Israel, para logo permanecer mais um ano entre Miami, Los Angeles e Nova York antes de me mudar a São Paulo por mais dois anos e, finalmente, culminar em Miami, minha casa “permanente” pelos últimos seis anos e sete meses. Se pensam fazer cálculos, nem pensem. Comendo e vomitando meses aqui e ali, até devo ter adquirido alguns anos a mais. O fato é que, se chego a viver noventa anos, mais de um terço de minha vida passou-se sem raízes ou sentimentos nacionalistas por lugar algum.

Já diria Friedrich Nietzsche que a história sempre se repete. Em menos de mês, Miami, casa de minha família amada, inclusive a recém nascida, deixará de ser meu lar por tempo ainda desconhecido. Algum pedaço do Brasil, distante, remoto e quase inacessível, será meu novo lar. Realmente, não sei por quanto tempo.

Enxergar o Brasil com olhos de estrangeiro é de fato desagradável e potencialmente místico. Voltarei, após hiato de sete anos, a vivenciá-lo como brasileiro, enraizado à terra, pertencente às classes e às massas brasileiras, comendo e consumindo produtos brasileiros – ou importados, mas isso não é novidade em lugar algum – vivenciando as terras bucólicas e modernistas do país que talvez mais me fascine, mais até do que Israel, minha terra de nascença.

Quem acompanha minha jornada bloguística sabe o quanto o Brasil me é importante. Quando anunciei aos amigos e colegas de trabalho aqui que me mudaria ao sul do hemisfério, não pareceram surpresos:
“Já sabia,” disseram todos como um, “que você voltaria cedo ou tarde. Você ama aquele lugar.”

Engraçada e irônica a percepção de que eu ame o Brasil… Para muitos brasileiros, inclusive pessoas queridas por mim, o estrangeiro ou o brasileiro morando no exterior que critica o Brasil parece fazê-lo por sempre ter a escolha – ou vivenciar a realidade – de desertar o país e experimentar outras nações. Não deixa de ser verdadeira a afirmação. Porém, criticar um estado, especialmente para pessoas que, como eu, vivem de críticas e análises altamente masturbatórias, é natural e, quanto mais nos importamos por ele, as críticas tornam-se ainda mais comuns. É fato que a importância sentimental que dou ao Brasil é maior do que a que atribúo aos Estados Unidos. É fato que ainda sinto receios pela civilização brasileira também, e nisso jamais serei hipócrita.

Confesso que os objetivos ainda são menos claros do que poderiam ser. Os objetivos, aliás, em essência, estão claros, mas não são muito diferentes dos quais outros procuram, a maioria de nós. Todos procuramos felicidade, sustentabilidade além de mera sobrevivência, crédito e orgulho – pessoal e alheio – por nossos bons feitos, e amor, acredito, ainda está no topo da lista da maioria. Depois de seis anos e sete meses de Miami; depois de me formar – atrasado – academicamente; depois de me estabelecer financeiramente, ainda que sem obter a desejada satisfação; o motivo de procurar o que todos procuramos no Brasil é ainda misterioso, apesar das suspeitas.

Tenho medo de algumas situações mais comuns no Brasil do que aqui.

Critico algumas coisas que para mim são básicas, mesmo não negando que todo país que chamei de casa tem seus podres, e que os do Brasil nem são necessariamente mais fétidos.

O que sei é que amo o Brasil. Amo sua gente. Amo a intensidade do pensamento erótico, por mais que odeie a intensidade do pensamento tanático. Acredito que o Brasil tenha, sempre teve e sempre terá, a potência de ser a nação mais agradável – se não mais poderosa – do planeta. Em outras palavras, por mais clichê que isso possa parecer, procuro o Brasil pelo brasileiro, porque sempre fiz amizades com brasileiros, porque quase todos meus amores passados foram brasileiras, e porque não consigo me ver escrevendo em Inglês para o resto da vida – e para mim o idioma e a escrita são deuses.

Ao menos não agora…

Neste meu Hiato, o Suma terá mais uma “palavra da vez”, mas logo tudo pode mudar novamente, como sempre, como Nietzsche gosta.

Abráx em contagem regressiva,
RF

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