Cultura Americana

Começa aqui uma série sobre a cultura americana. O texto não é baseado em pesquisas e ditos de espertos no assunto. Com uma carga de dez anos de Estados Unidos em três estados diferentes, formado em faculdade estadunidense, pagando impostos estadunidenses, obedecendo e praticando a lei estadunidense, surfando a economia estadunidense, trabalhando com estadunidenses, acredito poder discursar sobre o assunto sem precisar de respaldos acadêmicos.

Há, na cultura dos Estados Unidos, alguns quesitos importantes para o aprendizado mais “correto e humano” sobre a grande hegemonia. Para mim, são dois os motivos principais da necessidade da série:

1 – Escrevendo em Português, apenas um de meus blogs dedicou-se a “cobrir” as eleições de 2008, nas quais Barack Obama consagrou-se presidente (porteiro) do país. A oportunidade de fazer uma série específica sobre o comportamento e a mentalidade vigentes no Império não podia, entretanto, perder-se, e aqui a concretizo.

2 – O Império é Império, isso é fato. O que é menos claro para quem vê de fora é o pensamento das massas, mal expressado pelo soft power ideológico e enlatado para vendas exteriores, e perdido na ideologia contraposta do nacionalismo e intuito à soberania de qualquer outro estado. Esclarecer algumas ideias parece essencial, mesmo que seja um esclarecimento pessoal.

O primeiro texto falará sobre a responsabilidade civil e como ela é percebida em nuances locais. Ainda é escrito das entranhas tropicais da Grande Hegemonia, da área da grande Miami, mas os próximos textos serão escritos em terras brasileiras. Espero que façam da série algum proveito.

Responsabilidade Civil

Parece-me essencial falar sobre a noção de responsabilidade civil mantida no país.

Todos sabem, assumo, que há dois principais partidos políticos nos Estados Unidos, os Democratas (liberais sociais e conservadores econômicos) e Republicanos (conservadores, sócio-moralistas e liberais econômicos). A divisão social através da Partidocracia que rege as nações domésticas é real, mesmo com a presença de outros partidos de menor porte, e o terceiro partido, Libertário, cujos constituintes seguem categorizados em estatísticas eleitorais como independentes. Isto não significa, contudo, que a maior parte da sociedade é necessariamente afiliada a um dos dois (ou três) partidos ideologicamente.

Enquanto a divisão existe, há determinados movimentos ideológicos regorgitados pelas massas e vendidos através da mídia em seus canais parciais a uma filosofia (todas as filosofias usadas, como em qualquer outro país, são etnocêntricas). Vale citar o relacionamento entre impostos e a sociedade civil:

Quem se identifica com os republicanos (e libertários) acredita, massivamente, que impostos são negativos ao crescimento individual, mesmo quando aplicados ao percentual mais abastado do país e grandes corporações. A filosofia despejada pela garganta do eleitorado usada para justificar a vilificação dos impostos nos é familiar: The trickle down philosophy, usada por Ronald Reagan (com certa moderação, porque na era Reagan os impostos não eram menores, mas sim maiores, do que atualmente) justificava o tratamento exclusivista às grandes empresas através de uma fórmula matemática que verificou-se falida após a crise financeira de 2008. Pela fórmula, quanto mais ganham os grandes, mais empregos geram, assim compartilhando sua riqueza com os demais segmentos sociais. Quem se idenfitica com os democratas também entende que impostos são negativos, mas há maiores concessões, dependendo do sub-segmento ideológico. No geral, democratas acreditam que quanto mais ganhamos, mais impostos devemos pagar (sistema tributário progressivo).

Quem se identifica com republicanos (não libertários) também tem em sua agenda determinados valores morais, geralmente embasados em valores cristãos-protestantes e judaicos, necessários para estruturar uma sociedade civil julgada eficiente. Em determinados pontos, muito do que foi conquistado nos anos de guerras pelos direitos civis (fim dos sessenta e início dos setenta) parece ter sua destruição reivindicada. Os chamados “conservadores sociais” clamam contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a favor do ensino do Design Inteligente ao lado do Evolucionismo nas escolas públicas, e contra as quotas raciais e de gênero, entre outros assuntos de cunho exclusivamente moral, e sob prisma exclusivamente não laico. Quem se identifica com os democratas (e libertários) acredita que assuntos de cunho privado não afetam a sociedade. Libertários, contudo, e muitos democratas conservadores, são desfavoráveis a quotas raciais e de gênero, o que será elaborado no “anti-coitadismo” abaixo.

Quem se identifica com republicanos (não libertários) geralmente acredita que qualquer atitude governamental relacionada às forças armadas do país seja lei divina. Portanto, mesmo desconhecendo os detalhes do procedimento de George W. Bush e seu Congresso, grande parte dos republicanos e conservadores apoiaram a guerra, todas as guerras, enquanto seus projetores eram republicanos. Anos passados, o país imerso em uma dívida da qual pode confessar-se caloteiro internacional, e as guerras parecem cada vez mais fúteis. Ainda assim, apenas libertários e independentes apelam pela marca registrada da retirada das tropas do Iraque e Afeganistão por inteiro, enquanto conservadores mais estridentes apoiarão sempre qualquer tema que envolva as forças armadas. “Nenhuma guerra”, pensam, “ é em vão”.

Quem se identifica com democratas, especialmente os entitutalados progressistas-liberais, jamais concordou e jamais concordará com a natureza das guerras vigentes. Nesse sentido, a divisão intra-partidária dos democratas só diverge quando parte segue uma filosofia internacionalista popular, hoje em voga no neoconservadorismo, a filosofia de que a propagação da democracia através da derrubada de ditadores seja benéfica para a paz mundial. Ainda assim, sem ameaça iminente, é complicado que democratas majoritariamente concordem com as guerras nas quais os Estados Unidos estão engajados, e nas bases militares mantidas em outros países, inclusive a Colômbia.

Além do Partidarismo

Há, entretanto, alguns valores de responsabilidade civil que todo estadunidense tem em comum, universalmente aceitos, admirados e rebuscados por muitos imigrantes que procuram o país.

Nesse sentido, as divergências partidárias só exploram diferentes faces do dilema. Para republicanos e libertários, qualquer espécie de carga tributária progressiva (paga mais quem tem mais, menos quem tem menos) parece anti-constitucional. Qualquer espécie de regulamentação pode ser considerada restritiva à liberdade individual, mesmo sendo a liberdade das grandes corporações. Isso, é claro, simplificando o tema e não somando outras variações de cunho exclusivamente econômico. Do outro lado da balança, democratas acreditam que a regulamentação eficiente de grandes conglomerados e instituições justamente policia a liberdade, do mesmo modo que tributos progressivos. Ainda assim, todos acreditam na liberdade de agir, investir, criar e construir civil e economicamente tudo o que lhes der nas telhas, e todos acreditam ser isso uma responsabilidade civil.

Por mais que progressistas-liberais sejam a favor de ajudar as massas prejudicadas, vinga nos Estados Unidos um “anti-coitadismo” clássico de culturas patriarcais. Ninguém é, basicamente, coitado, e todos são donos de seus destinos. Divergem politicamente as classes que acreditam que os mais prejudicados sejam o problema da sociedade, e que merecem, portanto, seu auxílio estrutural. Republicanos e libertários não acreditam nesse coletivismo, e ponto final.

A responsabilidade civil, contudo, existe e é enraizada na mente do estadunidense comum. Obedecer a constituição é algo inculcado na mente do cidadão local. Pagar impostos, quando requeridos, é considerado ato patriótico, e deixar de pagá-los, independente de punição, é considerado traição à pátria.

Nesses tempos de diferenças extremas entre os partidos, há uma parcela da população, os tea-partiers, que duvidam da integridade do presidente e dos representantes democratas. Isto, é claro, após oito anos de ataques similares vindo da oposição democrata contra a administração de Bush. De modo geral, contudo, os representantes políticos, o processo eleitoral e a visão de democracia são mais sagradas do que simples. É possível argumentar que o processo eleitoral representativo é menos democrático do que o direto. Ainda assim, não houve, na história do país após a Guerra Civil entre as confederações do sul e do norte, nenhuma revolução militar ou golpe de estado. Apesar da Operação Condor e de tantas alianças com governos anti-democráticos e em prol de governos totalitários anti-comunistas, dentro do país todas as reformas que ocorreram foram possíveis justamente pelo sistema, que mesmo colossal, e mesmo que aprisione segmentos da população, ainda permite reformas sociais.

Como acima especificado, neoconservadores e parte dos democratas acreditam na existência de “guerras benéficas”, e que os Estados Unidos tem a responsabilidade de propagá-las em nome da paz mundial.

Há, deveras, muitos avanços que parecem sempre à beira de retrocessos. É importante salientar, contudo, que a responsabilidade civil e a educação sempre criam segmentos, nem que ínfimos, de pessoas preocupadas em lutar pelos seus direitos. Talvez os mais abusados nos Estados Unidos ainda sejam seus índios, como, acredito, em grande parte dos países colonizados. Ainda assim, se índios conseguem, vez ou outra, vencer em corte de lei, é melhor do que nunca, como na maioria dos demais países, mesmo os desenvolvidos.

As demais reformas, acredito, sempre precisam de alguma desobediência civil, o que não pode, contudo, ocorrer de modo violento. Como em qualquer país, a busca pela justiça e o sentimento de injustiça já geraram grandes conflitos sociais. Do mesmo modo, entretanto,o respeito à lei é grandioso não só pela consciência da constituição, mas porque ao menos parte do sistema penitenciário e da infra-estrutura policial do país ainda conta com maior e melhor eficiência do que as vigentes em países menos seguros.

Contudo, o que pode deveras ser chamado de consciência civil e responsabilidade coletiva nos Estados Unidos é justamente o grande desejo do individualismo, o que os torna mais respeitosos do individualismo alheio. Portanto, quando aqui dizem, “não se intrometam em minha vida,” mesmo que essa intromissão venha de intuitos sócio-políticos (como a restrição do casamento homossexual), a própria cultura americana providencia argumentos que obrigam a oposição a encontrar desculpas esfarrapadas, pesquisas falsas e argumentos sofistas para justificar a intromissão. Ou seja, basicamente, a expressão de qualquer ideia jamais pode ser considerada tão ofensiva quanto uma atitude física. Mas sobre liberdade de expressão teremos uma sessão a parte.

No próximo segmento começaremos a série sobre a cultura popular nos Estados Unidos.
Abráx,

RF

Anúncios