Era
o que ela
seguia:
o pêndulo
do relógio de pulso
à manga
de seu desafeto.
O tempo.

E seus movimentos,
no trajeto,
densos como o ambiente,
tensos.

Olhos dela
garimpavam
o tique nervoso
de seus tique-taques,
soturnos,
esvaziavam
o sauvignon
os garçóns,
ao som
da serena vazia,
nas taças
que apartavam
os descasados.

As horas
eram eras
para ela que,
para ele,
eram obsessão
de não estar
ali.
Os minutos
se ofereciam
a ela
tendenciosos,
com trezentas
intenções.
Pernas dela,
como algas marinhas,
buscavam o vão
e o chão
para cima e
para baixo e,
sem fim,
não alcançavam ele,
que mantinha pulso firme
fincado
à mesa.

Ela, nos olhos
do desamado,
do não perseguido,
do nem rebuscado,
via que,
apesar de todas
boas
intenções,
ele ainda
não entendia a ironia
do desencontro; ele
nem queria
querer
encontro.

Lábios dela bicavam
as bordas da copa,
celebrando uma vitória
que ela pensava
que ele pensava
ser iminente.
Ele não pensava.
Do grosso, róseo beiço
escorreu-lhe uma gota,
esvaiu-se ao queixo
e esgotou-se no tecido
pálido, esquálido,
da camisa social.

Ela pensava
ironias
da tinta
do tinto
em instante
estampada
nas fibras
de seu ser
sintético e,
para sempre,
ali.

Nunca soube ela
que seu desencontro
resumiu-se, a ele,
no tragicômico
marco d’um
sauvignon.
Ainda que,
a tinta
na tétrica
teia do tecido
social
estivesse, para sempre,
contaminada
pelo tinto
que ela ordenou.

RF

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