Beti Timm - Precision Blue

Em instantes, o relógio da estação, suas horas, seu tempo, se dissipam em paradoxos e paralelos enquanto eu, ora queria ser o tempo. Aqui, estático e saudoso antes de partir, queria ser a dimensão do entre-não-vir-e-vir, do já ter visto tudo marcado pelas demais dimensões que me preencheriam, de marcar-me, de marcar os outros, de não me machucar com as feridas cicatrizadas da sabedoria, da paciência, da impaciência, da displiscência, do não-saber ou não ter certeza, no escuro das desmedidas transições.

Tudo transita. À espera do metrô, eu também transito enquanto o trânsito embasbacado circula sobre o teto de minha plataforma. Esquisito dizer “minha”, como se tivesse posse dela.

É de todos, inclusive do sujeito que me pergunta: “Que horas são?”

Não eram nem dez da manhã, mas seu hálito apodrecia em álcool. Os olhos viam-se e enxergavam-se inchados e vermelhos de tanto abertos sem enxergar nada ou ninguém. Em instantes, o rugido do metrô anunciaria a chegada da partida, ainda à esquina do trilho dobrada em um túnel que desemboca.

“O problema somos nós, mas o inferno são os outros,” disse o sujeito, tentando desdobrar o paletó abarrotado dos restos dos tempos da noite anterior.

Pensei nos outros e no tempo. Nos outros e no resto do universo. Nos outros e em todos os restos, inclusive nas migalhas dos outros, de nós mesmos, no mingau de migalhas de tudo que pensa e sente e sonha e sofre. Dei-lhe as horas. Ele agradeceu como se lhe tivesse dado tempo.

Vou, mas provavelmente volto, ainda que vá sem volta. Geni guardará meu cantinho no motel. Iaron garantirá a cerveja. Mainha e painho sempre terão colo, comida e roupa lavada para mim. Sei que é só um salto, mais um salto, espero, o primeiro ou o segundo dos demais saltos que darei em vida. Gatos saltam o tempo todo. Talvez por isso chamamos os gatunos de gatunos. Quem não é gatuno tem mais medo de saltos do que o gato.

O sujeito parece rodopiar a estação perguntando as horas para todo mundo. É tão cedo, e essa avenida é tão pouco movimentada, que o movimento parece dificultar sua missão. Já repararam nas missões impossíveis às quais tão nos apegamos como bezerro em tetas? A bebedeira não explica esse comportamento. Somos cruéis com delírios alheios, e bastante tolerantes com os nossos. Penso que ele pensa mesmo que os instantes – os mesmos que contam regressivos para mim – lhe adentram a própria e pura vida quando sabe as horas.

Mal respondi e já caçou a atenção da senhora do rabo de cavalo grisalho e óculos fundo de garrafa, que não tinha as horas. Percebi também que, na presença de tantos metros quadrados recheados da ausência de outros futuros passageiros, até pensou em voltar para mim. Aí que percebi que não era doido o sujeito. Fosse doido, perguntaria de novo. Até hesitou, mas não o fez. Deu dois passos para trás e, logo às escadas, por onde desembarcavam de outros trens um grupo de estudantes universitários, viu tantos relógios que deleitou-se como em uma orgia de perguntas redundantes. Os estudantes, todos, responderam. Às vezes estranhos e estrangeiros de nossos mundos particulares nos auxiliam sem a menor relutância a alcançar sonhos impossíveis.

A cidade de meu destino é pequena. Odeio cidade pequena. Já é difícil perseverar quando há tanta loucura escondendo a nossa. O ditado da terra do caolho em terra de cegos é arisco. Já dizia painho, “em terra de cego, caolho é linchado”. Ainda assim, Juvenal disse que a orquestra sinfônica da cidade precisava de um violinista, e que eu me encaixaria na vaga. Seria a salvação da orquestra, disse Juvenal. Ninguém tocava como eu, dizia Juvenal, ao menos não que se prestasse a socorrer Socorro. Ainda assim… É tão longinqua, tão distante e sabe-se lá quanto tempo a orquestra sentirá minha necessidade, ou eu a necessidade dela, que o nó na garganta me sufoca até as fraldas. Quando eu voltar, Belinho, o filho da Geni, já recitará poesias pulando rampa em bicicleta, e Jairo, meu sobrinho, já estará repicando pela sala de estar dos voinhos.

O sujeito encontrou um outro homem de negócios. Digo “outro” porque o sujeito, com aquela gravata listrada folgada sobre a gola escancarada e seus pelos do peito jorrados, parecia ter negociado algo com alguém alguma hora da noite anterior. Sendo sexo, drogas, ou qualquer outro produto, seu terno, de calças manchadas de piche, lama e vergonha, exibia um homem vencido, mas que negociou sua derrota. Talvez por isso decidi chamá-lo. Assim que percebi, é claro, que ele já tinha horas demais em seu currículo. Talvez quisesse mesmo mais das minhas. Eu tinha muitas horas a doar.

(Continua)

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