Em minha carta de despedida de Miami, pensei necessárias as seguintes considerações. Alguns aprendizados de meus quase sete anos de Estados Unidos coincidiram muito mais com os meus anos vinte, suas convivências e minhas vivências nas convivências, do que apenas com os locais pelos quais transitei. A transição também é, portanto, algo em si, e não um meio a outro objetivo.

Se nem tudo compreende-se de minhas estas palavras, a culpa é somente do escritor, mas tenham paciência. Este é meu tratado momentaneamente final, e eis meus quesitos:

Ser Escritor
Dizia Barry Gordon, diretor da televisão estudantil do Miami Dade College, ao sul do Norte de Miami, que “o escritor é sempre o grande tagarela.”

Aprendi que o escritor realmente fala demais, e nem sempre tem o que falar, mas isso faz parte da intenção, quase inconsciente, de criar do muito que se fala algo que preste. O escritor é quase sempre tímido em relações tridimensionais, mas quando se solta, não para, às vezes ao ponto de incomodar.

Aprendi que esse incômodo é inevitável. O excesso de palavras deve ser domado ao ponto de utilizar-se sempre que necessário, e nunca que inoportuno.

Aprendi que uma das maiores dificuldades deste escritor é saber diferenciar entre as duas ocasiões.

Aprendi que escritores querem sempre atenção. Artistas, aliás, no geral, são assim. Dê atenção incondicional a um artista e você ganhará uma de três coisas: um eterno amigo, um enorme problema, ou ambos.

Amizade
Sempre há amigos. Eles existem. Os amigos, diz Luz Marina, minha contadora, não são os que te fazem rir com mentiras, e sim os que te fazem chorar com verdades. E olhe que ela cuida de meu dinheiro…

Amigos são aqueles que nos pontuam quando estamos despontuados, e despontuam quando pontuados demais. São aqueles, digamos, que nos fazem exclamações quando somos interrogações, e vírgulas quando somos tremas.

Aprendi que o verdadeiro amigo deixa-se permear por nós. Para o verdadeiro amigo, mentir para o amigo é mentir para si, e isso diz muito de nossa amizade.

Aprendi que é impossível um verdadeiro relacionamento se a mentira prevalece quando desce o anoitecer. Há de se haver honestidade em uma relação, mesmo que ambos sejam desonestos com o resto do mundo.

Aprendi que temos a obrigação moral de deixar-nos permear pelos outros.

Aprendi, contudo, que todo excesso é desgastante, e que mesmo boas e verdadeiras amizades podem, um dia, acabar. Ou seja, aprendi que às vezes nos intoxicamos com o que nos deixamos permear, e intoxicamos outros com nossos “eus”, o que não passa de efeito colateral.

Família
Aprendi que nenhuma relação é mais importante para a construção e desconstrução de nossa identidade e objetivos potencialmente traçados em nossas vidas do que nossa família. Sim, a mesma que às vezes nos desfaz, nos faz ao desfazer, e isso, aprendi, é inevitável, exceções raríssimas a parte. A negação dessa influência, aprendi, traz mais dor a si e aos próximos do que o contrário. Aprendi que a criança vitimada pode dormir mesmo no mais voraz promotor de justiça.

Aprendi que aquele que culpa seus pais pelo modelar direto ou indireto de sua vida, por causalidade ou emancipação, por toda a vida, perde grande parte dela ligado ao útero metafísico de seus pais.

Aprendi que quando entendemos que nossos pais e nossa família são tão humanos quanto nós, temos menos chances de desumanizar qualquer outra pessoa.

Aprendi que só é verdadeiramente solitário aquele que desumaniza.Quanto mais desumaniza, mais solitário é. Quando a mentira ou o silêncio prevalecem em um diálogo, este torna-se um monólogo. Quando monologamos, desumanizamos.

Animais
Aprendi que é essencial adotar e amar algum animal – e aqui vale a nota: Jamais compararei nem comentarei o amor à prole humana, às crianças que, apesar de não ter das minhas, amo incondicionalmente. São amores totalmente diferentes.

Sei de potenciais condições extremas que impossibilitem essa relação animal-humana (como alergias), mas precisamos ter mais contato, amor, vigência, paciência e irmandade com nossos co-existentes ambientais, justamente para melhor compreendermos nosso relacionamento com esse meio ambiente, e justamente para parar de olharmo-nos apenas uns aos outros, e logo nossos próprios umbigos, e parar de criar seres fictícios baseados em nossa aparência, já que tão parecidos somos igualmente a um cão, ou gato.

Aprendi que amar animais nos traz ternura, e que não importa o quão ranzinzas sejamos ou estejamos, precisamos sempre de ternura em nossas vidas. (Da-lhe Gisele Danon!)

Aprendi que não existe inocência animal. Exato, humano animal, esse é o ponto, e espero que compreendido esteja.

Aprendi que não sou nem quero ser vegetariano ou vegano, mas acredito que seja um estado mais evoluído do ser ao qual eu simplesmente não tenho a menor vontade de ascender no momento. Gosto de divulgar quem disso entende, e gosto que haja gente que o faça pelos motivos mais coincidentes com a criação da causa (saudações Deborah!). Acredito, no entanto, que nenhuma causa é pura, somente seu objetivo, e logo acredito que o objetivo do vegetarianismo seja puro. Acredito que, como muitos de meus pecados, quem sabe algum dia meu não vegetarianismo seja redimido com mudanças de pensamento e atitude.

Relações Humanas
O problema está em nós, mas o inferno são os outros. O que isso quer dizer, freudiano demais para discorrer tão livremente, é que nós temos a enorme capacidade da má compreensão. Como nos entendemos pouco e já temos por nós a dificuldade de decidir o que queremos, quem somos e quem não somos, o que dizer de nossa incompetência ao lidar com o próximo?

Aprendi que é essencial a cordialidade humana. Aprendi também que esta, sem humanizar o “outro”, de nada vale.

Aprendi que sem o “outro” somos nada, mas novamente, a cláusula de deixar-nos permear é também vital para que os outros se deixem permear por nós.

Nesse aprendizado, ainda há o aviso: Há desumanizadores. Tomemos cuidados gentis para que não sejamos desses. Seremos, inevitavelmente, desumanizados em algum período ou outro de nossas vidas. Tentemos nunca desumanizar.

Aprendi que o desequilibrio existe, infelizmente, apesar de todos os positivos. As relações humanas podem ser vividas de dois modos: Podemos viver em guerra, e sempre sofrer perdas (aceitáveis ou não), ou podemos viver em paz, e deixar que a natureza tome conta de quem vai, quem vem e quem se transforma. Acredito, contudo, que todos temos períodos de ambos estados ao longo de nossas vidas.

Ativismo
Há ativistas, e há bundões, e há intelectuais que, como parte de sua miséria pessoal, psíquica, geralmente intragável para os demais, reclamam. Os três são potencialmente gente boa, nada contra.

Aprendi que bundões tem direito de reclamar. Se não agem construtivamente pela causa, são só bundões, e não há nada de errado nisso, desde que a distinção seja feita. Ha atividades e causas bundonas também. Dessas tenho medo. (Quanto a ser quem sou, ainda não sei exatamente onde me enquadro).

Aprendi que ativistas que querem construir destruindo quem pensa diferente nada mais são do que quem pensa diferente e pensa construir um paradigma alternativo, destruindo o paradigma dos ativistas. Ou seja, uma total redundância sem sentido.

Aprendi que, se queremos algo, devemos sacrificar, verdadeiramente, para conquistá-lo. Se fazemos isso em níveis pessoais e queremos mudanças sociais, devemos fazer o mesmo em ambos âmbitos.

Aprendi que há uma linha tênue entre pensar a vida, e viver a vida.

Erros
O mesmo erro pode ser cometido duas vezes e a humanidade persistir, mas nenhum erro é cometido igualmente duas vezes.

Aprendi que sempre há o que aprender dos mesmos erros repetidos, tanto quanto há o que aprender dos erros diferentes.

Aprendi que, quanto mais sábio e maduro, menos erros são repetidos.

Verdades e Mentiras
A mentira sempre dói mais do que a verdade. A mentira sempre destrói. Mesmo as mentiras brancas poderiam, fossem verdades comunicadas a quem souber apreciá-las, servir grande propósito construtivo.

Exemplo: “Ah, que vestido lindo!” Sim, pode ser que a pessoa não tenha outro vestido, e que a verdade magoaria sem grandes necessidades, e que a verdade tenha tempo certo para ser comunicada para amenizar esta dor, mas a mentira fará que o vestido sempre seja visto, aos olhos da pessoa, como algo que potencialmente incomoda os demais. Isto é metafórico: Para mim, fodam-se os vestidos e as normas sociais de vestimentas. Para os outros, a política às vezes precisa ser jogada, e a verdade sempre constrói, mesmo em futilidades.

Aprendi que a mentira política faz parte, mas que é igualmente prejudicial à construção sistemática de uma sociedade saudável.

Aprendi que, ainda assim, em terra de mentirosos, há de se saber a quem nos abrimos, e a quem mentir para própria preservação da verdade, habilidade que eu ainda tenho muito a polir.

Aprendi que, ainda que ainda assim, só a verdade tem a chance de melhorar absolutamente todos os nossos problemas sociais.

Aprendi que a mentira é violenta, mesmo a menos violenta.

Aprendi que a verdade cura, mesmo a mais dolorosa.

Superstições, Religiões e Ideologias
O maior problema de toda superstição, religião e ideologia é a necessidade quase inerente da exclusão de outras verdades (paralelas, já que “verdades comunicadas tornam-se opiniões”*), e logo a justa causa quase sempre encontrada para alguma espécie, nem que mínima, de intolerância. Intolerâncias a parte, toda ideia de como “as coisas devem ser”, ou tudo o que apazigua nossa mente do descontrole fatal que temos do universo, tem sua função em nossa vida.

Às vezes, por bloqueios mentais e a mera complexidade de nossos seres, impedimo-nos de nossas verdades, nossa segurança e nossas certezas de nós mesmos. Inconscientemente, criamos medos de impossibilidades pelo medo de encararmos as verdadeiras possibilidades. Por isso criamos ideias, heróis, superstições, pertencemos a religiões (além do fator “identidade”) e grupos ideológicos.

Há anedotas na vida de qualquer cético que parecem desafiar a lógica. Não há nada de errado nisso. A lógica, aprendi, é que nós procuramos no universo o diálogo que não conseguimos, tantas vezes, ter com nós mesmos. Portanto, é possível encontrar respostas profundas até mesmo em Papai Noel.

Humor
Não há qualidade, no universo, melhor, mais complexa e mais elevada do que o humor.

Tempo
Existe tempo perdido. O que não existe é uma história não escrita pelo passar de qualquer tempo. Logo, existe tempos perdidos, mas também histórias sempre sendo escritas.

Aprendi que podemos usar o tempo vago, às vezes, para ler, reler, ou queimar as histórias vividas em tempos perdidos.
Aprendi que quem se concentra na matemática do tempo perdido, perde mais tempo do que os demais.

Enfim
Enfim, foram quase sete anos, e cheguei e passei dos anos trinta. Como disse nas postagens anteriores, o futuro é incerto. O que sei é que o resto das histórias quero contar por outros meios de comunicação que não necessariamente um blog. Não digo que não possa voltar. Por hora, no entanto, até mesmo para deixar que o tempo aja como deve agir, me despeço.

Me despeço dos meus anos vinte para sempre.

Me despeço, momentaneamente, dos Estados Unidos.

E me despeço, ao menos por hora, do Suma Irracional.

Abráx,
Roy Frenkiel

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