Nota do Supra Suma: Este texto delinea uma nova vertente do blog, que se dedicará, de agora em diante, a falar do Brasil. Falar não, criticá-lo. Quem não quer ler críticas à amada pátria, leia outra coisa. Abrax

 

Tiririca - Sera ele o heroi do Brasil?


Pelo título já é possível captar o clima do texto. O clima, que Friedrich Nietzsche adoraria, é de incerteza na mente deste escritor. Minhas primeiras impressões após pouco menos de um mês de São Paulo não são só pessimistas, mas também preocupantes porque o que é visto de bom, que não é pouco, é mal cultivado de todos os modos.  O trabalho de tentar desenrolar o emaranhado de realidades paralelas não é tarefa fácil. Atônito, fiquei quase um mês inativo justamente pelo pequeno estado de choque instalado.

Antes de mais nada, acredito que o diferencial de minha observação está não no fato de ter morado no exterior. Muitas vezes podemos tirar o brasileiro do Brasil, mas não o Brasil do brasileiro. Meu forte é justamente não ser brasileiro, e ao mesmo tempo não ser estadunidense nem israelense, já que em nenhum desses estados-nações sou geralmente aceito como um. Na condição de estrangeiro eterno, acredito que possúo maior objetividade quando afirmo o que afirmo. A maioria do que digo não só fez sentido a habitantes nativos desse grande país, mas as reclamações e centralmente o agouro fazem-se mais presentes na boca deles do que na minha.

Em primeiro lugar, nos outros dois países em que fiz casa e criei alguma raíz, está claro que sobra o que falta no Brasil em todos os setores. São dois os conceitos dos quais o estado e a população veem-se carentes, que superam a própria necessidade da educação.

O primeiro, o conceito de cidadania, ou o que chamo de conceito civilizatório. Não existe, no Brasil, um conceito bem formulado e elaborado de civilização. Na maioria dos lugares, na maioria dos setores, se não em todos, o que encontramos é a sobrevivência pura de todas as camadas sociais. Dos mais ricos aos mais pobres, o indivíduo e suas “massas privadas” (seus bandos, outro conceito a ser elaborado adiante) criam sistemas particulares de sobrevivência. Não existe uma convivência social propriamente dita, e sim contínua e contígua desconfiança social. Imaginemos, portanto, uma selva e todas as espécies animais que nela sobrevivem. Em bandos, os animais de um grupo (às vezes da mesma espécie) precisam travar disputas inacabáveis por território seguro, comida e acasalamento. Há sociedades animais que conseguem, por capacidade neuronal e por circunstâncias ambientais específicas, criar sistemas mais complexos e até mais pacíficos de convivência com o eco-sistema. Ainda assim, não podemos bem argumentar que esses animais criaram uma civilização, com um sistema aplicável não só aos membros de seu grupo, mas nem que seja a todos os membros de todos os grupos da mesma espécie. Acredito que o Brasil segue o mesmo traço evolutivo. Os mais fortes sobrevivem justamente por conseguirem vencer a disputa por território, comida e acasalamento, enquanto outros mais fortes conseguem construir sistemas particulares que os protegem, em cerco elétrico muitas vezes, do mundo selvagem externo. Isso, para mim, não constitui uma civilização, e sim um reino animal, onde os sobreviventes são ora aqueles que toleram mais a violência (não necessariamente os mais violentos, já que estes geralmente acabam perdendo a vida nas mãos da violência dos bandos rivais), a dor e incongruência de seu meio ambiente, ora aqueles que se isolam de tudo isso por meio de fluxo de capitais.

O segundo conceito inexistente é o da democracia. Lembro-me de uma discussão acirrada em uma comunidade virtual com simpático vascaíno, quando afirmei que “a democracia não começa nem termina nas eleições”. Parece que até mesmo essa pequena ideia, que realmente é tão genérica que pode ser facilmente justificada para qualquer verborragia, passou muito alto sobre sua cabeça. A democracia não começa nas eleições, como muitos países fazem para agradar os grandes poderes, especialmente os Estados Unidos, porque votar é um processo que requer, se não educação acadêmica, no mínimo uma noção de cidadania e mais mínimo ainda o conceito de civilização. Se eleitores não entendem a dinâmica do sistema social que populam e ajudam a perpetuar, e votam apenas de acordo com seus interesses particulares ou pelo grito de seus bandos,  não é de se espantar que o Brasil tenha dezenas de partidos políticos sem nenhum verve ideológico discernido, e que as eleições sempre terminem entre as elites, que conseguem, na maioria do país, “comprar” os votos de seus eleitores. Quantas vezes não ouvi eleitores dizendo que votariam em fulano ou cicrana pela “liberação dos bingos”, onde esses eram empregados, ou porque eram contra a privatização de certos setores pelos quais eram contratados pelo estado? Incontáveis… Por outro lado, intelectuais que geramente assúmem alguma postura ideológica clara, votam em base na ideologia e no quão bem esta possa se encaixar à realidade política do país. Assim, não é incomum que o velho petista siga sendo petista mesmo tendo o partido consumado-se na geleia sistemática dos anais governamentais. Não é raro encontrar tucanos acreditando piamente na eficiência de um governo que jamais se mostrou eficiente não pelo seu direitismo, mas porque jamais obedeceu a qualquer lógica civilizatória, portanto sempre baseou-se em “mearrumômetro”. Jamais houve, na história do país, um governo menos corrupto. Talvez houve governos menos eficientes em sua corrupção, e governos mais expostos pela oposição (no caso da oposição aos petistas, os donos da grande mídia), tão corrupta quanto.

No Brasil reina o conceito da lei de bando, comum entre os animais. A proximidade de algumas famílias, alguns bairros, e alguns torcedores de futebol permitem uma assimilação social minimazada, onde a “civilização” torna-se o bando. Onde mais comum isto do que entre torcedores de futebol? Afinal, os termos “república popular corinthiana” ou “nação rubro-negra” são comuns entre os torcedores, a mídia, e todos os outros segmentos sociais, que de modo direto ou indireto veem-se envolvidos. Essas nações são, obviamente, fragmentadas. Nem todos os torcedores corinthianos simpatizam-se entre si. As torcidas organizadas geralmente clamam mais poder do que fanáticos comuns, e em alguns casos vinculam-se descaradamente a grupos de crime “organizado”. Pasmo, testemunhei o conto verídico do rapaz espancado em estádio por ter os cadarços alvi-verdes, e não alvi-negros, mesmo sendo corinthiano filho de corinthiano. Portanto, os bandos se formam e se defendem como fazem estados com outros estados, a todos os custos, em grupo, por associações muitas vezes randômicas e herméticas. Em alguns casos, no modus sobrevivendi no qual vivem os brasileiros, os bandos promovem avanços sociais relativos. Na maioria deles, no entanto, o que se cria é uma mentalidade separatista constante. Grupos fascistas, perpetuados por seus bandos, encontram sempre justificativas fascistas, já que grupos formados por ativistas sociais ou por minorias em sociedades praticam um fascismo invertido. Em vias de regra, para as feministas todo homem é um potencial estuprador. Para os socialistas, todo capitalista é maldito. Para os ateus, todo crente é uma ameaça. O vice-versa subentende-se.

A mídia brasileira é extremamente infantilizada, como está o mediano brasileiro comum. Citar a última parte da frase anterior é essencial, porque por um lado (talvez o mais importante), a população consome e a mídia vende, ou seja, se consumisse outras coisas a mídia se adaptaria. Contudo, seria lógico que aqueles que atingiram o processo de seleção para atingir patamares de formadores de opinião, também atingiram, antes, algum nível educacional e de maturidade básicos. Não funciona assim no Brasil. A mídia é claramente desinformada. Comentaristas comentam o Brasil e o mundo, não com o etnocentrismo básico encontrado nas demais mídias internacionais, mas com visões estreitas e particulares ao movimento da indústria que os contrata, e com seus próprios preconceitos. Pior do que isso é a preguiça encontrada em quase todos os setores, privados e públicos, e que não deixa de atuar na mídia brasileira. Antes que me crucifiquem, não falo da visão de preguiça paternalista, atribuída sempre `as classes dominadas em quase toda civilização da história mundial.

Falo sobre uma preguiça lógica e justificável, já que tanto o governo brasileiro quanto empregadores em setores privados exigem muito mais de seus empregados do que se dispoem a remunerar. O governo cobra impostos absurdos, coíbe o uso de mercadorias estrangeiras de todos os tipos com seus impostos ainda mais absurdos, alimenta os órgãos podres de tão ineficientes em uma burocracia cíclica desesperadora, e não oferece praticamente nada em troca. Patrões exigem as mais longas horas, a mais alta dedicação e eficiência de seus empregados, mas não retribúem com benesses primárias e salários dignos. O que acontece é o verdadeiro impasse entre as massas trabalhistas e a elite. De um lado, a elite exige uma competência que não tem, e de outro, trabalhadores fazem questão de não tê-la, pois exigem que ela venha das elites. Não existe uma solução menor ao impasse do que a busca da competência concomitante das classes. Caso contrário, “dar um jeitinho”, “fazer nas coxas”, e ter preguiça de pesquisar (como faz a mídia) ou fazer um pouco além do que o trabalho naturalmente requer, sempre fará parte do pensamento de ambas as classes de funcionalismo capital.

Voltando à mídia, a preguiça da pesquisa é iminente. Um dos exemplos é como a maioria dos comentaristas, sejam esportivos, de economia ou entretenimento, tem uma ideia rasa sobre a crise econômica nos Estados Unidos (e no mundo), porque parecem torcer para que a situação econômica e social nos Estados Unidos lembre, nem que em resquícios, a situação de seu país. Um dos comentaristas esportivos disse, sem titubear, que “apesar da crise econômica os estadunidenses conseguiram voltar a conquistar medalhas” em uma categoria de atletismo. Como podem eles não saber o que uma crise econômica em um país como os Estados Unidos signifique é até compreensível. O que não entendo é como eles não conhecem a infra-estrutura desportiva do país mesmo após décadas de hegemonia competitiva. É como se a crise econômica, em suas mentes, signifique que as favelas começaram a tomar conta das cidades, e que todo centro atlético é usado como cracolândia. Talvez pensem que o mundo acabou para os Estados Unidos. Se torcem para que o país deixe de ser hegemonia em suas vidas, não entendem nem pelo que torcem.

O texto, como disse, seria e é longo. Desagradável até, imagino, para aqueles que ainda amam o Brasil. Eu, por exemplo, ainda o amo. Mas se antes tinha a ideia de que há soluções para essa bagunça, hoje duvido. Não da existência de medidas que solucionam esses problemas, mas da capacidade de um grupo de quase duzentos milhões de individuos, não separados por segmentos religiosos e cultos adversários, mas por bandos, randômicos e herméticos, de unir-se sob um único conceito civilizatório e sequer enxergar a necessidade de usar essas medidas. Quando falam sobre a educação, minha resposta parece nojenta, mas é sincera. Educar quem, se depois de educados nas instituições que ainda precisam ser construídas, voltam para a deseducação de suas casas?

Ainda falta, contudo, muito a dizer. Ainda não citei a surreal violência e a convivência passiva-agressiva da sociedade, que não só estimula a violência, mas a acolhe, fornecendo a meliantes o ambiente mais propício para criar vítimas. Sim, o brasileiro comum aceita bem o papel de vítima. Muito melhor, diga-se de passagem, do que os criticados judeus que supostamente (quem afirma isto ignorante é, ao extremo) não reagiram à SS na Segunda Guerra Mundial.

As coisas boas, sim, estão presentes em minha mente, mas ausentes aqui. O próximo texto será dedicado também a elas, e quem sabe aos poucos elaboramos os detalhes aqui traçados. Minha ideia ainda pode mudar. Duvido.

 

RF

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