Cresce o Crescido

Nossa Vida, Nossa Escolha

O país praticamente triplicou seu número de formandos em diplomacia, e seu número de diplomatas não só explodiu, mas a eficiência no Itamarati melhorou. Os Estados Unidos, em seus anais midiáticos e governamentais, trata o Brasil como um país de mercado fértil e de capacidade de participar no cenário internacional com certa agressividade. Mais do que isso, a hegemonia mundial começa a parcialmente depender da hegemonia no sul do continente.

O Brasil encontra-se em quinquagésimo-terceiro lugar em um ranking mundial de competitividade, o World Economic Forum, ou WEF, subindo cinco postos em relação a 2011. O Chile ainda está no topo dos países da América do Sul, em trégismo-primeiro lugar. A relação do Brasil perante o mundo ainda é preocupante se levarmos em conta sua capacidade econômica, mas o quadro é de parcial melhora.

A Embraer acaba de conquistar o ar com um jato movido a bio-combustível que pode ser extraído de componentes naturais abundantes, um longo passo para o avanço irrestrito dos combustiveis naturais e da independência do petróleo. No mesmo ramo da independência energética, há pouco tempo descobriu-se muito da matéria no pré-sal das Bacias dos Santos, Campos e Espírito Santo, algo que enaltece a posição do estado em um mundo cada vez mais inter-dependente.

Há uma tendência crescente da injeção de capital estrangeiro no país. Isto se deve, em grande parte, às manobras governamentais que impediram a marcha à desastrosa crise financeira/econômica que assola a Europa e os Estados Unidos. O Brasil é considerado, atualmente, um dos países do Sul Global de mercado mais competitivo (o segundo mais competitivo da América Latina). Com a abertura do mercado brasileiro, folgando algumas restrições e permitindo cada vez mais capital estrangeiro a competir no mercado interno, mais empregos serão gerados, e a competitividade aumentará, assim como a eficência do setor privado, que ver-se-á obrigado, não como antes, a satisfazer certas expectativas de consumidores. Certo? Nem tanto **.

 

Assimetria Informacional e Protecionismo

 

Nesse sentido teria motivos para ser otimista. Afinal, acreditaria que em breve as companhias provedoras de serviços telefônicos, internet a cabo ou banda larga, automóveis e esperançosamente eletricidade e gestação de infra-estrutura básica teriam de competir e melhorar preços e serviços*. Contudo, apesar de serviços de proteção a consumidores, o brasileiro comum parece não saber da total falta de necessidade de se pagar chamadas telefônicas pelo minuto ou pulso. Parece que ainda não sabe que a Internet pode ser mais rápida, mais eficiente, e que quando empresas prometem certo padrão tecnológico, devem cumprir no mínimo o prometido, e que podem prometer bem mais e a mais regiões e classes sociais do vasto país. Quanto a automóveis, parece normal ao brasileiro comprar um carro pelo preço de três em países de similar potencial mercadológico.

Sou menos otimista, portanto, por dois motivos:

Primeiro, porque a assimetria informacional é exuberante no estado. A globalização comunicativa (especialmente com a expansão da Internet) ajuda, em todos os países onde a comunicação livre é disseminada, a diminuir a assimetria, ou assim seria no Brasil também. No entanto, há uma frase que ouvi de meu mentor mor que resume o dilema da globalização comunicativa e o processo cultural brasileiro: “O Brasil chegou à era da informática antes de passar pela era da alfabetização.” Com 14 milhões de analfabetos constatados pela UNESCO em Março deste ano, o Brasil é o oitavo país no mundo no quesito. Quanto a consumidores de Internet, somos os quintos do mundo, com mais de setenta-e-três milhões de usuários acima dos dezesseis anos de idade. A desigualdade social está escancarada no aprofundamento desses dados, evidentemente.

Há outros fatores envolvendo a assimetria informacional. Para o consumo, tanto quanto para a corrupção, a assimetria é nociva. Basta ler o trecho a seguir, publicado no Observatório da Imprensa no dia 30 de Junho de 2011, para entender um dos fatores que levam à assimetria:

“Sociedade refletida na Lei

O cientista social argumentou que a pluralidade da sociedade brasileira, com inúmeras variações culturais e diferentes códigos de existência moral, não impede a existência de convergências e a universalização de algumas crenças e referências que podem, progressivamente, tornar-se consensuais. Uma das formas de se chegar a este ponto é a recepção de alguns ‘consensos morais’ por parte do Direito, pois este é afetado pela moralidade. O cientista social explicou que certas questões que são tidas como intoleráveis do ponto de vista moral, com alguma freqüência, acabam tendo amparo e acolhimento na dimensão legal do país, como a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Lessa destacou também a ‘rarefação’ da sociedade brasileira na direção de certas posturas diante de valores morais. ‘Isso tem a ver com a relevância que a imprensa pode ter neste processo. É evidente que a imprensa tem um papel importante, a capacidade que ela tem de levantamento, de apuração, mas devemos levar em conta o seguinte: temos muito pouca imprensa no país. Cidades importantes do Brasil estão reduzidas a um jornal com capacidade investigativa, que é o caso específico do Rio de Janeiro. O número de leitores de jornal no Brasil ainda é pequeno’, criticou o cientista social. Com a necessidade de estar atenta a diversas esferas da sociedade, a imprensa não tem capacidade para cobrir sistematicamente todos os casos de desvio de conduta. ‘Mesmo com a imprensa ativa, existe a certeza do ponto de vista do [malfeitor] de que em algum momento o tema vai esfriar, e outro ‘malfeitor’ vai ocupar o lugar no proscênio’.

Francisco Whitaker sublinhou que a imprensa é o elo entre políticos e funcionários públicos e a sociedade. ‘O grande drama nosso neste processo todo de improbidade, de corrupção, é que a sociedade em que vivemos é uma sociedade voltada toda ela para ganhar dinheiro’, lamentou. Muitos ingressam no governo com a perspectiva de prestar ou representar os cidadãos, enquanto grande parte busca o ‘tesouro público’. A imprensa, na avaliação de Whitaker, deveria chamar a atenção para a ‘cultura de corrupção’ que existe no Brasil.”

Meu segundo calo pessimista está na aparente tendência brasileira, vendo-se crescer, de acelerar o protecionismo de seu mercado. O incentivo da produção interna é, deveras, valioso. É um dilema econômico saber equilibrar o estímulo da produtividade interna e seu relacionamento com importações. A questão é: O Brasil tem tecnologia, infra-estrutura e conhecimento suficientes para criar produtos classicamente importados pelas classes mais abastadas, como computadores e eletrodomésticos? Além disso, a qualificação da indústria brasileira reflete a tendência de oferta e demanda do mercado brasileiro, portanto a relação de custo benefício vis-à-vis os preços e serviços oferecidos a consumidores? No momento não, segundo o próprio índice citado no início do texto, o WEF. É benéfico ao consumidor que a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, queira a todos os custos coibir a importação e estimular a produção interna? Temo que há um balanço mais justo a ser atingido.

Como vem reportando O Estado de São Paulo desde o dia 6 de Setembro:

“A presidente afirmou que seu governo não permitirá ‘ataques’ às indústrias e aos empregos do Brasil, nem vai deixar que artigos estrangeiros concorram ‘de forma desleal’ com os produtos nacionais.”

Quão leal pode ser a competição, se a qualidade dos produtos e gestação de serviços brasileira ainda tropeça nos estímulos proporcionados pela assimetria informacional? Quão leal pode ser a competição entre produtos de qualidades tão assimétricas?

Valores e Consumo

Uma das áreas que expõem mais a iminência da ausência da identidade civilizatória é quando compramos o mesmo leite, da mesma marca, com a mesma data de validade, mais caro em determinado local e muito mais barato em outro. É até lógico que comerciantes em pequenas e grandes empresas se aproveitem do status econômico de certa camada social para cobrar mais caro pelo mesmo produto. Isso acontece em todo o mundo, e segundo o economista Steven D. Levitt, autor do best-seller Freakonomics, tudo depende do estímulo do comerciante e sua percepção ao estímulo da clientela***. O problema é que há quem compre por valores absurdos, que não estão ausentes em outras sociedades, mas são proporcionalmente muito mais presentes na sociedade brasileira do que em sociedades consideradas desenvolvidas. Esses valores, majoritariamente, movem a economia brasileira.

Há quem se sujeite a pagar mais caro pelo leite, por biscoitos e quanto mais por roupas e outros acessórios, somente por consumirem em determinada loja, assim auto-classificando-se “finos”, de “alta sociedade”, por comprarem, justamente, em locais onde o resto da população, os bem menos abastados, jamais entraria à não ser à procura de sub-empregos. Isso faz com que o conceito de capitalismo no Brasil seja deturpado. Enquanto o capitalismo funciona melhor em regiões onde a concorrência obriga a melhoria de serviços e preços, no Brasil a lógica é falha pelo tipo de incentivos almejados, recalcados nos moldes da desigualdade social. Nesse sentido, a diminuição da desigualdade não sana, por si, a insanidade desse comportamento consumista, já que as classes que ascendem socialmente ainda se espelham nos mesmos valores das que já ocupam os ápices consumistas. Mesmo sendo menos eficientes e mais caros, as instituições comerciais se aproveitam dos valores brasileiros para deformar a lógica do consumo (uma tendência natural que só pode mudar se o comportamento de consumidores mudar em grande escala).

Esses valores sinalizam a falta de identidade social brasileira. Enquanto houver quem prefira pagar mais e sofrer pior serviço somente pelo nome da instituição ou sua localização em determinadas regiões entituladas “nobres”, não haverá capitalismo funcional no Brasil. Pior, não haverá a eficiência requerida do setor privado, que até se esforça um pouco para atender os mais ricos, mas que no geral cria uma infra-estrutura claquética.

Nesse quesito particular, lembremos da grande empresa Votorantim, de Antônio Ermírio de Moraes. Até o fim dos anos oitenta, a Votorantim mantinha monopóilio sobre o cimento, e só quem tinha bom capital podia construir com o material, já que a estipulação dos preços era altamente arbitrária. Com a quebra parcial do monópolio (com a filosofia de economia externa do presidente Fernando Collor******) e maior abertura do mercado para a concorrência estrangeira, a Votorantim não faliu, mas sofreu graves perdas e foi forçada a se modernizar drasticamente (não é de se espantar que a empresa envolveu-se diretamente nos escândalos corruptivos da curta presidência de Collor). Ou seja, é evidente que haja uma ilusão da oferta do produto pelas reações dos monopólios nacionais à entrada da concorrência internacional. Reagindo desmedidamente à “ameaça da concorrência”, a produção é nem sempre proporcional à demanda e, dependendo da região (como o Mato Grosso, que só recentemente contou com maior abertura do mercado para o cimento), o monopólio segue super-estipulando a oferta*******, e assim o preço do produto. Assim ocorre com a telefonia, a eletricidade, os automóveis e o acesso à Internet. Não há surpresas, nesse relance, que a infra-estrutura brasileira esteja, ainda, tão estagnada.

RF

*No momento a crise internacional e a instabilidade dos mercados devido às crises fiscais dos Estados Unidos e países europeus pode ser desfavorável principalmente ao setor automobilístico, mas a tendência é de maior abertura ao mercado internacional, de todos os modos.
**. (Aqui uma ressalva: É claro que o crescimento industrial em cidades menores tende a impedir a fonte de renda clássica da população local, e que em um sistema de total desregularização os riscos do crescimento são no mínimo comparáveis aos riscos da estagnação – não adianta só crescer, há de se crescer bem e visando, justamente, o resto da população envolvida, não só as elites).
*** Nos EUA é comum pagar mais caro pelo mesmo produto em lojas pequenas e centros comerciais de menor fluxo. Assim, empresas como o Wal-Mart levam a vantagem no consumo geral da população, mas no que diz respeito ao consumo comunitário, as lojas sobrevivem pela conveniência de sua proximidade, e cobram mais caro por ao menos dois motivos transparentes:
1 – Não competem bem com grandes empresas como o Wal-Mart em sua relação de lucro. Por pagarem mais caro pelo mesmo produto, revendem mais caro, e ainda assim lucram bem menos do que as grandes empresas.
2 – A própria conveniência da proximidade garante uma pequena vantagem competitiva em comunidades regionais. É o clássico exemplo do festeiro em meados de festa, que já comprou e consumiu duas dúzias de latas de cerveja do Wal-Mart, mas que, já embriagado e exausto, corre à loja da vizinhança para reabastecer o estoque da ocasião.

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