Não de hoje, mas talvez tenhamos chegado a uma era do pós-modernismo brasileiro que evoca nossos piores demônios em todas as áreas. O fantasma dos tempos opera no silêncio do necessário e excesso do desnecessário. Nós, como sempre, consumimos. Fazemos a roda girar. E, até quando, perguntar-nos-íamos, consumiremos? Quando é que o circo pega fogo?

A resposta para muitos chegou em protestos generalizados ao largo e longo do país gigante. Generalizados não só porque espalhados, mas também porque descentralizados, sem propostas concretas, só desenhando um espesso ar de descontentamento. “Dã”, dizem nossos reis e rainhas. Daí que nos mandam comer brioches.

Protestamos contra a corrupção, mas sejamos sinceros, nós somos os principais corruptos. A teoria é simples: O governo, por mais distante seja das massas, ainda faz parte da nata genealógica do país. Mesmo que sejam esses, em grande maioria, membros da alta classe ou de classe média alta, branca e falida, ainda faliram no país. Com as raras exceções de alguns representantes políticos imigrantes de primeira geração, ainda assim formados na escola popular da corrupção brasileira, os Sarneys e os Magalhães e os Cardosos e os Silvas ainda são puros pangarés da panela miscigenada de nosso Brasil. Carregam os sotaques sangrados da terra mais dócil já escretada pelo planeta.

Adoraríamos, obviamente, que se distanciassem de nós. Que nós pudessemos, sem sombras nem dúvidas, arcar com a responsabilidade de sermos outros que não eles e elas. Não admitimos que nós, que inventamos o jeitinho brasileiro e o fazer nas coxas, tenhamos e estejamos empenhados em uma filosofia similar à deles. Por favor, trabalhadores honestos, não se ofendam. A honestidade que vocês tem é real e exemplar, mas não é total. Querem bons exemplos?

Você conhece alguém que cortaria qualquer fila surgindo a oportunidade, que fumaria dentro do carro em um posto de gasolina, que dirigisse entre duas faixas e fizesse ultrapassagens perigosas ao bem estar do tráfego, que bebesse e depois dirigesse, que procurasse acelerar os processos burrocráticos da lei brasileira, ou evitá-los, que atirasse lixo à rua, que procurasse sempre se arrumar o mais rápido possível, que não tentasse usar máquinas, aparelhos ou qualquer outra infra-estrutura dos modos menos apropriados ao ponto de arriscar sem a menor culpa a própria segurança e à do vizinho, ou que tenha qualquer uma dessas qualidades, acompanhadas ou não pelas demais, ou todas? Ouso afirmar que, se você não se enquadra em nenhuma delas, você não é brasileiro comum.

Adianta, e muito, levantar cartazes e sair às ruas. Adianta ainda mais que saibamos pelo que queremos lutar. A América Latina (o mundo), historicamente (cada qual com sua história), pode ser resumida(o) a uma troca de ladrões de galinha megalomaníacos sistemática, quando ocorre. Assim pensando, os ditadores sempre foram, ao menos, os mais transparentes. Foram os únicos que não nos usaram tanto contra nós quanto quem tão facilmente nos manipula, por já estarmos programados à manipulação. E, nesse sentido, a marcha internacional dos noventa-e-nove por cento tem mais lógica do que escarnear a corrupção. Diz muito mais, e melhor, do que exigir que os outros não sejam corruptos, e que esse direito só nos pertença. Isto porque nós somos mesmo os noventa-e-nove por cento, e nós não estamos contra esse um, e sim queremos sê-lo, logo o conflito edipiano clássico. Queremos castrar o falo do lider para erguer o nosso. Perfeito.

Como na resolução edipiana, a resolução de nossos conflitos pode estar em não sentir-nos mais castrados, matarmos nosso programado pai, e conquistarmos a independência de nossos vícios corruptos Em princípio, precisamos amadurecer. Deixar a adolescência de lado, o desafio fronteiriço constante ao certo e errado, e ancorar a concepção das regras que foram feitas para que nos mantenhamos minimamente seguros, civilizados e humanos.

Não pode dirigir entre duas faixas e ultrapassar irregularmente, porque para isso foram feitas faixas e divisórias, para que não precisemos viver em constante risco nas estradas já belicosas de nosso país.

Acender cigarro em posto de gasolina pode causar uma explosão catastrófica. Seu prazer momentâneo ou o desgaste vagaroso de seus órgãos vale a insegurança dos demais?

Cortar fila, como cortar outros motoristas com veículos leves ou pesados, é um ato fascista. Jamais viveremos além do fascismo se não deixarmos nosso fascismo no divã psiquiátrico.

Acelerar ou evitar a burrocracia não nos permite a indignação com seus excessos escandalosos, e assim não nos permite saber contra o que estamos lutando, e qual alternativas temos para aumentar nossa eficiência.

Atirar lixo às ruas é um ato burro e suicída. A chuva, que é a benção dos agricultores, torna-se a maldição das cidades grandes e pequenas. A infra-estrutura (arquitetura é destino, diria meu mentor) colabora para os desastres anti-ecológicos, mas como melhoramos uma infra-estrutura contra a qual trabalhamos diariamente?

Se procuramos nos arrumar, i.e. votar somente em quem nos beneficia (quando sabemos por quem votar, sendo isso algo indiferente enquanto merecermos nossos representantes), viveremos em uma zona situada dentro de uma casa de horrores, Seremos os filhos enxutos daquela velha dos mil gatos que acumula lixo e nunca encontra o que precisa. Viveremos bem vestidos em um lixão.

Por fim, parem de arriscar a própria vida e a dos outros colocando rodas de bicicleta em pneu de carro e tirando leite de girafa para amamentar leão. Gás onde não pode, eletricidade onde e como não deve, fiação exposta, mais gente e peso do que a barca carrega, e… Devo continuar?

São só algumas de nossas filosofias as caducas. É relativamente pouco o que o Brasil precisa hoje para chegar ao zero a zero. Nesse zero a zero, ganha quem tem mais, e por pura sorte nós temos muito mais demográfica e geograficamente do que a esmagada maioria, incluindo os grandes poderes. Acendamos nossas velas. Sejamos diferentes.

 

RF

Nota do Supra Suma: Paulistanos, já ouviram falar no conceito de carpool, uma espécie de carona social? Se cada motorista levasse um colega ao trabalho, à escola, ou qualquer outro destino rotineiro, em turnos alternados, aposto que reduziríamos o trânsito mais do que esse rodízio idiota ao qual estamos submetidos. Já não encheu o saco nunca poder chegar a lugar nenhum? Abráx.

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