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No Brasil, recentemente, houve uma amostra da polarização política das massas depois do trágico diagnóstico do ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.  O “debate”, se é que assim pode ser chamado, não é o travado na grande mídia, ou entre a grande mídia e as emergentes, ou entre a esquerda e a direita intelectual do país. Trata-se de discórdia popular. Não falo da campanha em nome da recuperação pronta de Lula, mas aquela que exigia que o ex-presidente se tratasse pelo SUS. Muitos soltaram imediatamente uma contra-campanha de repúdio. Jornalistas como Paulo Henrique Amorim e Maria Inês Nassif não economizaram adjetivos de desprezo e desdém  à atitude de parte da população brasileira virtual. Nas redes sociais, muitos divulgaram o quanto são diferentes das pessoas que “ironizavam a doença do ex-presidente”; o quanto são “melhores pessoas”.

O ódio social é, de fato, inerente no país. Os mais pobres mantém ressentimento e raiva dos mais ricos. Os mais ricos nutrem medo, asco e neuroses múltiplas pelos mais pobres. Psicologicamente, enquanto uns queriam estar no lugar dos outros, os outros urinam em seus colchões com o mero pensamento de estar no lugar dos uns. A desigualdade social, alimentada por séculos de mercantilismo, oligarquismo e protecionismo anti-meritocrático, ainda é a maior pedra no sapato do gigante sonâmbulo. Quanto maior a desigualdade, maior a instabilidade social, e maior o canyon cultural, intelectual, informacional e civilizacional entre os membros da mesma população. Assim, o Brasil tem diversas espécies de brasileiros, como uma mente sofrendo severos distúrbios de personalidade.

Em primeira instância, participei do movimento pró tratamento pelo SUS. O principal argumento contra minha atitude foi que eu seria parte de um movimento elitista, com preconceitos contra Lula, e que minha ironia seria de extremo mau gosto. No entanto, minha atitude jamais se espelhou em elitismo (todos somos elitistas, só depende da elite, e tudo que sou contraria a espécie de elite caracterizada pelos meus inquisitores), eu não tenho o menor preconceito contra a pessoa ou o Presidente Lula, e mau gosto é relativo ao objetivo do protesto.

Inicialmente, me identifiquei com duas características principais do movimento. A primeira, a possibilidade de se encarar uma crise com projeções positivas a soluções definitivas. Não é lógico, apenas sentimental, esperar que uma figura importante como Lula mudasse a lógica do SUS, mesmo porque o SUS é perfeitamente qualificado para tratar da doença do ex-presidente, e Lula jamais ficaria em filas de espera. Ainda assim, seria interessante que a classe política fosse mesmo exposta ao serviço público em todos os seus anais, ou seja, que vivesse dentro do mesmo sistema problemático. Lula sempre afirmou vivê-lo. Até brincou que queria adoentar-se para ser tratado por uma UPA. Lula subiu ao poder através do populismo, e conquistou a população com o mesmo, algo nada novo na história da América Latina. Está aí a segunda característica do movimento. Se Lula foi populista, e se sempre clamou ser parte do povo, a exigência nada mais é que um concreto “siga sua imagem à risca”. (José Alencar não despertou manifestação similar, mas seguindo a lógica, faz sentido, se bem que, para os fins acima citados, poderia ter sido o primeiro alvo).

Inspirado por alguns comentários sábios da “oposição” em meu circulo imediato, resolvi  deixar a ironia – e o movimento – de lado. Em alusão ao debate pró-aborto e “pró-vida”, na qual advogados pela escolha da mulher são julgados como “anti-vida” pelos rivais, qualquer manifestação “pró-SUS-presidencial” é julgada como “pró-morte-de-Lula”. Perdeu a graça. O ponto foi perdido no ambiente polarizado. O protesto, se é que pode ser chamado de protesto, mais parece “briga entre torcedores de Fla x Flu”, e apesar de gostar de briga, me cansa rapidamente. E, sim, há quem realmente deseje a morte de Lula, o que é direito dessas pessoas, mas que já desconfigura a intenção do movimento.

Ainda assim, acredito que há lugar para a discussão, e que a vantagem da liberdade de expressão é muitas vezes doar-nos essa oportunidade, quando em um ambiente de censura o debate público seria impossível. Parte da população parece indignada com a imagem de Lula, e nem todos são elitistas preconceituosos de mau coração. Lembro-me bem que um segmento massisso de seus aliados se decepcionou, e muito, com seus dois mandatos. Lembro-me que o próprio Pasquim, jornal humorístico esquerdista que muito me influenciou, usou o governo de Lula e bem usado em sua sátira pesada e negra. Sei que entre aqueles “doentes repugnantes” que divulgaram o “pró-SUS”, há muitos esquerdistas indignados. No meu grupo, ninguém “da elite” (parte desta envergonhada já pela lei de bando, portanto silenciosa) levantou a bandeira. Só pés rapados como este que vos escreve. Nenhum deles desejou a morte de Lula. Uma amiga virtual relatou sua experiência com o câncer e a experiência de sua amiga, menos afortunada, com o SUS, e exigiu que a campanha fosse levada a sério.

O argumento, de que seria de mau gosto se aproveitar da fragilidade de Lula para atacar seu governo, faz sentido na esfera das atitudes civilizadas. Não é de bom tom ser insensível, e é óbvio que desejar o câncer alheio é um péssimo modo de lidar com conflitos pessoais. Ainda assim, exigir o tratamento pelo SUS e desejar a morte do presidente são duas coisas completamente diferentes e, caso associadas, trazem ainda mais luz à causa de quem o exige. Quem reclama da ineficiência do SUS não está reclamando por nada menos que a vida. Se a vida de Lula é mais importante do que a da população que presidiu, algo grave falhou em seu governo. A população é a mais importante, e esta sofre, deveras, com a exclusão sistemática. Negar os defeitos do sistema para exaltar Lula, ao meu ver, é o único verdadeiro pecado, a repetição histórica do caudilhismo popular, tudo que tínhamos medo.

Lula, lembremo-nos, sempre foi personagem cuja revolta expressava muito bem em seus anos longe e perto da presidência. Sentimento que o mesmo precisou ceifar para centralizar-se e vencer as eleições de seu primeiro mandato. Se a ideia opositora é silenciar e envergonhar a adversária, faz o mesmo que julga errado, mata o rival e o considera inimigo. Esse é um problema democrático que ainda não sabemos solucionar.

Já na questão política, Lula perdeu uma grande oportunidade, ao meu ver. Deveria, sim, tratar-se pela rede pública, ou ao menos mimicar tal tratamento. Foi seu discurso milenar, durante toda a vida. A inclusão social e o erguimento das massas desiguais é seu legado teórico à humanidade. Ganharia um prêmio Nobel da paz se assim o fizesse, e seria reeleito presidente antes mesmo das próximas eleições. E, é claro, seria tão bem tratado quanto é no Sirio-Libanês.

RF

Nota do Supra Suma: O autor do texto e toda a turma do Suma deseja a pronta recuperação do ex-presidente, sem sofrimento e com êxito revolucionário até para parâmetros futuros no prognóstico de cânceres diversos. Porque Lula não é um simples mortal, tudo o que acontece com ele e a ele é de importância mundial. Portanto o desejo de que se tratasse pelo SUS. Sinceramente, e sem ironias.

 

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