A inflexibilidade de ideias é o pior inimigo da humanidade. Enquanto lia o livro de Amós Oz, “Contra o Fanatismo”, pensava na Terra de Israel que fui educado a amar, minha pátria. Antes de religioso, estudava em escola sionista. Quando religioso, Israel existia para mim como a essência de seu conflito, que jamais foi de ausência, mas sim de excesso de identidade. Tinha meu partido, era a favor do time israelense, o time judaico, o time que garantiria a vinda do Messias em território indisputável. Como integrante desse time, ouvi e proferi atrocidades e perversões ímpares, como o que disse a esposa de um dos rabinos com quem trabalhava:

“Há de se matar todos os árabes, incluindo as crianças. São como o câncer, se você não erradica tudo, ele sempre pode se espalhar.”

Antes mesmo de ler Oz, já concebia o conflito entre Israel e Palestina como o conflito entre dois errados. Oz o classifica como “conflito entre dois certos”. O importante é que as únicas vítimas, os únicos inocentes, são as crianças, jovens demais para entender do que se trata o conflito, como as crianças da Segunda Guerra Mundial. Para entendê-lo é necessário, aliás, duas virtudes que aos infantes faltam por falta de tempo e escolha: conhecimento e flexibilidade de ideias, que está acima da mera tolerância.

Há pouco mais de dois anos, conheci Josué Canda, um indivíduo que sabia basicamente tudo o que podemos saber sobre o conflito de Israel com a Palestina. Sabia a história, o contexto, e ao longo de sua experiência pesquisando o holocausto, o povo judeu, suas raízes, sua política, seus dilemas culturais e sua região, mudou também de opinião: de anti-sionista a não-sionista; de anti-Israel a pró-paz; de ressentido do povo judeu e amante da causa palestina, a admirador de ambos. O indivíduo que conheci aquela noite, há aproximadamente dois anos, não era jerosolimitano, nem judeu, nem israelense. Era brasileiro do interior paulista, descendente japonês, que cresceu militante de boas causas, mas que, a partir de determinado ponto em sua vida, já infiltrado na nata do jornalismo brasileiro, largou a ideologia pura a trocá-la pelo pragmatismo intelectual. Compreendeu, parece-me, que as opiniões pecam por falta de conhecimento e inflexibilidade de ideias. Em sua jornada, ouvira como do povo palestino, também, vinha o grito pueril e mal-educado:

“Morte a Israel! Morte aos Judeus! Atirem-nos ao mar!”

Não parecia necessariamente ser uma pessoa pragmática. Tinha paixões e inclinações e torcia para seus times do coração, e tinha alguns, como o São Paulo tri-color, e Israel, o país e o povo. Era, de fato, israelense por identificação, convertido marginal, mas esse era segredo aos mais íntimos. O que não lhe faltava, no entanto, era conhecimento o suficiente para saber o que funcionava e o que pesava nas interações sociais e, particularmente, políticas entre os dois povos. O que lhe sobrava era flexibilidade de ideias. Com essas virtudes, traçou justamente o perfil psicológico dos lideres israelenses e sacou um raio-x da origem de suas perspectivas para o país. Percebeu, com carga pesada de literatura e até visita à Terra Santa, que o conflito entre Israel e Palestina iria terminar. Tinha de terminar, dizia. Queria que terminasse, é certo, mas sua afirmação não vinha de sentimentalismo barato, e sim de pura consciência de que a situação atual não pode continuar vingando.

Sua lógica me influenciou para o resto da vida, e se não me faltavam boas influências, a dele foi a mais importante e marcante em seu contexto. Para Josué, quando faltam recursos e a fadiga impera, o mais provável é que exista maior união pela sobrevivência. O acordo é sempre preferível à mútua extinção. O problema é que ainda há, nos dois lados, quem pense que possa vencer o vizinho.

Não sei se Josué havia lido Amós Oz, mas imagino que sim. Não sei se leu particularmente o livro que menciono no texto, mas deve ter lido, mesmo porque suas pesquisas não poderiam ser completas sem ele. Quando professava, contudo, tecia suas ideias de modo lúcido, claro e original, sem precisar basear-se em Oz. Oz mais bem podia basear-se nele. Ele sabia o que Oz sabia. Provavelmente não partilhasse de todas as suas opiniões, mas o que o jerosolimitano puro – que cresceu em Jerusalém e lutou por Israel – pensava, o japonês nascido em Ourinhos pensava também, e acredito que ainda melhor.

Uma de suas sugestões, minha favorita, era usar a escassez d’água, comum nas duas nações, e o capitalismo, comum nas duas nações, para chegar a mútuo acordo duradouro. Oz sugere o “divórcio”* dos povos, e a criação imediata do Estado Palestino, onde ambos terão de se comprometer além das suas inflexibilidades de ideias. Josué sugeria que o trauma da sobrevivência, cerne do nascimento do Estado de Israel, criara a rígida mentalidade de constante medo e alerta ao perigo, ou a “síndrome do holocausto”, que melhor aprendi com ele. Sanando a síndrome, Israel perceberia o povo palestino sem o trauma da persecução sofrido na Europa e, antes dela, ao longo de sua história. Já o povo palestino precisa perceber que a união dos dois povos seria mais lucrativa e beneficiente do que o conflito e a mútua negação das existências opostas.

Não justificava mortes. Não havia morte certa, ataque correto, e com ele aprendi algo que me foi essencial nos estudos das relações internacionais: As bombas, mísseis e incursões de ambos lados são modo de diálogo regional. Assim conversam, assim se expressam e assim se ouvem. A violência substituiu o verbo. A inflexibilidade de ideias e a falta de conhecimento da causa alheia criaram, por inércia estúpida, um novo e sangrento dialeto. É necessário erradicá-lo, este sim, como o câncer que é.

Se Josué acreditava piamente na paz, era simplesmente porque não acreditava que Israel fosse deixar de existir, pela paixão que cultivara pelo país e por seu povo, e por sua história milenar de sobrevivência. Só a paz, urgente e eficiente, salvaria sua existência. Quando levantei meu ceticismo, contudo, a respeito da resolução, me chamou de pessimista, e cobrou-me mais “judaísmo”, como um corinthiano cobra do outro mais “corinthianismo”. Ser chamado de pessimista e judeu faltoso por Josué não era para qualquer um. Pode-se dizer que ele era epítome de pessimismo, mas eu sabia que compreendia o judaísmo melhor do que a maioria dos judeus.

O certo é que, com Josué, aprendi que certos conflitos são mais humanos do que sectários. Há uma inerência inegável em nossa rigidez ideológica, religiosa e política, que nos leva, na inércia, ao conflito. Criamos conflitos reais justificados por hipóteses abstratas. É preciso imaginação para pensar além do contexto da “síndrome do holocausto”, e da “tirania israelense”. É preciso conhecimento, não só de Israel, mas do mundo, para conceber a insensatez que o fanatismo procria como bactérias em ambos lados, sofridos e arrasados com o conflito, que persistem em não reconhecer seus erros e competir pelo maior berro. Conhecimento profundo que Josué tinha.

Se ele disse que haverá paz, acredito que haverá paz, suspendendo, mesmo que temporariamente, meu ceticismo. Imaginem só, um japonês de Ourinhos, jornalista por excelência e, ao mesmo tempo, crítico veemente da imprensa… Era antítese da inflexibilidade de ideias e exemplar em seu vasto conhecimento. Bom que tive a honra e o raro privilégio de aprender com ele. Espero que as palavras de Josué sejam as certas. Pelo bem da humanidade, é o que mais espero.

In memoriam Josúe Canda (1960-2011)

*Uma alusão à partilha de bens que ocorre em um divórcio, onde ambas partes precisariam “conviver no mesmo apartamento”, logo conceder e comprometer-se um com o outro, para conviver em plena paz.

 

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