12, de Beti Timm

D’outro lado da janela
que de cortina só tinha água,
brinca o menino encharcado,
imerso em poças que pipocam
sob sua sola como bolhas de sabão.

Escorrega-bunda na sua, regada da chuva,
levado nela ao lamazal.
Sorri, disperso entre as gotas kamikazes e
desatento ao caos particular, atolado
em seu momento
isolado.

Ele criança em pé d’água,
esquecido dos pêlos cálidos
da toalha de mamãe.
Nefel, lobo-mau da ribanceira de riba,
cafunga os males humanos. Descarrega
os ombros da criança, que parecia
cansada
de carregar neles um mundo.

Metafísico, esparramado entre os grãos
de areia agarrados, desgarrando-se em lama
esguia, traiçoeira,
caçoa a meleca que fantasia
sua pequenina mão.
Era sapo escamoso, ou índio mikosookee,
ou vilão de bangue-bangue de televisão, ou…
Era mais bandeirante, desbravador das terras
temperamentais.

O vendaval vendava ventos em sirenes repreensivas,
e ele, já sem a regata acizentada que o acorrentava,
patinava ao pavimento liquido.
Pescoço esticado, expandia a boca,
e esperava a maná,
imperador noir.

E a tempestade não dava a acabar,
como o Conquistador,
mesmo o tempo fazendo-se avarento.
Não era destinada a ele a avaríce que reinava deste lado da janela.
Fazia-se ele seu rei,
iluminado por seus lampejos.

RF

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