Datena, amante do sensacionalismo, nada brilhante

 

“Was l ever crazy? Maybe. Or maybe life is … Crazy isn’t being broken, or swallowing a dark secret. lt’s you or me… amplified.” (“Será que algum dia fui louca? Talvez. Ou talvez a vida seja … Louco não é estar quebrado, ou engolir um segredo obscuro. É eu e você… amplificados.”)*

Na pele da escritora Susanna Kaysen, Winona Ryder encarna uma das personagens mais complexas do cinema hollywoodiano. Internada pelos pais em um hospício após tentativa de suicídio (mais tentativa de chamar a atenção, mas aí está a graça), a escritora passa a encarar a realidade extrapolada na convivência com pacientes fronteiriços** (como Angelina Jolie), psicóticos, sofredores dos maiores e menores, piores e menos piores distúrbios de personalidade, e até psicopatas. Susanna interpreta, assim, a complexidade da loucura, cada vez mais comum nas sociedades modernas, e cada vez mais espalhafatosa. A loucura é o excedente da realidade. Quiçá seja a loucura o sensacionalismo da realidade.

Como na loucura, o sensacionalismo extrapola fatos diários, comuns, e extrai deles o que pretende extrair, expondo às vezes detalhes irrisórios, outras simplesmente escatológicos ou bizarros, criando significâncias onde estas não necessariamente, para a sanidade mental da humanidade, deveriam existir. Não é mal de determinada cultura. É pandêmico e, ao mesmo tempo, relativo, em grau e natureza, em cada sociedade. Encontra cerne na religião, no conto folclórico, bíblico, mítico ou infantil contado com ênfases exageradas, como se cada descoberta fosse mágica, e de fato, em seu contexto, é. A loucura encontra cerne na religião exatamente do mesmo modo, quando materializa o mágico e o substitui à realidade. Como o sensacionalismo exagera o conto, a loucura exagera a realidade.

Portanto, filosofias sobre loucura e sanidade a parte***, quanto mais cultivado o sensacionalismo, mais parece cultivada a loucura. Para a tão latente apreciação do sensacionalismo, é preciso vivenciar o mundo com uma mentalidade infantil ou fronteiriça, que suscita sempre a busca de sensações, para poder, justamente, sentir algo. Ilustrando, em comparação ao “nada” sentido pelo fronteiriço, é muito melhor sentir dor, como nos casos em que o paciente se auto-flagela com cortes cutâneos. Quanto à criança, a busca incessante por sensações advém de sua constante curiosidade. Dependendo do nível de maturidade do invidivíduo, a curiosidade nunca é aplacada por algum desequilíbrio ou distúrbio que impeçam a assimilação de experiências, ou até mesmo a falta de capacidade intelectual de assimilá-las.

Essa busca acirrada por sensações pode determinar, a priori, dois mecanismos distintos do comportamento humano e sua psique: A pessoa pode procurar sensações pela incapacidade de lidar com as sensações que sua vida lhe proporciona. Nesse caso, a busca pelo sensacionalismo é a busca por sensações que possam ser absorvidas por pessoas incapazes de absorver as próprias sensações naturais. Em outros casos, trata-se da banalização do humanismo, da violência, das emoções e do cotidiano. A banalização também advém, de certo modo, da dificuldade de lidar com o que é banalizado. Ao contrário das pessoas que se enquadram no primeiro caso, nesse não existe o afastamento do que incomoda e a busca sedenta pelo que não incomoda, mas o que ocorre é a transformação do que mais importa em inimportante, e vice-versa, degradando a realidade e louvando a sordidez.

Não sou psicólogo, apesar da convivência constante com a profissão. Não dou meus pareceres espertos nem profissionais. Escrevo apenas o que observo, e pelo que observo, não existe lugar para o sensacionalismo em uma mente madura e sã. Ele até encontra lugar em contos mitológicos e religiosos, especialmente infantis, mas em sociedade madura, desenvolvida e não patológica, o produto sensacionalista não vende tanto quanto vende em sociedades de características opostas.

O Brasil, desde sempre, mas cada vez aparenta fazê-lo mais, tem um povo que aprecia, compra, vende e usa o sensacionalismo para praticamente tudo. Há sensacionalismo respingando das telas da televisão até  quando passam telenovelas e seriados nacionais. A quantidade de programas exclusivos para o sensacionalismo, comandados por pessoas carrancudas, toscas e raramente brilhantes (muito pelo contrário), é abismante. Nos noticiários mais sérios, como o Jornal Nacional, a importância atribuída a notícias de crimes violentos é tão grande, que  acabam banalizando a violência (que deixa de ser notícia se acontece o tempo todo), defeito exclusivo do sensacionalismo.

Ainda pior, quando grupos militantes brasileiros querem divulgar uma causa (como anti-homofobia, feminismo, ou anti-racismo etc), apelam quase que exclusivamente ao sensacionalismo, tentando chocar o público alvo e assustá-lo a concordar com uma causa. Em minha experiência, há ocorrências clássicas advindas de propagandas sensacionalistas, dependendo do público. Caso a pessoa for contrária à violência contra homossexuais, mostrar homossexuais sendo agredidos só aumenta a repulsa que a pessoa já sente, ou seja, não avança a causa. Caso aprove a violência contra homossexuais, a pessoa aprovará as imagens e, até frequentemente, se excitará. Sendo indiferente à violência, a pessoa não começará a abominá-la pelo sensacionalismo, mas sim temer o que foi mostrado e, provavelmente, sentir total aversão à causa por associá-la ao mal nela expressado. Infelizmente, percebendo o comportamento de espectadores e consumidores midiáticos medianos no Brasil, parece-me que a maioria das pessoas aprecia o que vê com a mesma curiosidade mórbida e pueril que carrega um infante ou alguém com distúrbios psíquicos ou retardo mental. Estão quase todos, portanto, comportando-se como quem aprova a violência, vangloriando a mesma, tendo-a como o principal tema regente de suas rotinas.

Mais sintomático ainda é abominar o humor negro de comediantes como Rafinha Bastos, mas apreciar um Brasil Urgente ou um Cidade Alerta ou o extinto Aqui e Agora. Impossível ser a apreciação do sensacionalismo ou depreciação do humor negro, nesses casos, uma mera questão de gosto ou conservadorismo. Indica um nível patológico ainda mais elevado, no qual a pessoa sente excitação quase sexual pelo que vê, mas é de tamanho narcisismo que não tolera que o humor, que substitui o sensacionalismo, que critica o sensacionalismo e que reduz o sensacionalismo, seja proferido, e creio que justamente pelos motivos citados nesta oração.

Não é normal esse excesso de busca incessante, acirrada, sedenta e patológica por sensações. Os sintomas da exposição banalizada à violência são bastante aparentes, mas a população não conecta os pontos. Dizem nos noticiários que a epidemia de stress, ansiedade e depressão vem de um cotidiano cada vez mais difícil e turbulento. Não faz sentido. Temos mais tecnologia facilitando nossas vidas, o trânsito é infernal, mas nunca tivemos mais ferramentas para lidar com o mesmo, e nossas tarefas estão cada vez mais facilitadas pela evolução natural de nossa espécie. O stress, a ansiedade e a depressão epidêmicos são frutos da exposição desenfreada a tudo que é pútrido e nefasto em nossas sociedades. Seremos mais saudáveis se procurarmos menos sensacionalismo. Seremos mais maduros se não precisarmos apelar diariamente à caça de sensações. Seremos mais sociedade se deixarmos, de uma vez por todas, de banalizar-nos como tal.

RF

*Garota Interrompida, James Mangold, 1999.

**Até pouco mais de meio século atrás, pacientes considerados atualmente “borderlines” eram considerados “pacientes intratáveis”. Felizmente, isto mudou.

***Recomendo a leitura de “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdã.

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