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Se das coisas menos importantes na vida, a mais importante é o futebol – frase de Arrigo Sacchi* que só não tenho entre aspas por não saber o que ele disse em exatas palavras – esse texto pode ser tão importante em sua desimportância quanto desimportante em sua importância, ou qualquer outra possível mistura da lógica.

O ambiente desta manhã de 18 de Dezembro de 2011 marca, quiçá, a final concordância, correspondência e o fim da negação do contrário, de uma era em que o futebol brasileiro era o melhor. Nosso melhor time, e assim querem praticamente todos os “emissores da verdade” das grandes e pequenas mídias, apenas mostrou-se um time medíocre. Falo com a maior objetividade possível enquanto ainda acontecem os vinte-e-cinco minutos do segundo tempo da épica partida (3 x 0 para o Barcelona), portanto o texto é em “eu” pessoa, e em simulação jocosa, por ser corinthiano e amar outro time, ainda mais medíocre tecnicamente do que este Santos (e quem “falo” isto sou eu), e por ter torcido, nos primeiros dezesseis minutos da partida e, pois, durante ela toda, pelo Santos. O ambiente da manhã é, infelizmente, infeliz.

Este Santos (Brasil) conta com alguns paradigmas “jovens” sobre a realidade do mundo. “Jovens”, assim mesmo, entre aspas, pois foi o que me disse o taxista que me trouxe do Pátio Paulista à minha casa, que deu ao Brasil quatro mil anos para a maturidade. Eu discuto.

Não somos “jovens”. Israel tem sessenta e poucos anos e se comporta com a mesma velhice do Velho Mundo em tantos aspectos, e é tão moderna quanto Estados Unidos e Europa são modernos em outros. Quinhentos anos não é “jovem”. Os paradigmas não são “jovens”, são desatualizados. Entretanto temos, e muitos, paradigmas sobre a realidade do mundo então refletidas nessa triste manhã futebolística.

No Brasil o que se aprecia é o talento. Nada contra, mas pergunte a qualquer talentoso bem sucedido (exceto Romário), e ele lhe dirá que seu sucesso só se deu por maior porcentagem de esforço, trabalho e suor do que a porcentagem de inspiração e talento. A apreciação do talento é também (e tão bem) representada, por exemplo, na veneração (ou ódio) das classes mais abastadas do país**. Esse “talento” (entenda-se dinheiro, grana, tutu, verbas, etc.) é venerado, intocado, endeusado e, assim, odiado, cobiçado e invejado dentro do paradigma cultural brasileiro. Tudo depende do modus operandi daquele momento, do instante no qual dá-se a ocorrência, desde o momento em que se curva um porteiro ou faxineira, até o momento do assalto e/ou sequestro.

O Santos, especialmente no primeiro, mas também no segundo tempo, venerou tanto o “talento” futebolístico de seus rivais, este escrachado nos anais mundiais em qualquer mídia corporativa ou popular, que não deu combate. Venerou, por assim dizer, em seu modus operandi do momento. Podia ter sido dia do Santos, claro que podia. Neymar poderia ter se esquecido de vangloriar o próprio talento e reconhecer o trabalho do grupo, ainda no início da partida, e passar uma bola a Borges que seria gol quase feito. É outro de nossos populares paradigmas, o da superstição, o “do dia da sorte”, a cultura de “torcer” para dar certo, algo que não é propriamente brasileiro, como nenhuma qualidade ou defeito, que são universais, mas que mais se expressam em determinadas culturas, ou se expressam de modos diferentes, mas aqui falamos do Brasil. O Santos torceu para que fosse seu dia. Não foi. No entanto, quase todo dia é dia de Barcelona, mesmo quando enfrenta rivais como o Real Madrid ou o Milan (apesar de que estes, da elite, ao menos combatem). Por quê?

Minha teoria é de que a cultura europeia (e assim a americana, e isto digo por própria experiência), é a de planejamento. Que haja erros nesse paradigma, há, e muitos, que ocorrem justamente em erros de planejamento. O especial do paradigma, contudo, é que baseia-se em planejamento, em uma proposta elaborada, em uma base que, a partir do aprendizado histórico, e a partir da aprendizagem de erros (que pode ser seletivamente esquecida, mas que geralmente não é), torna-se constante. O sucesso da Espanha e de sua seleção, que tem sua base no Barcelona, vem de seu trabalho, nesse aspecto futebolístico, a partir dessa filosofia.

Já no Brasil, a história (a de Pelé, a daquele Santos) é vangloriada (em alguns casos do futebol Brasileiro, por poucos), mas usada para o aprendizado de ínfimos. O Santos demonstrou uma mediocridade que não lhe seria conferível, mas que é a mediocridade da maioria das equipes mundo afora, e assim a mesma da maioria dos Estados. A mediocridade, portanto, e assim finalizando os paradigmas aqui relacionados, faz parte de uma cultura de “esquecimento”. Esquecimento dos erros, especificamente, mas esquecimento de que a glória do talento individual não se repete, quando adaptada à realidade, sem o planejamento, sem a elaboração de uma proposta concisa, coerente e consciente, baseada no aprendizado, em maior parte, dos erros cometidos no passado, sem auto-estima realista (em vez de falso self) e sem muito trabalho e suor.

Assim tentamos, enquanto termina a partida com o resultado de 4 x 0 para o Barcelona, esquecer, como sempre, que Mano Menezes tem uma Seleção com considerável parte de sua base no Santos, e em nada mais. Querendo também esquecer que o Muricy Ramalho é o melhor técnico do Brasil (em opinião generalizada, e pessoal), e que o maestro desta orquestra seria a alternativa técnica (e provável) de nosso futebol.

Já o Brasil parece seguir os mesmos paradigmas, ainda e persistentemente, que o Santos seguiu nesse jogo: Vangloriamos/Odiamos o talento e relegamos a ordem ao caos; torcemos pelo melhor, mas muitos de nós temos preguiça de trabalhar pelo mesmo e, portanto, relegamos a melhora ou ao Governo, ou a forças maiores, sejam elas quais forem; vangloriamos, mais do que devíamos ou em maior número do que devíamos, a mediocridade, o que nos leva, como levou o Santos hoje, a “entrar em campo (nacional ou internacional) com sapato alto”, e não encarar os problemas realisticamente e de frente, como bem poderíamos; nos esquecemos, seletivamente, de nossa história, e quando a lembramos, pouco fazemos com a memória além de torcer, conforme o paradigma acima citado, para que ela se repita, desconsiderando a adaptação inerente dos tempos.***

Adaptação esta que já não nos faz “jovens”. Não nesta era. Não na era em que eu pude enviar dezenas de mensagens via Facebook enquanto o jogo me era transmitido ao vivo do Japão.****

Terminamos, no entanto, com um ponto feliz e uma vela acesa, como disse Neymar, e aqui não ponho aspas tampouco, porque a interpretação é minha: Temos muito arroz-e-feijão pra comer. É certo. Este Santos (Brasil) não ganharia (negociaria justa e igualmente) nem do Manchester City (com qualquer outro Estado desenvolvido), ou seja, de nenhuma equipe (Estado) da elite europeia (do Mundo Desenvolvido). Essa consciência, contudo, a da Neymar, que o Brasil parece adquirir cada vez mais – afinal, estamos na era em que enviei simultaneamente dezenas de mensagens via Facebook pelo meu telefone enquanto assistia a partida – é a vela que estamos acendendo e precisamos acender cada vez mais. Não somos, ainda, mas podemos ser. Pensemos nisto.

RF

PS: A questão da FIFA, CBF e outros escândalos bem se enquadram nas críticas do texto, com erros similares ocorrendo. A questão da Copa do Mundo no Brasil e das Olimpíadas também, tendo em vista, ainda por cima, as prioridades sociais, políticas, infra-estruturais e civis que devem ser levadas adiante.

*Ex-técnico da Seleção Italiania e do Milan.
**O oposto é o medo das classes mais abastadas de serem, de se tornarem, de viverem em situação similar à das classes menos abastadas, o que nos cabe no texto também, como assim visto.
***Vale mencionar que sou consciente do trabalho feito pelas equipes brasileiras, de sua melhora, e de sua consistência que vem, de certo modo, se concretizando. Também estou ciente destes mesmos aspectos em relação ao todo de nosso grande Estado. Ainda assim, o que falta, e o quanto temos de fazer para acelerar este processo, que é acelerável se bem feito, é o que me abisma, e o que motiva meu texto.
****Minhas críticas são válidas a todas as regiões do mundo que mantém paradigmas similares ou que sofrem dos mesmos problemas que sofrem os brasileiros.

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