Introdução.

Esse texto tem não só o selo de aprovação, mas uma boa parte das ideias de cunho psiquiátrico são por sua inspiração a este autor que vos escreve: Portanto, o texto é de co-autoria incorporada do Dr. Luiz Mário Frenkiel.

Você é um esquizofrênico em formação. Como da escola, faculdade, mestrado, doutorado ou prisão, você pode não se formar esquizofrênico, mas, potencialmente, todos temos dentro de nós suficientes pensamentos ilógicos e paranoias que nos levariam, dada a certa ocasião, química, ambiente, genética, circunstâncias da vida e outros fatores que certamente nos fogem do texto, à esquizofrenia. Tudo depende de como a vida é encarada.

Podemos ser esquizofrênicos em determinados momentos, às vezes segundos, de nossos dias. Às vezes por horas, quando, por exemplo, esperamos um ente querido chegar de qualquer lugar do qual deveria ter voltado em hora determinada, mas não a determinou. Às vezes por meses, em muitos dos casos, em países que participam (ou convocam) guerras, quando parentes aflitos esperam pelos amados que, com arma em riste, lutam agora em outro país, continente, remota região do mundo. A diferença entre a ansiedade que carregamos dentro de nós e que pode nos tornar esquizofrênicos, e a esquizofrenia em si, é que quando tememos o pior, não “sabemos” que o pior aconteceu. Ou, por ordem mais técnica em termos psiquiátricos, até que a ansiedade não coíba o funcionamento dos sonhos, não nos formamos psicóticos, portanto, não nos formamos esquizofrênicos.

Nos instantes que se passam no rotineiro ora monótono de nossas maiorias rotinas, vivemos paradigmas diferentes, bastante diferentes, relacionados justamente às nossas expectativas.

Nossas expectativas suscitam três tipos de sentimentos, que serão usados ao longo da série para demonstrar o quanto podemos, de segundo a outro, fazer loucuras (sem estarmos, necessariamente, loucos [ainda]):

Esperança: A expectativa positiva, de que dará certo.

Ansiedade: A expectativa negativa, de que dará errado.

Lógica: Não é bem um sentimento, mas equivale à opção da “inteligência emocional”* de concluir que, em determinados casos, as chances de dar certo ou errado são de no mínimo cinquenta por cento cada. Ou seja, o caminho aristoteliano do meio.

Não seguiremos uma sequência lógica de situações ou fobias. O que buscamos são situações cotidianas e suas paranoias específicas. Com os três ítens acima, criamos um critério ao fim de cada paranoia para que você, leitora, e você, leitor, possam analisar em qual dos quadros se encaixam na maior parte dos tempos de suas vidas, vividas até, é lógico, a leitura do texto da série.

Começamos, pois, com:

Agarofobia

Objetos: Trânsito, Motoqueiros, Sociedade, Mundo.

É a fobia relacionada à ansiedade de estar em lugares abertos, ou, especialmente, cheios de pessoas. É um medo anti-social, como a maioria dos medos, mas é talvez o mais anti-social e rabugento de todos. Imaginem, leitores, vocês no meio do Centro de São Paulo sofrendo um ataque de pânico por motivo não menor de ter de encarar de frente, esbugalhando o corpo para não ser esmagado, a descomunal multidão, que se comporta exatamente como comporta-se o gado ainda não tratado pelas mãos da autista-gênia veterinária Temple Grandin antes do abate. Não seria nada impossível, e muito menos agradável.

A multidão é composta de indivíduos, mas deixa de sê-los. No trânsito, por exemplo, não lidamos com pessoas, com motoristas individuais, e sim com carros, e no trânsito paulista(no) não são carros individuais, é o conjunto de garranchos metálicos e borracha chamuscando de asfalto quebrantado que nem nome tem. O indivíduo torna-se grupo, e para o indivíduo, o grupo não é só maior, é outra “coisa”, uma “coisa” em si, algo separado não só de si, mas de todos os outros indivíduos que ele conhece. A multidão, por tornar-se objeto em si, pode causar medo. Medo, é claro, do desconhecido. A multidão é, necessariamente, um objeto desconhecido.

Conhecemos indivíduos, pessoas, mas não “multidão”. Não conhecemos a “sociedade”, conhecemos integrantes dela, individuais, que se rendem à sociedade (como à multidão) como objeto em si, e necessariamente desconhecido. No caso do trânsito, que também torna-se objeto separado dos carros individuais, os motoristas individuais podem ter, com justa causa, medo dos demais motoristas, porque, como acima dito, não existe o conceito de “motorista individual” na fluência do trânsito, salvo, é claro, em casos de acidentes ou outros, que não devem ser muito mais agradáveis, destacando veículos específicos do objeto “trânsito”.

Além disto, a multidão (ou o espaço aberto, em sentidos que explicaremos adiante), é um objeto que se move com extrema agilidade. Não é parcimoniosa, não se economiza, e ocupa todos os espaços que pode ocupar. A multidão é agressiva em sua velocidade. As motos paulistanas são puro epítome desta violência. Quando passam, exuberam não só a velocidade, mas esta acompanhada do necessário descaso à propriedade alheia, e a tudo que esta possa representar. Neste descaso, a violência reside, na maioria das vezes inconsciente, pelo relacionamento do motoqueiro com o objeto “trânsito”, mas também pela interação do objeto “trânsito” (através de espamos de motoristas individuais criando uma tendência social que constitui, sociologicamente, um objeto para os efeitos deste texto) ao objeto “motoqueiros”, que são muitos, que criam, justamente, tendências conjuntas que os tornam objeto.

Já o “espaço aberto” em si, pelas oportunidades imensas, mais desconhecidas ainda do que o objeto “multidão”, que ao menos conta com faces individuais em sua composição, cria, potencialmente, o medo da imensidão (esta objetificada) em relação ao indivíduo que, aparentemente, tem pudor, vergonha ou receio de sua pequenez mediante o nada, que tudo é em um espaço aberto.

Vê-se, pois, que o mundo (que também é objeto), é maior do que a intenção individual. Para a construção de um mundo onde os objetos se relacionem com maior harmonia, contudo, precisamos de “ajustes individuais”, por assim dizer. São ajustes nos comportamentos individuais das pessoas que compõem, necessariamente, todos os objetos. Quando um número suficiente de indivíduos cria uma tendência acatada pela maioria, gera-se um objeto de características diferentes.

Portanto, eis as três formas individuais de se lidar com os objetos “multidão” e “espaços abertos”:

Esperança: Se você está em São Paulo, seu paradigma deve ser o objeto “multidão”. Nesse caso, e em todos os casos com o mesmo sistema ambiental, a esperança estaria nas boas faces da “multidão”, ou na expectativa de que a “multidão”, como objeto separado, não seja agressiva. Pode também ser o oposto da agarofobia, a expectativa esperançosa de que a “multidão” é, na verdade, um “gigante bonzinho”. Um objeto beneficiente, com partes podres, é claro, pois afinal não importa a esperança, a podridão sempre estoura, mas beneficiente em geral. O desconhecido, é claro, só pode ser bom. Quanto aos “espaços abertos”, o que pode haver neles, pensa o esperançoso, se não coisas boas, desconhecidas, mas que geram mais curiosidade do que medo?

Ansiedade: O ansioso, fóbico ou não, já sabe que a multidão é perigosa, tem medo da mesma, e se prepara, mentalmente, consciente ou não, para enfrentá-la diariamente. Tem medo do trânsito, portanto se comporta como o objeto, com as mesmas características que teme, por fazer parte do objeto e não saber como lidar com o mesmo. Esse medo, a expectativa de que dê errado, é alimento de ansioso, e o mesmo sente com espaços abertos, imaginando sempre, a cada canto, a possibilidade do ressurgimento de um inseto gigante ou escorpião voador. O receio também acaba dispondo o motorista ou motoqueiro individual a se apressar, para corresponder à velocidade dos objetos “trânsito” e “motoqueiros”. Assim, muitas vezes extrapola da agressividade que se torna violência, consciente ou não, emulando as mesmas características que, em seu íntimo ansioso, procura evitar. (Aqui uma ressalva, os motoristas de São Paulo raramente usam da buzina de seus carros. Seguindo nosso raciocínio, não o fazem pela ansiedade que tem da agressividade dos demais, ou seja, um clássico exemplo de uma forma de agressividade passiva, nos casos onde a buzina é necessária para evitar acidentes, e não usada pelo medo da agressividade ativa dos demais).

Lógica: A multidão, o trânsito, a sociedade e o mundo, mesmo os inocentes espaços abertos, são perfidiosos. Só não são somente perfidiosos. São também sedutores, doces, iluminados, curiosos, magistrais e contém ensinamentos e aprendizados preciosos para o desenvolvimento do objeto “consciência humana” (que será tratado, quiçá, em outro de nossos textos). Portanto, só temê-lo não é lógico, bem como só esperar desses objetos coisas boas. As características de certos objetos paulistanos, como o trânsito e os motoqueiros, são de fato perigosas e requerem a atenção do indivíduo, mesmo que este possa, e deva, se comportar de acordo com a lógica do funcionamento destes dois objetos. Há a atenção necessária do andar urbano, e há os cuidados imprescindíveis com o trânsito e os motoqueiros, seja qual for sua categoria, que se não atentos causam, e sempre causam, muitas fatalidades.

E assim termina o primeiro “Nóias – De todos, para todos”, porque ninguém é normal.

*Dos estudos de David Goleman, autor do livro “Emotional Intelligence – Why it can matter more than IQ”, de primeira publicação em 2 de Junho de 1997.

Esse texto, o primeiro da série, é mais um em homenagem ao meu querido amigo Josué Canda, morto no dia 23 de Novembro deste ano.

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