Falarei de meu ano, justamente como não gostaria o finado Josué. É minha retrospectiva, minha exposição. Minha e pronto, e não se pronuncia mais o nome do sujeito, só em meu coração. Porque no final, foi o ano em que ele se foi, assim, no finzinho. Portanto, em minha retrospectiva, em minha introspecção e esta exposta, rendo aqui minhas últimas homenagens, no último dia do último ano de sua vida.

E sobre amor falaremos. E outras poucas coisas…

O ano passado era para ser de superação, e não foi-e-foi. Aliás, foi, porque descobri, no ano que se vai, que todos os anos, e todos os dias, são de superação. Parece banal e até brega repeti-lo, mas é verdade. Nossos sentimentos tendem a se superar, e quando isto não ocorre, nascem nossos traumas, medos, ansiedades, fobias, neuroses e psicoses. Vivo com um psiquiatra e sei do que estou falando (ao menos até onde sabe aquele que vive com um psiquiatra). Pela quantidade de sentimentos que temos durante o ano, imaginem o que seria de nós e do mundo se não superássemos a maioria deles.

Imagens de 2011 - Dezembro - Cornelio Procopio, Norte do Parana

Foram superados alguns medos, e outros não. Me formei em 2011. Olhem que supro disto certa vergonha, não de tê-lo feito, mas do tardio. Formei-me em tantas outras coisas, mas o diploma que mais quis só conquistei em meados deste ano. Portanto, a superação do sentimento de não ter curso superior é definitiva.

Não é em 2012 – em que o mundo certamente acabará – que nossas promessas de melhoras, de evolução, de desenvolvimento, ou quaisquer sejam nossos desejos, serão plenamente realizados. É a soma de nossas conquistas e, ao mesmo tempo, a soma de nossas pequenas superações, que nos trazem a superação, e ainda assim superações seletas, às vezes de sub-superações, mas superações.

Imagens de 2011 - Corinthiano Roxo, com o quase desaparecido Eros - Outubro de 2011

Quando se fala de superação pessoal, e quando se fala em conquistas, o julgamento, penso eu ainda aristoteliano, só vale ao longo de toda a vida, e nada menos. Depois do último suspiro, pesadas na balança nossas atitudes, nossos esforços, e aí deles as conquistas e as superações, nós escrevemos nossas vidas em um livro que só será contado, quando contado (e a maioria das vezes mal contado) pelos ainda vivos. Que tenham boas estórias do ano de 2011. Que criemos boas memórias em 2012.

Enquanto vivos, entretanto, as superações, promessas e outras expectativas da vida são meras contas por nós calculadas para melhor nos animarmos. O essencial são nossos ânimos. Vivemos, elás, deles e de pouco mais.

Porque estou cada vez mais convencido que qualquer viagem minha, conquista minha, vitória minha, nada mais é do que a satisfação que me devo, e como a receberei só depende de mim. De nós, enfim, depende a concepção e o juízo de nossas vidas correntes, dos ânimos e das inspirações e das forças que acatamos durante o tempo que, certamente, sempre passa. Porque quando mortos, nada sentimos, e pouco nos importa o que dizem de nós*, ou o que deixam de dizer. Importa enquanto ainda estamos vivos. Importa enquanto ainda queremos alguma coisa de nós, ou dos outros, ou de nós para os outros, ou dos outros para nós, e assim por diante ad infinitum.

O que regeu 2011 não foi a certeza, e sim seu oposto. A incerteza que tanto tememos, mas que tanto nos é a mais certa: É a certeza pós-moderna, a devida e a correta. Esperamos, novamente, conforme nossos paradigmas permitem. Nossas expectativas, de nós, dos outros e do mundo (o externo), são, ao lado dos ânimos que ansiamos angariar, nossas verdadeiras bússolas. A não superação do que pensava superado em 2010, mesmo com conquistas que considero grandiosas, e mesmo com mudanças que considero insanas, traduziu-se na diária superação em 2011, de tudo o que faltava, e faltará, a superar. As expectativas devem ser administradas, dentro da certa incerteza, para que os ânimos melhor caibam.

Imagens (recuperadas) de 2011 - Papai e seu querido amigo, meu padrinho, Laercio - Novembro de 2011

Acima de tudo, e portanto essencialmente o maior aprendizado de 2011, é que os ânimos que procuramos todos, a grande panaceia ideológica, a verdadeira cura de nossos males, é o amor que sentimos pelo que fazemos, pelo que temos, e por quem está ao nosso lado, a ordem dos fatores não alterando o produto, e sendo a soma íntegra e nada menos para obter o desejado resultado. Acreditem, mesmo que remotamente, mesmo que entre as vísceras ardentes de qualquer perverso sanguinário, há amor, e há a necessidade do amor. Sei que, como iniciei, termino em clichês. São tão verdadeiros e, mesmo assim, tão ignorados que, tantas vezes, ou a maioria delas, deixamos de engoli-los com medo de dores intestinais. John Lennon, ou o autor da frase “Tudo que você precisa é de amor” estava ligeiramente enganado (ou melhor, precipitado, no caso de gênios). Mesmo no contexto de sua geração, o povo precisa de comida, de casa, de saneamento básico, de saúde e de trabalho para obter o que quer. O povo precisa de muito mais do que amor. No entanto, tudo o que precisamos, precisa de amor. Sem isso, a vida se transforma em uma coleção de péssimas resoluções, ou frustradas ou, se concluídas, apenas lastimando um mundo já construído sobre suficientes lástimas.

E não sei bem o que é amor. Conclúo que seja o oposto do ódio, que parecemos saber traduzir melhor. Como diria a canção Teardrop da banda Massive Attack, “o amor [também] é um verbo”, e todos sabemos, no fundo, o que ele requer de nós.

Imagens de 2011 - Hollywood Blvd. - Greater Miami Area - Broward County - meados de 2011

Para finalizar, a única realidade é a qual você constrói com os passos de sua história, e deles suas estórias. As demais tem dizer, mas é seu paradigma, suas expectativas, seus ânimos e desânimos que regem seus anos, tanto esse que se vai quanto esse que se vem. E não, não nos basta amar-nos apenas nesse nosso paradigma. O aut0-amor só vem primeiro, porque o amor ao outro, todos os “outros”, vem depois.

Desejo a todos o melhor, do fundo do que ainda resta de meu coração.

“Ele (Pelé) disse ‘Love’.” (Gilberto Gil)

Abrax, e até 2012!

RF

*Assim diria Lucrécio: “Onde a morte está, eu não estou. Onde eu estou, a morte não está. Porque me preocupar?”

 

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