Tags

, , , , , , , , ,

Antes de mais nada, gostaria de render um acréscimo ao texto passado. Nele, colocamos três ítens de análise de expectativas, e logo os comportamentos condizentes com esses ítens (sentimentos: esperança, ansiedade e lógica, o que de agora em diante chamaremos de objetividade). O adendo:

Não só porque sentimos algo, agimos como sentimos. Há uma frase de Dr. LM Frenkiel que diz que “há de se fazer o bem mesmo estando/sentindo-se mal”. O ítem “ação ou reação” deve, portanto, ser acrescentado. A “reação” tratará de nosso reagir ao sentimento (atuar de acordo com o mesmo), e a “ação” passa a significar, aqui,nossa atitude não correspondente ao sentimento, ou até contrária ao mesmo.

A timidez lhe aflige?

Fobia: Auto-Imagem – Fobia Social: Timidez, medo do que pensam os demais, dificuldade de enfrentar o “outro” (chefe, subordinado, pessoa sexual/romanticamente cobiçada, etc.), etc.

Objetos: O “outro”. O “eu”.

A Fobia Social será bem descrita nas palavras de GJ Ballone*, nas citações tiradas de sua publicação sobre fobias, em geral. Descartei aqui os parágrafos sobre os tratamentos, porque fogem do escopo de nossa proposta. Entretanto, adiantamos que os objetos de nossas expectativas são, simplesmente, nós e os outros.

A separação é melhor acentuada na filosofia de Michel Foucault, que começa seu livro “A História da Loucura na Idade Classica”** comentando nosso relacionamento com o “outro”, o intolerado, desde leprosos a quaisquer outros “outros” alienados pela sociedade (não só da sociedade). O “outro” que alienamos, ou assim argumentaria Foucault, por motivos distintos, é objeto de nosso relacionamento imediato quando falamos de fobias sociais. O “outro” que não se aproxima de nós é o mesmo objeto, porém visto sob ângulo diferente. Aqui um pequeno parênteses:

Para melhor entender as perspectivas acima citadas, que se repetirão pela série, seria interessante traçar um paralelo com os sonhos. Psicologicamente, há dois modos de se encarar o relacionamento que mantemos com os objetos de nossos sonhos. Podemos encará-los como se estivessem vindo a nós (como um ente querido já morto, que vem do além visitar nossos sonhos), ou como se nós estivéssemos indo a eles (no caso, nos deslocamos mentalmente para projetar a imagem do ente querido falecido). Portanto, quando afastamos o “outro” podemos nos guiar por esses dois paradigmas: Pelo primeiro, nós conscientemente nos afastamos do temido/rejeitado etc. “outro”, e pelo segundo, o “outro” se afasta de nós por não querer-nos. Em ambos, a visão do “outro” pode ser severamente deturpada.

O “Eu”

Começamos a falar do “eu” com a descrição dada por Ballone à:

“Fobia Social, na qual o horror é de sentir-se objeto de observação e avaliação pelos outros como, por exemplo, falar em público, escrever diante da observação dos outros, comer em público, etc.”

A fobia é necessariamente um caso clínico que advém, geralmente, de ansiedades e depressões. É um de nossos extremos, mas antes dele, temos alguns estágios de relacionamento com os demais distúrbios:

A timidez pode ser inofensiva, uma idiossincrasia de nossas personalidades, mas dá sinais de um sentimento de inadequação ao ambiente externo. Há inúmeros graus de timidez e, em muitos casos, as pessoas são sempre tímidas em uma ou outra ocasião específica, como falar em público ou, o que é mais raro, posar frente a uma câmera filmadora. Na timidez social, no entanto, onde o indivíduo sente esse “horror” acima mencionado, existe uma série de mecanismos internos atuando e justificando um medo inconsciente. O “eu” sente-se inadequado e julgado pelo “outro”. O “outro” pode ser o mais vil dos vilões ou o mais nobre dos heróis, mas sua imagem é necessariamente deturpada. Por que, afinal, temer a convivência social em uma festa de família, ou no colégio, ou no local de trabalho? O“temor” pode ser justificado, e para efeitos desta seção, a justificativa relacionada ao objeto “eu” é que o “outro” é ou maior ou menor do que realmente é, assim desqualificando e desmerecendo qualquer espécie de contato com o “eu”. Para nossos efeitos, o “eu” aqui é menor do que “outro”, seja qual for sua natureza em juízo de caráter.

A "sociedade" lhe aflige?

Ballone prossegue:

“Na Fobia Social a pessoa é incapaz de conversar com pessoas supostamente diferenciadas, como o chefe, por exemplo, ou trocar opiniões com os colegas de trabalho, expor suas idéias numa reunião.”

E ainda:

“A Fobia Social é o medo patológico de comer, beber, escrever, telefonar, enfim, de agir diante dos outros com risco de parecer ridículo ou inadequado. Em casos extremos, pode resultar em total isolamento. A principal característica dos fóbicos sociais é a ansiedade antecipatória, mal estar que aparece só de pensar na necessidade de falar numa reunião marcada para daqui a três semanas, de receber uma visita, de ter que ir a um casamento…”

Novamente, o caso do fóbico é o extremo, mas há ainda casos mais amenos de nosso relacionamento com o objeto “eu”. Quando tememos “o que o ‘outro’ pode chegar a pensar de mim”, ou seja, quando formulamos nossa lógica comportamental através do que pensamos ser o julgamento externo, estamos atuando as minúcias dessa fobia. Nesse caso, o temor não é ter um contato social, mas perdê-lo, mesmo não tendo propriamente um contato social adequado. Esse comportamento se expressa quando sentimos, por exemplo, “vergonha alheia” de alguém, nesse caso objeto diferente do “outro” que chamaremos aqui de “sociedade”. Trata-se, a modo singelo, de escolher qual “outro” mais importa, se o “outro” de quem sentimos agora vergonha, ou o “outro” que confere a “sociedade”, o “alheio”, o qual originalmente não queremos decepcionar. As questões básicas são: Por que temos medo de decepcionar? Por que temos medo de decepcionar o “outro”? Por que temos medo de decepcionar esse “outro” e não outro “outro”? Qual é nosso relacionamento com a “sociedade”? Temos uma vida social e tememos perdê-la, ou queremos conquistar uma vida social, mas nos sentimos inadequados a fazê-lo? Se não tememos decepcionar ou perder nossa sociedade, e se não nos sentimos inadequados, por que nosso comportamento em sociedade é acanhado, ou seja, como justificar o comportamento?

Vejam que há mais questões do que respostas, mas a ideia original da série é questionar mais do que responder, e as perguntas são para uma auto-análise de vocês, leitores amigos e leitoras queridas.

O “Outro” e A Insanidade

Convivendo com um psiquiatra (sim, é das profundezas desse baú que vos escrevo), pressinto que a “insanidade” como é vista atualmente não se trata apenas do comportamento inadequado de indivíduos, mas de seus sofrimentos e de suas reações perigosas ao mundo externo. Todavia, Michel Foucault traçou a filosofia de que o insano, o doente, é sempre assim considerado pelas “forças maiores” da sociedade. As “forças maiores” podem ser as leis de bando, a aristocracia, os donos das grandes corporações, o governo, a mídia, e tantos outros culpados-em-voga dos males sociais. O que importa é que nós sabemos, na mera introdução à sociologia, que nós agimos em bandos, movidos por algo (por muitos “algos”, ou seja, muitos objetos), e que para Foucault esse algo (“algos”) é o definidor do “outro”, a quem a sociedade sempre ou descarta, ou quer tratar, curar, reprimir ou isolar.

O "externo" lhe aflige?

Em casos extremos, o ódio perpetuado pelo “outro” gera genocídios, e em casos mais modernos, a caça ao “outro” significa que um segmento de nossa sociedade não tem os mesmos direitos que os demais segmentos, por ter opção sexual diferente.  Não são “outros” novos, mas cada geração tem “outros” mais evidentes. O livro de Foucault começa na Idade Média, argumentando que a tendência do descaso ao “outro” iniciou-se desses tempos, do relacionamento com os leprosos. Mais a fundo, o “outro” de Foucault também se resume aos excêntricos, àqueles que mantém culturas diferentes da classe dominante (como os judeus na Alemanha pré-holocausto, ou os imigrantes na Europa, ou em muitas regiões do globo), e se transferirmos sua filosofia à era moderna, podemos incluir tatuados, emos, góticos, cabeludos, mulheres que não usam saias ou burcas (em todas as religiões monoteístas ou não), estudantes, crentes, ateus e nem caetera.

Nesta seção lembramos vocês que a fobia extrema também é derivada de nossa perspectiva negativa do “outro”, e nossa transferência ao “outro” de males que certamente mais nos afligem do que advém do objeto temido. Aqui podemos chegar ao extremo da fobia social de Ballone, mas, o pior extremo é a psicopatia, a desumanização do “outro”, algo que não é mais considerado fobia (nascida de ansiedades e depressões), mas sim sociopatia, caracterizada pela “dificuldade de sentir empatia” pelo “outro”.  Como potencialisamos isso é o que nos separa não só do esquizofrênico, portanto, mas também do psicopata.

O "outro" lhe parece perfidioso?

Nós lidamos com ambos extremos em nossos cotidianos, porém às minúcias, quando temos medo de pessoas que “parecem” ameaçadoras, ou quando mantemos alguma espécie de preconceito, algo do qual ninguém parece estar livre. Quando tememos paquerar alguém, quando tememos encarar nossos chefes, quando não sabemos como conversar com um grupo de pessoas, quando nos acanhamos em locais públicos, nós estamos criando, pouco a pouco, um mundo paralelo, recheado de nossos objetos, a maioria assustadores – seja pela beleza ou pelo horror – e, principalmente, ameaçadores. Os extremos ou nos debilitam na jornada da vida, que é asfaltada de outras pessoas, ou nos tornam ameaçadores às mesmas.

Portanto, podemos lidar com nossas expectativas quanto ao “eu” e o “outro” das seguintes maneiras. Veja em qual você, leitor, ou você, leitora, melhor se encaixa na maior parte de sua rotina:

Esperança: Tanto “eu” quanto o “outro”, nesse caso, são bem vistos.

Confiram esse trecho, do Blog do Além (recomendadíssimo), na suposta voz da falecida Clarice Lispector, a reclamar de citações deslocadas usando seu nome nas redes sociais:

“Em meu livro A Descoberta do Mundo há a passagem de uma crônica que diz: ‘Por que deve ser o nosso inimigo completamente mau, ou a vítima completamente boa? Ambos são criaturas humanas, como o que é bom e o que é mau. E creio que se apelarmos para o lado bom das pessoas teremos êxito na maioria dos casos’.

Essa não era minha opinião. Apenas a reprodução da fala de uma entrevistada do programa da BBC da Inglaterra, na Hora das Mulheres, sobre suas experiências como prisioneira de guerra. Minha opinião, contrária, vinha a seguir: ‘Sei o que ela quis dizer, mas está errado. Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo’.

Um historiador do futuro que resolva estudar o mercado de literatura brasileira do início do século XXI, usando como objeto de análise apenas as redes sociais, há de concluir que eu e o Padre Marcelo somos a mesma pessoa.”

A entrevistada mantinha a postura de uma esperançosa, nem tanto em relação a seu “eu”, que bem pode ser vítima de algum complexo, mas em relação ao “outro”. Já Clarice, segundo o texto, parece ter mais a posição objetiva, mas também mostra resquícios de ansiedade.

No modo de esperança, o narcisismo elevado, ou o que chamamos de false-self (uma imagem frequentemente autoritária que podemos projetar para esconder nosso complexo de inferioridade), pode estar escondido na esperança de que nosso “eu” nunca fique em cheque. Pelo lado do otimismo, tanto encarar o “outro” como algo inerentemente positivo, ou nosso “eu” da mesma forma, são, na maioria dos casos, sentimentos positivos (eróticos, ou seja, construtivos). No entanto, há vezes que nosso “eu” precisa, digamos, “levar uma bronca”, e que deve mesmo haver desconfiança do “outro”.

Ansiedade: Do “outro” só se pode esperar o pior. Pode ser o pior julgamento de um “outro” melhor, ou a irritação incômoda do “outro” pior, mas sempre o pior. Em estado de ansiedade (muitas vezes gerada pela depressão), criamos medos que, em outros extremos, podem bem nos tornar sociopatas.

Nesse mesmo estado, podemos diminuir nosso “eu”, viver com medo, isolados ou não do mundo externo. Como vocês bem devem ter percebido, a fobia social é a base da agarafobia, em muitos casos. Para verificar nossa ansiedade, basta conferir quem tememos e por quais motivos, e quais circunstâncias mais nos incomodam em sociedade, e por quê. Acima de tudo, como veremos abaixo, o importante é como nos comportamos mesmo sentindo estas ansiedades.

Objetividade: Há no “eu” ideias brilhantes, outras nem tanto. Duvidar de nós mesmos parece ser o repetitivo “caminho do meio” aristoteliano. Não que precisemos viver em dúvidas. Precisamos de certezas, é óbvio, mas acima de tudo, precisamos entender que não é que não sejamos perfeitos e sim, somos modelos vivos de imperfeições ambulantes. Devemos refletir sobre nossos “eus” para que possamos criar um paradigma objetivo deles, e colocá-los em cheque quando necessário. Assim pensa o objetivo quanto ao “eu”. Na mesma objetividade, não temem o “outro” que não precisa ser temido, mas tomam precauções. Há, de fato, “outros” perigosos, e seja por quais motivos, há locais onde esse perigo parece mais iminente. Portanto, nosso quarto ítem:

Ação ou Reação: O ponto da série é que todos sofremos de ansiedades (quando já não somos psicóticos ou psicopatas). Em nossas expectativas, aliás, a neurose parece até necessária, bem como a esperança, que também faz parte da maioria de nossos paradigmas. Não importa, logo, se você sente a ansiedade, se você sente vontade de se penalizar pela sua percepção de seu “eu”, de modo a não crescer, mas permanecer estagnado em sua jornada. O que importa é o que você faz com esse sentimento. Se a esperança rege seus dias, há grandes chances de que você seja uma pessoa feliz e, desde que isto não prejudique os demais, ser feliz é nossa meta. Caso contrário, e se da esperança também houver sintomas de amor quiçá exagerado pelo seu “eu”, ou uma visão demasiadamente “sacra” do “outro”, aqui também vale sua atitude, sua ação ou reação. Seremos objetivos quanto ao “outro” que tememos ou o “eu” que repudiamos, ou quanto ao “outro” que amamos e ao “eu” que idolatramos, ou apenas reagiremos aos nossos sentimentos? A resposta a essa pergunta provavelmente define seu paradigma comportamental, o que lhe separa, senhor, e lhe distingue, senhora, de esquizofrênicos e psicopatas.

RF

* Ballone GJMedos, Fobias & Outros Bichos in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005

** “A História da Loucura na Idade Clássica”, direitos reservados à Éditions Gallimard, 1972, direitos na Lingua Portuguesa reservados à Editora Perspectiva, S.A., São Paulo, 1978.

Anúncios