No início de 2008, pretendi escrever um texto sobre o filme “Tropa de Elite”, que fazia sucesso à época (foi lançado em 2007), e sobre o qual se discutia vastamente pelas redes sociais, blogs, e qualquer convenção de brasileiros em fundo de boteco do exterior. Pois, vivia fora do Brasil naquela época. No Brasil, fui leitor assíduo do finado Pasquim e, pela minha vivência e pelos tantos argumentos que encontrava nos blogs que frenquentava, de ideologia similar, adquiri uma certa, digamos, “consciência social” (como falam no filme), antagônica à mera noção da existência de um Nascimento. Em minha lógica, vangloriar um policial violento por ser honesto, ou por participar de uma organização com índices baixos de corrupção, era inconcebível.

Desde criança, entendo que a privação das necessidades mais básicas deforma o caráter humano. Portanto, a repressão ao crime em favelas e regiões mais pobres, e a não repressão dos crimes organizados e de colarinho branco, sem falar na corrupção social e política, eram, para mim, as maiores provas de que a política brasileira policial é falida.

No entanto, naqueles tempos não tinha, ainda, assistido ao filme. Recentemente, assisti ao segundo, não por opção, mas porque me deparei com ele quando liguei a televisão e não consegui me retirar de frente dela. Só depois assisti ao primeiro. Não poderia escrever sobre o filme sem tê-lo visto e, mesmo querendo fazê-lo (taurino descrente de signos e teimoso que sou), fui convencido do oposto. Minha opinião era tão forte, que sentia nem precisar saber o enredo todo para tirar minhas conclusões. Se tivesse escrito à época, mesmo se assistisse ao filme, seria uma experiência totalmente diferente da proposta desta trilogia.

O fato era que não queria assisti-lo. Não gosto de me expor à violência, nem em filmes sobre o holocausto, nem sobre violência urbana, nem qualquer outra espécie. Não significa que já não tenha assistido a obras desse teor, nem que não tenha gostado. Uma das produções cinematográficas que mais me influenciaram no pensamento social foi a venezuelana, “Secuestro Express”, extremamente violenta. Antes do “Tropa”, assisti a “Cidade de Deus”, “Carandiru”, “Estação Central do Brasil” e outros brasileiros que também encenam a violência urbana e social com seus todos requintes cruéis. (Nota: Para entender melhor as questões abordadas por todos esses filmes, recomendo o curta-documentário de Marcelo Masagão, “Um Pouco Mais, Um Pouco Menos”*. Nenhum desses chegou perto de dizer o que diz esse curta). “Tropa”, entretanto, me parecia pretender mostrar a visão de que é correto matar, maltratar e torturar criminosos, algo que me fazia sentir nojo, do qual era absolutamente contrário.

A violência ainda me enoja. Me enoja hoje, aliás, mais do que nunca. Entretanto, com mais conhecimento de Brasil, do mundo, da política social e sociologia, e depois de algumas experiências de vida, quando assisti aos dois “Tropa” pude analisar com mais frieza tanto o conteúdo como a obra artística. Foi bom tê-lo assistido hoje, em meu atual contexto na sociedade brasileira. Adiante, uma análise rasa da obra e pouco menos rasa do conteúdo:

A Obra

Excelente filme, mais do que recomendado e, nesse sentido, acredito que seja exemplar. Há ainda a necessidade da narração  (para mim, muito irritante, demonstrando, por parte da direção, desconfiança e medo de que o público não entenda o que assiste, relegando a linguagem visual do cinema à linguagem verbal do teatro), e entendo e até concordo com as críticas à exploração interminável do mesmo tema, em diferentes tramas, que tanto atormenta e envergonha o país. Por que não fazer mais filmes sobre a vida boa brasileira, seus bons valores, boas pessoas, bons causos, etc.? Argumento válido, mas nada realista. Filmes são produtos e precisam de plateia: Violência vende. A realidade brasileira pode não ser só essa, mas é muito essa também, portanto a reclamação mais me parece negação. Como obra cinematográfica, talvez sejam os dois filmes brasileiros que melhor retrataram o papel que lhes coube. Isto sobre o filme, como filme, e só. O conteúdo apresentarei na segunda parte da trilogia.

*”Um Pouco Mais, um Pouco Menos”:

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