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Nunca pensei que o trabalho da polícia fosse fácil. Nunca pensei que fosse justo ganhar uma miséria para arriscar a vida pela sociedade. Já acreditei, como o fóbico Alfred Hitchcock, que o policial é um ser ruim e corrupto inerentemente, mas, mesmo já tendo meus problemas com os modos operacionais das polícias dos países que conheci, descarto a hipótese atualmente. Acreditei – e as notícias diárias só reforçam essa crença – que a polícia brasileira, além de não contar com respaldo governamental justo, é de formação, execução e filosofia incompetentes, porque, simples e calamitosamente, não funciona. A mentalidade policial no Brasil é primitiva, e não falo só da polícia em si, mas de quem ela supostamente deve proteger, e de quem ela protege de fato, ou, para os leigos, “todos nós”. No filme, talvez não tenha sido a intenção falar sobre incompetência ou primitivismo, mas foi um “sem querer querendo” ululante.

O que o diretor de “Tropa de Elite” quer mostrar, ao que parece, é como o “sistema” é corrupto. No primeiro filme, a crítica também é feita aos consumidores de drogas que, segundo o famoso Capitão Nascimento e seu amigo Mathias, são os culpados pelo tráfico. No segundo, a crítica contra o sistema se intensifica, e o diretor explora mais um ímpeto pessoal contra a funcionalidade natural do cotidiano oficial brasileiro. Nada contra as duas ideias, que não estão exatamente erradas. A primeira mais pecaminosa do que a segunda (por ser uma ideia típica de “solução pronta”, ou seja, a lógica falida de que não deve mais haver usuários de drogas e, logo, não haverá mais quem as venda). A segunda, “bom senso” demais para ser considerada sem melhor análise. É surreal acusar o “sistema”, algo invisível, um “objeto” cuja concepção só advém da construção que o indivíduo contribui à sociedade, outro “objeto” (sobre “objetos”, leiam a série “Nóias, de Todos, Para Todos”) distante e sem face.

Vamos ao primeiro argumento:

“Se playboy não comprasse drogas, não haveria traficantes”.

Qualquer economista ou administrador de primeira viagem dirá que o que move o comércio, e a economia, consequentemente, é a demanda e a oferta. Se a demanda é muito grande e o produto escasso, a oferta torna-se cara. Caso contrário, torna-se barata. Acima de tudo, sem demanda, não há oferta, portanto a lógica de que sem usuários não haveria traficantes não é bem equivocada. É simplesmente simplória e até negligente, mas não equivocada.

Caso houvesse a hipótese de não haver usuários, é lógico que não haveria traficantes… de drogas. Porque traficantes de armas, de remédios sem receita, de mulheres ou crianças escravas e de qualquer produto, popular ou não, no mercado negro, seguiriam existindo. À não ser que disséssemos: “Se playboy parar de comprar droga, armas, escravos, mercadoria roubada, remédios sem receita etc., não haveria traficantes.” “Playboy” até compra armas, mas não em peso. Não é o “playboy” que sustentaria uma “boca de armas”. Nem sustentaria um mercado escravocrata, já que “playboy” compra de tudo, celular novo, carro e moto zero kilômetros, roupas de grife, e até cocaína e maconha, mas é raro ouvir do“playboy” dono de escravos.

Há diversos fatores que incitam a existência do mercado negro. Entre esses fatores, há a genética, o ambiente, a falta de oportunidades econômicas, as mazelas sociais e o condicionamento psicológico de indivíduos (dispor-se a matar ou assaltar requer um estado da psique específico,  caso contrário todo pobre seria criminoso, e não é nada assim que o eixo gira). Pode haver centenas de outros fatores, mas a demanda das drogas me surpreenderia muito se estivesse entre estes. O mercado negro vende o que o mercado livre não vende, e ponto final. Ele não existe porque existe drogados, nem “playboys”, nem favelas. Ele existe porque oferece produtos ou inexistentes no mercado livre, ou vendidos de modo mais conveniente e barato. Ele existe como alternativa ao mercado livre. Portanto, não adiantaria que todos os ricos parassem de usar drogas, mesmo porque as favelas que ainda são regidas pelo tráfico, são regidas por duas máfias: A policial, e a marginal. E máfia lucra com dois ítens básicos: Juros absurdos, e proteção. Mesmo sendo as drogas o principal produto dos traficantes, o mercado negro das drogas é o mesmo das armas, dos escravos, e dos produtos roubados e revendidos, entre tantos outros. É muito mais lógico concluir, portanto, que, com a ausência da demanda de drogas, a oferta seria de qualquer outro produto, vendido no mesmo mercado. E sempre compra quem pode, portanto, sempre haverá produtos “compráveis” no mercado negro, e sempre haverá “compradores”.

O ressentimento contra os mais ricos tem também sua lógica. Além da mentalidade ser intrinsicamente fundada na cultura comportamental brasileira (de ressentimento mútuo entre as classes), ela também advém de dois quesitos: O argumento de que a polícia funciona bem só aos ricos, e age contra a classe média e baixa, o que faz com que muitos conclúam que o rico, que causa a repressão aos demais, é responsável pela fomentação daquilo que quer reprimir. O argumento de que os ricos, que não vivenciam a violência diária das favelas, se aproveitam da existência dessas mazelas para usar drogas, antagoniza esse comportamento ainda mais. No entanto, ambos são superficiais.

É fato que quem mais “faz rir”, mais “ri” no Brasil. É fato que a polícia se distribui como bem entende, onde e como melhor lucra. É fato que a repressão de classes existe, e quanto maior o índice de desigualdade social (no qual o Brasil é campeão mundial quando não ocupa as demais posições do pódio), maior a repressão e menos recursos para combatê-la. No entanto, não são os ricos que fomentam o mercado das drogas. São os ricos, mas também são pessoas de classe média, pobres, empresários, caminhoneiros, baladeiros, médicos, faxineiros…

A demanda pelas drogas não é privilégio de classes. Diriam, então, que só usa drogas quem tem dinheiro para comprá-las. Claro, mas também fabricam drogas acessíveis a todos. Se fosse tão simples, não teriam inventado o crack, a meta-anfetamina, a queratina, e tantos outros tóxicos populares. O mercado das drogas, mais até talvez do que qualquer outro mercado, é capitalista, e o mote principal do capitalismo é tornar seus produtos acessíveis às massas, salvo em casos específicos de produtos luxuosos, como carros da marca Ferrari e Lambourghini, que não são vendidos nem comercializados às massas, e sim ao segmento mais rico da população mundial.

No mais, se antes apenas os ricos podiam ter casa de “material” (concreto), hoje muitos podem; se antes só os ricos possuíam carro, hoje, cada vez mais pessoas possúem; se antes só o rico tinha uma televisão a cores ou computador, hoje muitos podem adquirí-los e, exatamente assim, se antes só os mais abastados podiam comprar cocaína, hoje todos podem comprar seus derivados, e outras drogas estimulantes de efeitos similares, mas muito mais baratas, algumas até de fabricação caseira. Pior que existe uma amarga verdade na afirmação de que só usa drogas quem tem dinheiro para comprá-las: Por isso, tanta gente morre no mundo por doenças cem por cento preveníveis e curáveis, pela falta de dinheiro que impossibilita a compra e uso de remédios “simples” e massivamente disponíveis.

Logo, o uso das drogas não sendo privilégio de nenhuma classe, dizer que uma classe é mais responsável pela multiplicação do uso das drogas do que as demais é uma falácia. Doce falácia, claro, entendo bem que seja assim, uma falácia ressentida. Todavia, pelos dados que tenho, caso os mais ricos deixassem de usar drogas ilícitas, os traficantes ainda sairiam com bom lucro das vendas que realizam tanto em suas regiões, como em outras, a todos os tipos de pessoas, de todos os tipos de classes.

Por outro lado, mesmo havendo repressão sistemática das classes menos abastadas, ela não existe para acabar com a venda e consumo de drogas, e sim para estimular a venda e o consumo de outros produtos, ou para desestimular o choque cultural, a indignação social, a capacidade democrática das classes de valores distintos, e motivar valores específicos, entre outros mil motivos que não inclúem a tal proibição. Não é tanto questão ideológica quanto social, capitalista, psicológica e cultural.

Quanto à visão romântica que muitos “bondosos” tem da favela, digo: “Por favor, não encham o saco. Nem romance é romântico. Ninguém só ‘quer ser feliz’ e viver na sarjeta onde nasceu. Ninguém gosta de viver mal. Poucos sãos tem orgulho de viver em zona de guerra, e o orgulho é geralmente distorcido, advindo da própria sistemática da violência. Miséria, falta de saneamento básico, educação, oportunidades econômicas, infra-estrutura e civilidade não são nada românticos. Mudem a causa ao vegetarianismo, ou sejam realistas.”

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