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Então chegamos ao Capitão Nascimento e o BOPE. No mundo de Nascimento, o usuário de drogas estimula a marginalidade, os maus-tratos, e o assassinato de jovens e crianças. É verdade. Quem compra e vende tênis de marca, aliás, faz mais ou menos o mesmo, seguindo a lógica invertida. Inúmeras grandes fábricas de produtos massificados e populares, como calçados de grife, estão instituídas em países que não se preocupam exatamente com o bem estar de crianças que não encontram oportunidades em um mercado mais justo, e que acabam não podendo recorrer a uma boa educação pela necessidade de suas famílias. Do mesmo modo, muitos adolescentes são assassinados por assaltos de celulares e tênis importados. Isso signifca que comprar algo importado ou mais caro é sinônimo de estímulo de latrocínio?

Morre quem Atira?

Parece piada, mas não é: Esta mentalidade é concreta no Brasil, onde muitos acreditam que, se alguém é roubado, assassinado ou estuprado, a culpa é da “bandeira” que a pessoa deu. Aqui, é comum culpar a vítima pelos atos dos criminosos. É comum, como fez certa vez o âncora Ricardo Boechat, equiparar a negligência de um médico em posto de saúde público (que vê cinco ou seis vezes mais pacientes do que mandaria a norma, e isto sei por experiência próxima de convivência com médicos que trabalham em postos do SUS), ao ato do assassino que causou a visita ao médico negligente. É comum aqui, como em países regidos pela lei Islâmica, culpar a mulher violentada por ter usado esta ou aquela roupa “tentadora”.

Portanto, por mais que muitos filmes tentem e consigam retratar a gravidade dos problemas sociais do Brasil, e por mais que o tema já até canse o público geral, de tão divulgado, é fatídica nossa necessidade de resumir os problemas, encontrar culpados e culpar vítimas. Nesse sentido, Nascimento é verdadeiramente brasileiro. Nesse sentido, o filme se aprofunda sem precisar se aprofundar.

O que o personagem Nascimento não quer nem chegar a pensar, explicitamente, é que muitas dessas crianças morrem nas mãos de policiais treinados a atirar primeiro e perguntar depois. A “estratégia” de Nascimento só atrasa um pouco o inevitável. É relativamente “fácil” culpar os outros pelos atos “estratégicos” cometidos por uns. Ainda, a violência não nasceu e não morre com o tráfico de drogas. Milhares de assaltos, assassinatos e estupros que nada tem a ver com essa estrutura ocorrem em todo o Brasil, longe das favelas cariocas, e longe de qualquer outra favela. O Morumbi, um dos bairros mais “nobres” de São Paulo, é considerado um dos bairros mais violentos da capital. Não porque os moradores do bairro em si saiam às ruas se assaltando, matando e violentando, mas porque o ressentimento de classes é muito mais contundente quando as duas compartilham espaços próximos, como no caso de Morumbi, cercado por uma das maiores favelas do Brasil (ou basicamente toda capital carioca, exceto a Barra da Tijuca). Não é o crack o fator comum desses mesmos crimes por motivos distintos, e sim o ressentimento entre classes.

O grande problema da “guerra às drogas” não é só a mentalidade de guerra, algo que, em si, já acomete a causa, mas sim o fato de que, quando se fala em combate às drogas, poucos agem (falar é gratuíto e filosofar é masturbação mental) contra a desigualdade social, que é um dos principais “culpados” da violência e, quando falam em combate à desigualdade social, pouco ou nada falam sobre os valores que recriam tanto ódio mútuo. Pensem comigo: O rico não pode existir para a paz do pobre, e vice-versa? Me parece, no mínimo, uma utopia infantil. Ambos existirão sempre enquanto sempre durar, e é o ressentimento, o ódio, o sentimento negativo que deve padecer, não as classes sociais. (Karl Marx teria um ataque epilético se lesse esta frase).

Para finalizar, a mentalidade do BOPE transmitida no filme (e não muito distante da realidade da mesma), é que “bandido bom é bandido morto”. Não sou nem tão contrário a isso, para o bem de minha máxima sinceridade. Eu também, ressentido e cegado pela raiva, desejo muitos males a quem causa males. Acredito que, quando alguém desmerece o valor da vida alheia, está conscientemente outorgando o valor da sua própria à mesma sorte. Sou contra a pena de morte por dois motivos, mas nenhum deles é por achar que um criminoso hediondo deva permanecer em vida, ou ser reformado, ou eternamente custeado pela sociedade, na cadeia. Meus motivos, nos quais não me aprofundarei, são a ineficiência da pena de morte, mais do que comprovada, causando muitas vezes a morte de pessoas inocentes, e não diminuindo o índice de criminalidades onde ela é aplicada sem que outras medidas, mais importantes e eficientes, sejam tomadas; além disso, o Estado não deveria legislar nem a morte, nem a vingança de ninguém. Tomando como exemplo a situação de Israel no Oriente Médio, e as mais contemporâneas atitudes da hegemonia mundial, os Estados Unidos da América, contra grupos terroristas, entendemos que a violência repressiva não elimina marginais (quem vive às margens, na marginalidade, pela marginalização de massas), e sim os multiplica. Resumindo: Não sou contra a morte de um assassino. Sou contra o uso da violência para reprimir a violência simplesmente porque não só não é eficiente, é ultra contra-producente.

A conduta de Nascimento

1 – Como todo soldado, Nascimento traz a seu campo de batalha seus demônios pessoais. Talvez ele não tenha cometido, como personagem limitado em quatro horas de filmes, nenhuma grande atrocidade em nome de suas próprias ansiedades. Porém, muitos cometem, cometeram e cometerão, porque foram treinados para tanto, e porque carregam seus demônios consigo à terra de outros demônios. Lembram dos massacres em aldeias vietnamitas? E os soldados estadunidenses que mataram muitos inocentes no Iraque? Lembra alguma coisa?

2 – É um total absurdo usar alguém como informante e depois jogá-lo às ruas. Não que nos Estados Unidos os informantes ou as testemunhas estejam seguros da retaliação de quem foi dedurado, mas um problema é a falta de recursos, e outro muito mais calamitoso é a norma, a regra, de se fazer o mais errado possível sempre, e achar que é o mais certo (“Mathias aprendeu a ser um policial” quando estourou os miolos de alguém, por exemplo). Não só desestimulam informantes e testemunhas, mas também criam mais nichos de ressentimento social. Ambos são problemas recorrentes na maioria das sociedades. O que já é difícil, torna-se risivelmente impossível no Brasil. Menciono este problema justamente porque é essencial que a população revoltada tenha o mínimo de estrutura para reagir contra o crime.

3 – O “sistema” existe, e bater de frente com o “sistema” é sempre problemático. O “sistema” é também um “objeto”, composto de indivíduos e ações coletivas de indivíduos. Os personagens de “Tropa de Elite” mostram muito bem como o caos sistemático gera mais caos sistemático, e, novamente, sem precisar dizê-lo, aprofundam-se na sinceridade de suas atitudes, sem utopias, sem querer inserir personagens “diferenciados”, na mentalidade que perpetua o caos sitemático. Ou seja, quando os personagens, mesmo revoltados, seguem agindo de acordo com a mentalidade simplificatória, diminutiva, e com os mesmos valores que sempre geraram os mesmos problemas, exemplificam o motivo principal da ausência de mudanças concretas no curso desse caos.

Conclusão

Nascimento é um personagem tridimensional, completo e fiel a seu caráter (sente remorso pela morte de um “fogueteiro”, por exemplo, mas faz exatamente o mesmo que levou a essa morte com outro “fogueteiro”, demonstrando que ele pode até sentir remorso, mas segue sendo Nascimento). A maioria dos personagens do filme o são, com poucas exceções. O tema é abordado com a profundidade que conseguiram abordar, e acredito que o fazem bem, com ou sem intensão. Como filme, “Tropa de Elite”, tanto o primeiro quanto sua sequência, é realmente bom (diria ótimo se tirassem a narração de Nascimento, que para mim é legenda para burros, e me ofende). Os valores dos personagens do filme, tanto os piores quanto os melhores, é que são extremamente superficiais, como são, de fato, os valores da maioria da população. Querendo ou não, a trama quer conduzir seus espectadores a um cenário que, concreto, tem sua linguagem e suas expressões, mas que filosófico, não diz nada além do “bom senso”, que é excelente para valores como higiene ou conduta no trânsito ou etiqueta social, mas é péssimo para a análise profunda de tendênciais sociais, visto que o universo de observação não tem “bom senso”, e sua lógica é poucas vezes direta. Invertê-la é muito fácil, como vimos em toda a série.

RF

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