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Em matéria do The Los Angeles Times, de Sexta-Feira 13, os jornalistas Christi Parsons e Brian Bennett discorrem sobre uma das polêmicas mais intrigantes interligando a América Latina e a campanha do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A Sexta Cúpula das Américas, realizada na Colômbia nestes meados de Abril, conta com diversos representantes de governos regionais que, entre outros temas, planejam, sob a liderança e desejo do Presidente Juan Manuel Santos, do país-sede, pressionar Obama para considerar a descriminalização e possível controle regulamentar de drogas ilícitas, destacando-se a maconha e a cocaína. Para Obama, em ano eleitoral repleto de temas domésticos e internacionais afanosos, a mera proposta pode ter consequências indesejáveis. Para a maioria dos países da América do Sul, entretanto, a resolução de um dos problemas mais desoladores da região é urgente, ressaltando a Colômbia e o México, onde as populações são reféns, há décadas, de um poder soberano dos líderes do tráfico.

Eis um assunto que, deveras, sinaliza a nova esquemática política entre as lideranças dos dois hemisférios. De um lado, países afetados por um mercado negro pungente e influente nas políticas sociais e governamentais e, de outro, uma hegemonia claudicante que atualmente vê-se inserida em oceanos de dilemas internos. Como qualquer grande dilema, a complexidade deste confunde-se com a complexidade da relação dos Estados Unidos com seus vizinhos sulistas.

  Houve a era em que os Estados Unidos mantinham a postura explicitamente paternalista sobre a América do Sul, a era em que seguiam o Destino Manifesto, a visão semi-religiosa-nacionalista de que, por superioridade, o poderoso estado tinha o dever de cuidar de todo o continente. A era atual é outra.  O crescimento dos BRIC faz com que os tempos sejam propícios para o comboio sul-americano contra a hegemonia nortenha. Em partes, a ideologia anti-imperialista que ostenta os Estados Unidos como grande rival está mais em voga hoje do que em qualquer momento desde os anos setenta, o que cria clima favorável aos intuitos do presidente colombiano e seu aliado da Guatemala, Otto Perez.

           São Outros Quinhentos

Nos últimos anos, a fronteira do México com os Estados Unidos atraiu a atenção da população estadunidense à violência que o conflito do tráfico pode proporcionar. A realidade da Colômbia é sangrenta há décadas e, no Brasil, os efeitos maléficos do ofício ilícito causam graves problemas sociais em um país que será palco dos dois maiores eventos públicos do planeta nos próximos seis anos. Já no hemisfério do norte, apesar do aumento do uso da maconha nos Estados Unidos (acompanhado da diminuição do uso da cocaína que, por outro lado, aumentou desproporcionalmente na Europa), e apesar da plataforma rígida da administração de Obama contra as drogas, o cenário é completamente diferente.

Por aquelas areias, cada estado tem sua política e infra-estrutura para lidar com o problema. A guerra contra as drogas, elás, foi declarada falida pelo próprio Obama. Existe uma política concisa de  controle regulamentar da maconha em postos de venda medicinais em alguns estados (Califórnia, por exemplo), e há a viabilidade de serviços sociais, públicos e privados, mais eficientes (como policiamento, centros de reabilitação e uma realidade econômica-social incomparavelmente mais sólida). São situações assimétricas, que mantém a epidemia menos contundente no país de Obama. A polêmica, entretanto, não perde sua contundência, e o reflexo é a atuação aparentemente esquizofrênica de sua administração.

            Na teoria, a prática…

A administração de Obama parece obsecada em demonstrar que faz tudo para a erradicação das drogas. No início de Abril, por exemplo, na cidade de Oakland, Califórnia, agentes federais fecharam uma universidade, a Oaksterdam University, por manter um departamento dedicado ao ensino do plantio da maconha. A universidade era liderada por um ativista político pró-legalização, Richard Lee, em um estado cuja legislação permite o uso medicinal da maconha. Para liberais-progressistas, a base mais fiel do partido Democrata e, consequentemente, a primeira base eleitoral necessária de Obama, a mensagem recebida por esta e outras tantas ações similares é de que sua administração é mais conservadora do que a de Bush. Para conservadores, entretanto, Obama poderia pessoalmente curar viciados com um toque de dedos, e ainda assim não ganharia votos.

A realidade política não promete reformas. Para a população geral, em pesquisas, uma mínima maioria de eleitores potenciais ainda se opõe à legalização/controle regulamentar de qualquer droga ilícita. Mitt Romney, o adversário Republicano oficializado nas eleições presidenciais deste ano, já se manifestou com veemência contra a legalização, procurando, como de seu costume, surfar a onda da maioria atual.

Em 2008, a campanha de Obama dava esperanças aos ativistas pró-legalização de que sua política seria mais compreensível e menos rigorosa. Declarou publicamente que a “guerra contra as drogas” era um conceito (tanto prático quanto semântico) falido. Pela política de diversos estados, o uso da maconha já poderia ser regulamentado com a instituição de órgãos competentes. No entanto, a política federal segue rígida, Obama mostrou-se mais conservador no tema do que seu predecessor, e a “guerra contra as drogas” continua.

           Não Importa a Cor do Rato

A Cúpula foi agressiva, com exigências em diversos campos, desde a suspensão do embargo econômico mantido sobre Cuba, a criticas sobre a resistência do Congresso estadunidense em realizar a reforma imigratória. De fato, o segmento de imigrantes latino-americanos está mais preocupado com a reforma imigratória, com suas sub-reformas – como a manutenção de status de residência para filhos de imigrantes ilegais que eram menores quando seus pais cruzaram a fronteira – do que com a política das drogas ou o embargo a Cuba. Calculando que a base eleitoral sul-americana nos Estados Unidos precisa ser convencida da cumplicidade de Obama, a cúpula pode ter efeitos positivos em sua campanha, e possivelmente na política imigratória da hegemonia. Se a reforma na política das drogas é inviável, e se o embargo a Cuba não lastima tanto os imigrantes residentes nos Estados Unidos, a visibilidade da América do Sul, e sua nova esquemática de poderes, podem acelerar outros processos essenciais para o segmento no país.

           Resultado Preliminar

Da Casa Branca, a mensagem foi a esperada: Obama mantém sua política externa de combate às drogas. Na cúpula, a expressão de indignação com a ausência de apoio do Presidente Obama mostrou-se, em realidade, como quase uma exigência para que a hegemonia norte-americana saia do caminho. “Si no me ayudas,” diriam, ao menos não atrapalhe. A hegemonia, conforme sabido e esperado, não consentirá sem esboçar batalhas. Para Santos e Perez, e para as lideranças sul-americanas, as eleições nos Estados Unidos ainda servem como plataforma para evidenciar suas necessidades, clamar por suas soberanias, e atentar a fragilização do candidato incumbente .

Tendo dito isto, Obama provavelmente não vencerá nem perderá as eleições por lidar ou deixar de lidar com problemas na América do Sul em si. Porém, uma das mais prováveis consequências de qualquer nível de pressão submetida pela cúpula e demais reuniões de natureza similar, é o Presidente prestar mais atenção nas reformas domésticas pertinentes para sua população de origem latino-americana, como a citada reforma imigratória, visando recapturar constituintes no segmento. Mesmo assim, a sinalização a ser dada nesta cúpula poderá alertar diplomatas dos Estados Unidos à necessidade de manter-se menos presentes na política sul-americana, para que ainda possam, em absoluto, manter qualquer presença.

RF

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