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Nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou ao mundo todo ser a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Foi uma óbvia jogada política em ano eleitoral, mas engana-se quem acredita que a declaração avança muito seu objetivo. Republicanos já começaram campanha especial grifando a posição do presidente como falha em si, levantando a religião como padrão moralista.

A “jogada” de Obama é perfidiosa, porque, por um lado, apenas metade da população estadunidense apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo (segundo a mais recente pesquisa da Gallup). Por outro, porque Obama havia dito que a união civil bastaria, e agora mudou de opinião publicamente, aumentando as críticas opositoras. Há uma sina contra mudanças posicionais estritamente políticas na cultura estadunidense, e Obama é o mais novo réu desse juízo popular conservador.

Estado Laico

Em estados laicos, o que deve prevalecer é o respeito constitucional aos direitos humanos, e o ideal seria jamais haver qualquer espécie de negação ou censura a tais direitos. Infelizmente, o que ocorre com maior frequência é que os direitos de seletas minorias são ignorados com justificativas de naturezas ideológicas e religiosas. Balela.

Não são ideologias específicas que definem governos e aristocracias específicas. O que define a própria necessidade do governo e da aristocracia, o que define nossas ideologias e religiões e como as expressamos cotidianamente, somos nós, com nossas psiques, em suas naturezas e transformações peculiares.

É desonesto e ineficiente dizer que “Deus quer assim” para justificar a proibição do aborto ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O estado laico deve intimidar a filosofia legislativa baseada em credo. O machismo e a homofobia são males em si, e não sintomas religiosos e ideológicos. Há religiosos que apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É igualmente desonesto dizer que a religião é cerne da intolerância. Nós criamos nossas sociedades. Nós criamos nossas interações. Nós somos responsáveis pelo desenvolvimento específico de nosso universo e, nessa responsabilidade, nós decidimos qual doutrina, qual ideologia, qual causa ostentar, o que comprova que a intolerância é um mal por si, e não fruto de causas, ideologias ou doutrinas religiosas. São as podridões do ser humano que causam os sintomas de suas podridões, e não as bengalas ideológicas e religiosas usadas como desculpa.

Não há homogeneidade ideológica ou religiosa. A ideologia e a religião são sintomáticas de nossas interações, pré-definidas em nossas personalidades, com o resto do mundo. Tem papéis diferentes nas vidas de diferentes religiosos e ideólogos, adaptando-se corriqueiramente a conceitos pré-existentes nas mentes individuais, podendo então estimulá-los de modo tal ou distinto, literalmente como droga de escolha . O homofóbico não o é por ser religioso, e o religioso não o é por ser homofóbico. O ateu não precisa ser anarquista, e anarquistas não são necessariamente ateus. Parecem poucos os cientes destes fatos. É muito mais simples concluir que religião X e ideologia Y são inspiradoras de sintomas da decadência humana, ou sinais de seu avanço.

Pela complexidade das definições do ser, da psique humana, do comportamento social, criamos normas civis de convivência com adversidades e diversidades. A intolerância não advém da religião ou da ideologia, e sim do ser humano. Para tanto, nenhuma ideologia ou religião pode, de modo algum, definir as normas de convivências civis com outras religiões e ideologias. Só a tolerância, mesmo contrariada, é capaz de garantir a paz civil.

Obama Levemente Liberal

O que Obama declarou é importante, porque ora permite a reflexão exemplar de um lider, mas nada mais é do que o famigerado óbvio ululante. Tem o mesmo peso da opinião pública contra as leis de Jim Crow da segregação racial sulista nos Estados Unidos. O racismo não era eticamente correto naqueles tempos, e não é eticamente correto hoje, portanto pouco importam ideologias e religiões nesse contexto. À homofobia tampouco, independente do que diz Obama, ou independente de crenças religiosas e ideológicas. A homofobia, o racismo, o machismo, a misoginia, e todos os demais vícios anti-sociais, são nossos frutos pessoais, e não de academias e igrejas.

Pela superficialidade da opinião pública, no entanto, Obama arriscou-se mais do que avançou sua causa eleitoral. Jogadas políticas a parte, como diz o provérbio judaico religioso, “a ação é mais importante do que a intenção.” O presidente tenta promover avanços já iminentes no mundo livre com seu discurso, e vale elogiá-lo por sua coragem, pois em terra de muitos cegos, quem tem um olho é linxado.

RF

PS: Este texto é inspirado na frase de Octavio Roca, PhD: “Uma maioria votando sobre os direitos de uma minoria é um ato obsceno”, (tradução livre).

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